Os desafios dos professores de ciências para implementar abordagem investigativa no ensino

Formação docente, infraestrutura e principalmente a dificuldade de quebrar paradigmas são alguns dos pontos destacados por profissionais ouvidos pela Educação

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Os desafios dos professores de ciências para implementar abordagem investigativa no ensino

Crédito: Shutterstock

O aluno chega à sala de aula, senta em sua carteira, coloca o material sobre a mesa. O professor fala, escreve no quadro e o estudante escuta e copia tudo em seu caderno. A cena é, possivelmente, a que vem à cabeça da maior parte dos brasileiros ao tentar lembrar das aulas vivenciadas no período escolar. Inclusive nas disciplinas da área de ciências da natureza, em que há inúmeras possibilidades para que o aluno investigue, crie hipóteses e coloque a mão na massa.

O sistema em que o foco é o professor e não o processo de aprendizagem é antigo e vem sendo reproduzido há muito tempo. Os atuais docentes da educação básica, em geral, tiveram a mesma experiência ao longo de sua formação, desde o ensino fundamental até a graduação. O mesmo acontece com os pais, os gestores e os próprios alunos. Nesse cenário, sair da lógica vigente no país e implementar um ensino com maior protagonismo do aluno torna-se uma tarefa árdua.

Liliane Miranda, professora de química na rede pública em Arcos, Minas Gerais, conta que só conseguiu enxergar outras possibilidades para além das aulas expositivas após fazer uma pós-graduação em ensino de ciências por investigação. Desde então, vem tentando implementar iniciativas que deem ao aluno a possibilidade de protagonizar seu próprio processo de aprendizagem, criar hipóteses e buscar soluções para problemas reais. Mudar a cultura dos próprios alunos, porém, vem sendo um grande desafio. “Quando o professor quer inovar, o aluno estranha. Pergunta se não tem nada pra copiar”, conta.

Neste ano, a professora realizou um projeto sobre lixo com os alunos do ensino médio. A proposta era analisar como a comunidade em que vivem lida com o que descarta. “Os alunos aplicaram questionários nas casas, para investigar qual o perfil da comunidade em relação a lixo, a atitude referente a lixo e patrimônio. O que observei é que a atitude prática, para eles, parece que não é fazer científico”, diz a educadora.

Para driblar a desconfiança inicial e a falta de familiaridade dos alunos com a proposta, Liliane fez um longo trabalho de explicação de todas as etapas do processo de pesquisa. “No final das contas, achei que foi bastante proveitoso. Mas não foi fácil”, analisa.

Além da formação inicial nas licenciaturas apresentar problemas, fazendo com que os professores só tenham contato com modelos diferentes de ensino nas especializações, a formação em serviço pouco tem contribuído com a melhora do quadro do ensino de ciências. “O que mais se aborda na formação continuada é a questão de avaliação, esquecendo que avaliação é o resultado. É preciso pensar no processo em si”, avalia Jenifer Xavier, professora de ciências e biologia na rede pública estadual de São Paulo.

A educadora, que estudou o ensino por investigação em seu mestrado, afirma que há diversos entraves para aplicar esse modelo de aula no dia a dia. No caso das aulas práticas, o problema é a falta de infraestrutura: a escola em que trabalha, por exemplo, não possui laboratório. No caso das aulas calcadas na realização de leituras de textos, elaboração de hipóteses e discussões foco de suas pesquisas o maior desafio é a cultura escolar.

“Aulas em que você instiga o aluno a falar são aulas que geram um pouco mais de barulho. Isso incomoda o gestor. Há a tradição de que o aluno só aprende em silêncio, mas, na verdade, ele aprende quando há troca”, afirma.

Segundo Jenifer, o primeiro passo para colocar em prática o ensino por investigação é justamente estabelecer um canal de comunicação com o estudante. “Às vezes, você vê que o aluno não escreve, mas, oralmente, tem raciocínio maravilhoso”, explica. Por isso, é importante instigar a turma a elaborar hipóteses em voz alta, passando por cima do medo de errar ou de ser julgado pelo professor.

Mas os desafios não se restringem à rede pública. Nas escolas particulares, apesar da infraestrutura não ser um problema, há a pressão do vestibular, e, em alguns casos, a ideia de que para ser aprovado é preciso ter abordagem conteudista. “Estudantes, pais, gestores e o próprio professor precisam enxergar que, ao desenvolver projetos, adquirem habilidades que não adquirem decorando conceitos”, diz Aline Geraldi, professora de biologia e física do ensino fundamental e médio na rede particular em Jundiaí (SP).

Além de ser professora, Aline também orienta projetos de iniciação científica dos alunos na escola onde trabalha, inclusive buscando parcerias com universidades. Na sala de aula, diz procurar instituir aulas com metodologias ativas, instigando os alunos a criar hipóteses. Mas analisa que nem sempre o docente tem essa liberdade. “É complicado para todos os educadores porque temos material didático para cumprir, um currículo extenso. Quando a escola dá autonomia para o professor, fica mais fácil.”

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