Conheça escolas públicas que rompem barreiras e oferecem ensino de qualidade

Escutamos especialistas que selecionaram práticas positivas em educação infantil

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Orçamento apertado ou insuficiente para cobrir gastos mínimos na compra de materiais didático-pedagógicos e pagamento de contas. Dificuldade de pais e familiares para equipar, vestir, transportar e manter as crianças nas escolas e creches. Preocupação com a segurança, a integridade física e o bem-estar psicológico e emocional dos alunos.

Em maior ou menor grau, escolas públicas de educação básica brasileira sofrem com esses problemas. Algumas enfrentam um deles, outras uma parte e uma terceira parcela, todos. A educação infantil pública, infelizmente, não está fora dessa realidade – que, na suprema maioria dos casos, obriga gestores e educadores dessas unidades a aumentarem a dedicação e a criatividade. E a serem, também, assistentes e mobilizadores sociais informais na busca de recursos para atender e educar os alunos.

escolas públicas que dão certo

“Os pequenos sentem-se grandes quando são capazes de tomar decisões difíceis” (foto: Shutterstock)

Diante desse cenário conhecido, Educação consultou especialistas para localizar experiências bem sucedidas em EI pública, para servir de inspiração a outras escolas e redes. E também provar que, para além da luta por mais verbas para suprir as carências, é possível fazer bem melhor do que a média com mobilização, empenho, planejamento e criatividade.

Além do horizonte

“Os pequenos sentem-se grandes quando são capazes de tomar decisões difíceis”, resume Marcia Covelo Harmbach, formada em Português e Psicopedagogia pela PUC-SP, diretora da Escola Municipal de Educação Infantil (EMEI) Dona Leopoldina, instalada numa área de oito mil metros quadrados no bairro no Alto da Lapa, bairro de classe média alta da zona oeste de São Paulo. “Um projeto para crianças pequenas exige hoje um pensar diferenciado do modelo proposto nas décadas anteriores. Pressupõe um olhar para o papel da infância contemporânea, um olhar curioso, de pesquisador, pois o desejo de conhecer é fundamental para a criação de práticas para e com a infância”, acrescenta Marcia.

Municipal, a educação infantil pública na cidade de São Paulo e em outras do estado é dividida em duas partes: os centros de educação infantil, os CEIs, para crianças de zero a três anos e onze meses; e as EMEIs, com alunos entre quatro e cinco anos e onze meses.

Ao lado das pedagogas Simone Cavalcante (assistente de direção) e Beatriz Costa (coordenadora pedagógica), Marcia e sua equipe implantaram a partir de 2012 um projeto pedagógico baseado nas ideias do brasileiro Paulo Freire e na linha reggiana, desenvolvida pelo italiano Loris Malaguzzi.

O trabalho possui três eixos: Arte, Educação Ambiental e Brincar. O objetivo é gerar condições para a proposição e discussão de espaços educadores onde se desenvolvem as relações das crianças com a escola, o bairro, a comunidade, o bioma e a alfabetização ecológica. Tudo isso aliado aos conceitos de Freire sobre criação da autonomia e da relação de diálogo entre adultos e crianças.

Alguns projetos ajudam a EMEI Vila Leopoldina a atingir essas metas. Um dos mais importantes é o Conselho de Criança. Formado por um menino e uma menina de cada uma das turmas da escola, o grupo realiza duas reuniões mensais coordenadas. Os representantes discutem os temas com os colegas e depois elaboram coletivamente alguma peça, como desenho ou colagem, para recordar no conselho o que foi debatido e decidido nas turmas.

Caminho com garra e surpresas

O fato de a Dona Leopoldina estar em uma área nobre da cidade de São Paulo certamente contribui para a criação de um ambiente favorável. Entre outros fatores, a localização privilegiada aumenta, para essas escolas e associação de pais e mestres, as chances de adesão de colaboradores de maior poder aquisitivo, de sedução de educadores, entre eles vários bem preparados, e de atração da mídia e dos formadores de opinião, que costuma gerar benefícios. São verdades, mas a boa notícia é que a combinação empenho-mobilização-planejamento-criatividade gera resultados elogiados por alunos, pais e especialistas em EI também em locais menos favorecidos. Casos das EMEIs Dona Alice Feitosa, no Jardim Adelfiore, e Jardim Monte Belo, no bairro de mesmo nome, na região de Anhanguera e Perus, noroeste paulistano.

Na Alice Feitosa, a beleza das pinturas nas paredes, a limpeza e a concepção de espaço nas classes de aula chamam atenção ao primeiro olhar. Não há cadeiras enfileiradas em bloco nas salas, mas “cantinhos temáticos” do hospital, supermercado, jardim, local de diversão e, claro, de educação.

Na aplicação do projeto pedagógico, os professores usam intensamente métodos, projetos e desafios apoiados por linguagens de teatro, artes plásticas, canto e outras artes na rotina com os 290 alunos da escola. O trabalho de desenvolvimento através de leitura e interpretação de imagens é igualmente intenso.

