Como a aproximação entre museus e escolas pode despertar o interesse de crianças e jovens pela ciência

Em entrevista à Educação, Maria Esther Valente, professora e pesquisadora do Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST), falou sobre o panorama dos museus e centros de ciências no país e como as escolas podem estreitar a relação com esses espaços

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museus de ciências

Museus e escolas podem, juntos, despertar interesse dos jovens por ciência e tecnologia (Crédito: Divulgação/MAST)

Visitas a museus e centros de ciências podem ser uma boa forma de despertar o interesse de crianças e jovens pelo conhecimento científico. Não por acaso, muitas escolas investem em visitas monitoradas a esses espaços, onde é possível tanto fazer atividades de observação quanto realizar experimentos que não seriam executáveis em sala de aula.

Desenvolver a relação entre museus e escolas e ampliar as possibilidades educativas decorrentes dessa parceria, porém, ainda representam um grande desafio. Para as escolas, há a questão logística, que dificulta uma maior frequência de visitas monitoradas; para os museus, há a escassez de pessoal no setor educativo, responsável justamente pelo contato direto com as instituições da educação básica.

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No centro do problema há, ainda, a falta de políticas públicas e a má distribuição de centros e museus de ciências no país. De acordo com levantamento de 2015 da ABCMC (Associação Brasileira de Centros e Museus de Ciências), o Brasil conta com 268 instituições do tipo, sendo 58% delas localizadas no Sudeste, 16,5% no Sul, 16% no Nordeste, 5,5% no Centro-Oeste e apenas 4% no Norte.

Apesar dos entraves, uma maior aproximação entre museus e escolas pode favorecer o ensino de ciências. Seja pelas visitas, seja pela promoção de projetos de formação de educadores, os museus podem contribuir com a aprendizagem e o despertar do interesse pela ciência e pela tecnologia.

Para compreender melhor o cenário dos museus e centros de ciências hoje e como pode haver uma aproximação entre essas instituições e as escolas, a revista Educação conversou com Maria Esther Valente, professora e pesquisadora do MAST (Museu de Astronomia e Ciências Afins), especialista em história dos museus. Confira a seguir:

Hoje, qual o papel do museu de ciências? 

O museu de ciências é uma instituição que visa a formação, preservação, estudo e divulgação de coleções de objetos de ciência e tecnologia, além dos saberes imateriais a eles relacionados. De forma geral, esses museus promovem pesquisas e ações nas áreas da história da ciência, preservação, divulgação e educação da ciência, voltadas à valorização do patrimônio de ciência e tecnologia.

Hoje, os museus – assim como outros lugares de divulgação da ciência – buscam, em última instância, cumprir o papel social de contribuir na construção da cidadania dos indivíduos da sociedade. Para tal, procuram dar acesso ao conhecimento científico e tecnológico. A democratização do conhecimento é o principal desafio, e a chave para elevar a qualidade de vida dos cidadãos e permitir uma participação mais informada de todos. 

Como a relação museu-escola pode favorecer o ensino de ciências, que ainda representa um grande desafio no país? 

A proposta dos museus e centros de ciências não deve ser, em princípio, a de ensinar. Seria um engano acreditar que um aluno, em uma única visita, pudesse apreender as diferentes formas de definir a luz sem ter passado pelo conteúdo em sua trajetória de vida, por exemplo.

A ideia inicial de aproximação com o público nesses espaços deve ser a de um ambiente agradável, que favoreça o despertar do interesse do visitante, motivando-o para o aprendizado e a curiosidade sobre o que está apresentado ali, aproveitando a oportunidade de lançar sementes para um raciocínio científico. Nesse sentido, a escola que leva seus alunos ao museu e/ou centro de ciências tem um campo enorme para atuar. Podendo se apropriar da flexibilidade de opções, o professor está livre para criar. 

O que pode ser feito para estreitar a relação entre os museus de ciências e as escolas? 

Talvez o museu precise ir mais à escola. Mesmo porque, nessa relação, parece que o museu tem mais autonomia no desenvolvimento de projetos. Entretanto, e ao mesmo tempo, os setores educativos dos museus, em geral, são muito reduzidos de pessoal. Há também aspectos que se situam na esfera da logística e dos inúmeros compromissos que os profissionais dessas instituições [museus e escolas] tomam para si, não deixando muito espaço para outras atividades.

