“Se a vida familiar gira em torno exclusivamente dos filhos, ela não vai ser boa para ninguém”

Pamela Druckerman, autora de best-seller mundial, fala sobre o modo francês de educar — se não o oposto, espelhamento do brasileiro

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Crianças francesas não fazem manha

Benjamin Barda/Divulgação/ Penguin Books Australia

Ce n’est pas toi qui comande (Não é você quem comanda). Vous ne pouvez pas aller plus vite que la musique. (Você não pode ir mais rápido do que a música). É quase impossível encontrar um casal líder de família, na França, capaz de atravessar uma semana sem jogar ao ar, no mínimo uma vez, um desses dois ditados. O primeiro surge, quase que como mantra, quando a criança extrapola os limites da pirraça e da chantagem infantil em busca de um de seus “objetivos infinitos” (expressão bem ao gosto dos terapeutas do país). O segundo é usado como argumento de defesa por casais adeptos de métodos serenos diante de “hiperpais” adeptos da teoria de entulhar a rotina dos moleques, o mais cedo que eles suportarem, com uma agenda insana de atividades extracurriculares, roubando deles, no período mais lúdico da vida, o tempo pedagógico e imaculado da bagunça.

Com métodos marcados por um rigor avec élégance, os pais da família média francesa se esforçam para seguir seus princípios orientadores de eficiência comprovada em meio às novas tempestades de teorias carentes de confirmação. Seguem na determinação de que cada coisa deve ser feita a seu tempo. E na convicção de que o medo de gerar tristeza ou raiva nos pequenos, mesmo quando fica evidente a necessidade de contrariá-los, está entre os vilões mais resistentes na tarefa de educar. E, acima disso tudo, como disse a jornalista e escritora Pamela Druckerman em entrevista a Educação, acreditam que “se a vida familiar gira em torno exclusivamente dos filhos, é bom tomar cuidado: ela não vai ser boa para ninguém – a começar pelos próprios filhos”.

Americana educada em Nova York, casada com um inglês, Pamela vive há anos em Paris. É mãe de uma menina e de um casal de gêmeos, todos nascidos na França. A convivência com famílias francesas e o contato com o modo de criar carinhoso, mas exigente e sem excessos de protecionismo, de seus pares europeus, trouxeram questionamentos para a jornalista, sobretudo quando comparados ao padrão de sua criação nos EUA. Os dilemas e o aprendizado na França resultaram em muita pesquisa, entrevistas e no primeiro livro, Crianças francesas não fazem manha, editado no Brasil pela Fontanar, do grupo Companhia das Letras. O trabalho virou best-seller mundial rapidamente. Pouco tempo depois, aprofundou a experiência e lançou, também com sucesso, Crianças francesas no dia a dia – Um guia prático com 100 dicas para educar os filhos.

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A jornalista não afirma que os pais franceses são os melhores do mundo. “Mas os franceses não precisam ser perfeitos para serem instrutivos. Numa época em que há muitos ‘super hiperpais’ protetores ao redor do mundo, os franceses são uma espécie de contraponto a essa tendência, um modelo alternativo de como conceber a família e o seu papel nela. Como americana, com muitos impulsos de mãe superprotetora, penso que eles me colocaram em uma direção mais equilibrada”, acrescenta.

Mas o que a autora introduziu na criação de seus filhos, e incluiu nos dois textos, inspirada na educação familiar e escolar francesas? “Como americana, acreditava que, quanto mais me sacrificasse por meus filhos, melhor mãe seria”, explica. “Os franceses são céticos quanto a isso, e não apenas por razões egoístas. Eles assumem que, se a criança acha que o mundo de sua mãe gira inteiramente ao seu redor, isso acaba virando pressão sobre o filho. Mães francesas que conheço são, na maioria, amorosas e atenciosas, mas não se sentem culpadas por ter empregos e prazeres completamente separados dos filhos.”

Embora tenha dado prioridade à ação dos pais, a autora não deixou de refletir sobre os efeitos da orientação familiar no ensino no país. “Há nas escolas francesas muita ênfase em treinar crianças para serem analíticas. Essa preocupação é bem maior do que a de instigá-las a serem ‘criativas’”, relata. “Existe na França, é verdade, certo pessimismo, diria cultural, que às vezes atrapalha as crianças. Não sugiro que seja boa ideia copiar o francês em todos os aspectos. Apenas tento roubar suas melhores ideias. Pais e professores franceses gastam muito tempo explicando regras, mesmo para crianças pequenas. Acreditam que, se uma criança achar que tudo é negociável, ela e toda a família se sentirão infelizes. Estão certos de que aprender a lidar com a frustração será uma habilidade decisiva no futuro”, completa.

A experiência francesa fez Pamela abandonar também a ideia de que será benéfico para o futuro antecipar ao máximo a alfabetização e a introdução de atividades extracurriculares na rotina dos pequenos. “Nos Estados Unidos, e creio que também no Brasil, existe atualmente muita pressão para ensinar as crianças a ler, escrever e desenvolver habilidades cognitivas o mais cedo possível. Acreditamos que isso as tornará mais competitivas na vida. Mas os pais franceses insistem: você não pode ir mais rápido do que a música”, pondera.

E apresenta detalhes. “Como todo mundo, eles também pretendem que seus filhos sejam bem-sucedidos, mas isso não deve impedir que as crianças passem por etapas de desenvolvimento. Pré-escolares, por aqui, ensinam algumas letras, mas as escolas não alfabetizam antes dos seis anos. As crianças na Finlândia só iniciam a alfabetização aos sete anos — e, no entanto, são as líderes em média de notas em leitura e matemática na Europa. Transmitir habilidades não-cognitivas em pré-escolares, como concentração, convivência com o outro, diversidade e autocontrole, cria uma base mais forte para o sucesso acadêmico e profissional posterior.”

Pamela visitou o Brasil algumas vezes. Na introdução da edição brasileira do segundo livro, ela resume os pontos e contrapontos que a levaram a mergulhar no tema. “O motivo principal de o estilo francês de criação ser relevante para nós, agora, é por ser uma imagem espelhada do que acontece nos Estados Unidos e no Brasil. Costumamos pensar que devemos ensinar capacidades cognitivas às crianças, como leitura, o mais cedo possível. Nos primeiros anos, os franceses se concentram nas habilidades ‘simples’, como socialização e empatia. Nós, americanos, queremos as crianças sempre muito estimuladas; eles pensam que o tempo de ócio é crucial. Costumamos hesitar na hora de frustrá-las; eles acham que uma criança que não sabe lidar com a frustração vai crescer infeliz. Estamos concentrados nos resultados da criação; eles pensam que a qualidade e intensidade dos primeiros 18 anos entre pais e filhos contam muito. Costumamos pensar que o sono interrompido por um longo período, as birras de rotina, a frescura para comer e as interrupções constantes são coisas inevitáveis quando se tem filhos. Eles acreditam que essas coisas são — por favor, me imagine falando isso com sotaque francês — impossible.”

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