“Nosso reconhecimento vem em função das nossas convicções”, diz a diretora, Sabrina Guasti Batista. “Aqui as crianças possuem voz e vez, que são discutidas nas reuniões frequentes do nosso conselho de escola, com docentes, apoio, técnicos e inspetores, para avaliar e acertar as rotas de conduta no planejamento”, detalha a educadora.

Na Jardim Monte Belo, chama atenção a eficiência com que os educadores aplicam um projeto chamado Alegrias de Quintal. No turno das 7h às 13h, os alunos estudam em suas salas até às 10h. A partir daí, todos são levados para a área livre da escola e divididos em sete espaços temáticos, como ateliê, autorretrato, esporte e meio ambiente.

O aluno tem liberdade para escolher o tema do dia, e só é orientado a optar por outro em situações específicas, como o interesse orientado do educador de desenvolver algum ponto de que o pequeno necessita. O projeto pedagógico tem vetores e objetivos muito semelhantes à da vizinha Alice Feitosa. “Além de ensinar e despertar as habilidades cognitivas, trabalhamos obsessivamente para o desenvolvimento autônomo da criança”, sintetiza o coordenador pedagógico da escola, José Roberto Marques da Silva.

Compreensão com cooperação nas escolas públicas

EMEIs do porte da Dona Alice Feitosa e do Jardim Monte Belo (420 alunos) recebem da prefeitura cerca de R$ 36 mil, em três repasses anuais, para suprir as despesas internas do dia a dia. Para driblar o aperto de ter tão pouco para atender tantos o ano todo, elas contam com um fator comum: a dedicação incansável dos integrantes de suas associações de pais e mestres.

Nas duas escolas, as APMs se destacam pela colaboração ostensiva de familiares e alunos. Eletricistas, marceneiros, pedreiros e outros profissionais ligados aos alunos realizam serviços sem cobrar ou a preços bem menores do que os cobrados normalmente, aceitando receber quando as diretorias puderem pagar. Além disso, organizam festas e eventos para arrecadar recursos e se empenham na ajuda do controle de caixa da associação.

A força das associações de pais e mestres costuma ser comprovada pelo Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) e de outros rankings de análise do país. As sucessivas edições desses trabalhos reafirmam dois pontos em comum: um grande grupo de escolas de cidades pequenas e médias do interior dos estados entre as primeiras colocadas e, em contrapartida, uma quantidade considerável de unidades situadas nas periferias das grandes cidades e regiões metropolitanas em meio às de pior desempenho.

Apoio da família

Uma das teses defendidas pelos pesquisadores para explicar o fato é a de que, em centros menores, pais e familiares vivem mais tranquilamente, gastam pouco tempo em deslocamentos, se cansam menos e, por tudo isso, são menos estressados. Como consequência, acompanham melhor o desempenho dos filhos em casa e também nas associações de pais e mestres.

Um exemplo admirável do quanto é decisivo o bom funcionamento de uma APM é a experiência do Centro de Educação Infantil (CEI) Suzana Campos Tauil, inaugurado em setembro de 1990, entre os bairros Vila Clementino e Vila Mariana, na zona sul de São Paulo, tida por especialistas como unidade de referência na educação infantil para crianças de zero a três anos e onze meses.

A ideia inicial de atender apenas filhos de funcionários do Hospital São Paulo e da Escola Paulista de Medicina, dois orgulhos dos bairros em fronteira, foi abandonada ainda antes da inauguração. Hoje, a Suzana Campos atende 110 alunos, entre filhos dos dois centros de saúde e crianças de famílias carentes da região.

O projeto político-pedagógico 2018 do CEI é um misto de beleza e boa intenção. Em certo ponto, ele destaca: “Inspirados pelas contribuições do professor Agostinho da Silva em sua obra Textos Pedagógicos I, buscamos consolidar a construção de uma escola que: responda ao apelo que vem do íntimo das crianças, para que as deixem viver com amor e liberdade; ajude a criança a ser ela, dando-lhe condições de expressão de sua capacidade criativa; não tenha doutrina que se imponha, mas amor e respeito que libertem; tenha mestres que estudem e aprendam pelo convívio harmonioso entre as crianças; revele crianças com o espírito não de mandar, mas de servir e amar; satisfaça os anseios de cada um de modo que a aprendizagem se proponha de dentro para fora segundo as necessidades que vão surgindo; e compartilhe com as crianças toda produção cultural e artística da Humanidade e que apresente a elas a beleza da vida em comunidade”.

Não por acaso, e como era de se esperar, a disputa por vagas neste CEI, quando elas surgem, não é pequena. Muitas famílias da região tentam, muitas vezes sem sucesso, transferir seus pequenos de boas creches particulares dos arredores – caras ou nem tanto, boas ou nem tanto –, para os domínios, para a Suzana Campos.

Um programa que promovesse a transmissão de experiências como a dessas quatro e de outras escolas públicas eficientes para o maior número possível de unidades das redes poderia ajudar a diminuir frustrações como a dos pais que não conseguem vaga para seus filhos nesses “templos públicos” da boa educação infantil e básica.

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