Face às dificuldades, na maior parte das vezes, a relação entre essas duas instituições se dá na realização das visitas orientadas ao museu. Vale lembrar, entretanto, que as instituições museológicas têm primado pela qualidade dessa atividade, que corresponde a uma das ações mais tradicionais e sistemáticas do museu.

Um exemplo do Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST) é o Encontro de Assessoria ao Professor (EAP), que é parte integrante da Visita Escolar Programada (VEP), oferecido desde 1985, quando o museu foi fundado. O encontro é desenvolvido pela coordenação de educação do MAST. Nele é apresentada a proposta pedagógica do museu e se constitui de uma oportunidade onde os diferentes profissionais das duas instituições, em um processo de mão dupla, discutem as possibilidades de abordagens nos diferentes espaços de visitação. O encontro tem por propósito envolver os professores com os conteúdos da futura visita dos alunos para que possam trabalhar com eles antes e depois da visitação ao museu.

Outra promoção da relação do museu e a escola é o empréstimo de aparatos e equipamentos às escolas. No MAST, o projeto Olhai pro Céu, desenvolvido com o Observatório Nacional (ON), visa promover processos de formação continuada em temas de astronomia e dar suporte às ações de professores em suas práticas pedagógicas. O projeto trabalha com material de empréstimo, chamado Astrokit, formado por um telescópio solar, um manual, uma apostila com oficinas práticas sobre astronomia, um projetor multimídia, vários filtros de soldador para que a observação do sol seja segura, além de alguns aparatos educativos. Os professores interessados participam do Encontro de Capacitação de Professores (ECAP), que visa familiarizar o docente com o uso dos equipamentos e com as possibilidades de explorar diferentes conteúdos da astronomia.

Outra atividade, voltada para a temática da astronomia, é a já consagrada visita do MAST às escolas, levando um planetário inflável, ocasião em que os alunos têm a experiência de vivenciar, no interior desse equipamento, o céu e os objetos celestes, explorados de forma lúdica. 

Muitos professores enxergam a visita monitorada ao museu como a oportunidade de complementar ou vivenciar na prática o que é visto em sala de aula. Ou seja, há uma busca pela relação com conteúdos curriculares. É possível ir mais além? 

Como dito anteriormente, os espaços de divulgação científica cumprem a função de democratizar o acesso ao conhecimento científico. Contribuem, portanto, para incluir os cidadãos no debate sobre temas que podem impactar sua vida e seu trabalho, a exemplo de transgênicos, células-tronco, mudanças climáticas, energias renováveis, produção agrícola e outros.

Há, ainda, uma série de esforços, como contemplar explicitamente os processos da ciência num enfoque contemporâneo e a controvérsia como estratégia, estimular uma postura crítica por parte do visitante e conceber a ciência como uma atividade coletiva, impregnada de conflitos e de risco.

Muitos desses espaços também estão abertos a receber professores, oferecendo cursos e atividades que permitem o diálogo e a troca entre os diferentes profissionais dos museus e da escola. Exemplos são o GEENF (Grupo de Estudos de Educação Não Formal e Divulgação em Ciências/USP), o Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST), o Museu da Vida, o Espaço de Ciência de Pernambuco, o Centro de Ciências (UFMA), a Seara da Ciência no Ceará, o Museu de Ciências e Tecnologia (MCT) da PUC do Rio Grande do Sul, entre muitos outros.

Essas intervenções devem ser concebidas no sentido de estabelecer os meios eficazes para a promoção do diálogo entre os profissionais da escola e dos museus, permitindo que se insiram como agentes sociais que também participam da construção do conhecimento sobre ciência e tecnologia. E, nesse sentido, não se vejam como sujeitos apartados dessa produção. 

O último levantamento da ABCMC, divulgado em 2015, mapeou 268 museus e espaços voltados à divulgação da ciência no país, com quase 60% deles localizados no Sudeste e apenas 4% no Norte. Por que há essa desigualdade na distribuição das instituições? 

Praticamente dois séculos depois, e apesar dos impulsos tecnológico e conceitual presenciados desde a década de 1980, ainda é possível observar significativas lacunas no que se refere à concretização das expectativas de promoção de espaços de museus e centros de ciência na totalidade do território nacional.

Os quantitativos e a distribuição geográfica destes equipamentos culturais indicam um cenário preocupante. Apenas a parcela da população brasileira localizada nas capitais da região Sudeste e seus respectivos municípios é “agraciada” pelo poder público com esses equipamentos culturais, fato que torna evidente a falta de políticas públicas, que não contemplam esses lugares, além da descontinuidade das propostas programadas.

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