Deus nos livros

As obras teológicas podem ser elucidativas, capazes de formar cidadãos ativos e livres de fanatismo

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Como nos ensinou Umberto Eco, o livro é uma invenção humana insuperável, como a da colher, da roda, do martelo e da tesoura. Você pode tentar martelar um prego utilizando um livro (de preferência, com capa dura), mas é do martelo que você sente falta na hora de pregar um prego. Aliás, o prego é outra invenção fantástica.

Você também pode tentar compreender a eterna inadequação humana à realidade empunhando corajosamente um martelo, ou uma tesoura. Contudo, tesouras e martelos não têm a menor possibilidade de ajudá-lo, nesse caso. Mais adequado será começar a ler alguns livros de filosofia, história, psicologia, sociologia, teologia…

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No livro, as ideias nos alimentam, nos fazem rodar mundo afora. As palavras cortam o coração, martelam a cabeça, é possível pensar na complexidade de tudo e no possível sentido das coisas. Deus nos livre de não termos livros que nos ajudem, por exemplo, a descobrir os nomes apropriados aos nossos específicos estados de ânimo: tédio é uma coisa, ansiedade é outra, a tristeza é algo diferente de angústia, que é diferente de amargura, que é diferente de desalento.

Não à toa as religiões mais difundidas guardaram nos seus livros sagrados as histórias e os argumentos que as levariam para além do seu lugar e do seu momento de origem. Sobretudo o cristianismo, seguindo o exemplo do judaísmo, valoriza enormemente o livro (na verdade, a Bíblia reúne dezenas de livros), e continua, vinte séculos depois, produzindo milhares de livros para comentar, interpretar, entender e difundir o único Livro.

Deus é o único assunto

Carlos Drummond de Andrade escreveu, na década de 1970:

ÚNICO

O único assunto é Deus

o único problema é Deus

o único enigma é Deus

o único possível é Deus

o único impossível é Deus

o único absurdo é Deus

o único culpado é Deus

e o resto é alucinação.

O poeta brinca com a formulação clássica do monoteísmo. Deus é único, no sentido de que só há um Deus. Mas o adjetivo se desloca e passa a qualificar o “assunto”, o “problema”, o “enigma”, o “possível” e o “impossível”, o “absurdo” e o “culpado”.  Em última análise, Deus está sempre na origem e no destino de todas as coisas. Deus é a eterna discussão e um poema sem fim.

O resto é alucinação, lembrando, ironicamente, o verso já irônico de Paul Verlaine, poeta do século 19: “Et tout le reste est littérature”. Verlaine referia-se àquele tipo de literatura artificial e ilusória que ele jamais chamaria de verdadeira literatura, ou de verdadeira poesia.

Drummond, agnóstico, mas hipersensível, produz nesta única estrofe do poema um discurso alucinado, em que o único assunto é Deus. E o resto (ou seja, o que não é Deus) já perdeu toda a relevância aos olhos do fanático. Para o fanático, Deus é o único assunto de real interesse. A própria educação estaria divinamente encaminhada se a única disciplina fosse Deus, se a única avaliação fosse Deus, se a única didática fosse Deus.

Contudo, são tantos e tão variados os problemas da área educacional. São tantos absurdos (a começar pela absurda desvalorização dos professores) no dia a dia das nossas escolas. Pensando bem, o único enigma na educação é que ainda precisemos repetir o óbvio: sem educação, tudo é alucinação.

Deus nos livros

Foto: Shutterstock

Leituras mobilizadoras

Na Idade Média, a teologia era considerada a rainha de todas as ciências e sentava-se no trono da universidade, que ela própria havia fundado. Hoje, na vida acadêmica, ela ocupa (quando ocupa) um cômodo pequeno, mobiliado com modéstia. Sua realeza ficou no passado. Talvez agora, no entanto, possamos redescobrir seu verdadeiro papel no conjunto dos saberes, se considerarmos que em todos os temas, e em todos os livros, o único problema é o Sentido.

O Deus da Bíblia é o Deus da Palavra. A Palavra ensina, orienta, mas também cria, mobiliza. O teólogo australiano Charles Ringma, refletindo sobre a sabedoria ancestral, observa que Deus é também o Deus da Ação, pois essa Palavra é geradora e produtiva. É palavra que faz o que diz, e cumpre o que promete. É palavra que faz sentido.

Uma leitura faz sentido quando provoca uma ação lúcida. Quando nos salva da alucinação e dos fundamentalismos, dos reducionismos e dos ceticismos estéreis. Quando cria um movimento “de” “para”, e esse “para” é para longe dos abismos desatinados, onde ouvimos o choro do desespero e o ranger de dentes provocado pelo ódio.

As duas preposições “de” e “para” compõem uma proposta de leitura. Se a palavra “Deus” for substituída pela palavra “Sentido”, podemos falar nas leituras teológicas como leituras educadoras, elucidativas, capazes de nos converter em leitores cidadãos, leitores ativos, participativos, produtivos, colaborativos. Deus nos livre de todo fanatismo!

Então, quando o assunto é poesia e política, educação e ciência, e economia, e religião, e ecologia, e qualquer outro, a busca de sentido transborda o livro e nos torna capazes de dizer palavras plausíveis, sugestivas, palavras que atuem positivamente sobre a realidade, que dialoguem com os leitores de todas as crenças e visões.

A leitura teológica reintegra-se aos debates públicos. O único assunto não é Deus, mas, sendo Deus onipresente, a sua ausência é notada.

Teologicamente falando, o absurdo conversa com a fé, o enigma conversa com o milagre, o problema dialoga com o mistério, o impossível dialoga com o milagre… e o resto é discurso alucinado.

Gabriel Perissé  é professor da PUC-RS, escritor e palestrante www.perisse.com.br

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