Amor, ordem e progresso

A aprendizagem só acontece se tecemos vínculos afetivos

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Amor por princípio, a Ordem por base, o Progresso por finalidade – eis o lema adotado por Benjamim Constant, o “Fundador da República Brasileira”. Benjamim foi ministro da Instrução Pública, autor de uma profunda reforma curricular, propôs a descentralização da gestão e uma “formação adequada aos novos tempos”.

Apesar de ter sido militar e condecorado como combatente na Guerra do Paraguai, Benjamim era um pacifista, assumia o princípio de que se deve “Viver para Outrem”. E, ao participar no movimento pela Proclamação da República e na elaboração da Constituição de 1891, pugnava por que a palavra Amor estivesse presente em todas as citações do lema positivista.

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Tal como o Benjamim de há mais de cem anos, sabemos que as pessoas deverão amorosamente colaborar com pessoas, sem com elas competir. Sabemos que escolas são pessoas e que as pessoas são os seus valores. Nos últimos quarenta anos, milhares de vezes orientei a construção de “árvores dos valores”. Cada participante nessa dinâmica de grupo indicou o valor essencial das suas vidas. E o “tronco” da “árvore”, o valor mais vezes referido sempre foi o… amor.

Ordem e progresso José Pacheco

O mais belo hino do mundo nos diz que um raio vívido de AMOR e de esperança à terra desce (foto: Shutterstock)

Numa tese sobre a Escola da Ponte, encontrei a descrição de um episódio, que transcrevo. Nos idos de 1980, o “Tribunal” julgava alunos, cujos nomes surgissem em grande quantidade no “Acho Ruim”. Na proto-história da humanidade, em que os homens ainda precisam de tribunais, prisões e guerras, as crianças imitaram-nos. Até ao dia em que uma menina de seis anos de idade, advogada de defesa de um colega, assim falou numa sessão do “tribunal”:

Vós não ouvis dizer que devemos amar-nos uns aos outros? Eu escutei o advogado de ataque dizer que o Marco cospe nos colegas, que lhes atira pedras, que o Marco é mau. Mas o Marco não precisa que digam que é mau. Ele precisa de quem o ajude a ser bom. Algum de nós já ajudou o Marco a ser bom?

E continuou: Estou nesta escola há um ano e só ouço falar de castigos. Proponho que se acabe com o tribunal e se crie comissões de ajuda.

Assim ficou decidido na assembleia seguinte. E, sempre que o Marco tendia para fazer besteira, logo um círculo humano o rodeava, dizendo: Somos a comissão de ajuda. Estamos aqui para te ajudar. Nós sabemos que tu és bom. Nós somos teus amigos! – E o “mandamento novo” se cumpriu. Nunca mais foi preciso impor regras, reprimir, punir.

A aprendizagem acontece se tecemos vínculos afetivos – se eu existo é porque o outro existe; o ser humano não é apenas um ser de contato, é um ser em relação – e a educação é um ato de amor. Mas continuamos insensíveis aos apelos de Freire e do poetinha: ponha um pouco de amor na sua vida. E, nos arquipélagos de solidões em que as nossas escolas se transformaram, inauguram o desamor, não os desamados, mas os que não amam, porque apenas se amam.

Cadê a palavra amor na bandeira brasileira? Ordem sem amor é violência, porque o adestramento não define a educação e uma educação amorosa é incompatível com a organização autoritária da vida. Progresso sem amor é deterioração ambiental, desumanização.

Na sociedade doente em que vivemos, prevalece a cultura do ódio. Imaginai o que seria este país se a palavra amor não fosse ostracizada. Se o mais belo hino do mundo nos diz que um raio vívido de AMOR e de esperança à terra desce, por que terá sido amputado o lema positivista inscrito na bandeira do Brasil?

*Educador e escritor, ex-diretor da Escola da Ponte, em Vila das Aves (Portugal) josepacheco@editorasegmento.com.br 

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