Diretora da CEDAC fala sobre o projeto voltado à formação de educadores ‘Pequenos Leitores’

Programa foca a capacitação dos vários atores e instâncias de uma escola para integrar a leitura no cotidiano das crianças

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A Comunidade Educativa CEDAC é uma organização da sociedade civil de interesse público (Oscip) voltada ao apoio, formação e desenvolvimento de profissionais da educação pública brasileira. Aprimoramento contínuo de processos de ensino, gestão em rede e participação comunitária estão entre as principais áreas de atuação da equipe. Em 2013, numa parceria com a FTD Educação, a CEDAC implantou o projeto Pequenos Leitores, direcionado à formação de educadores, diretores e funcionários de redes públicas municipais do país para a introdução de crianças de três a cinco anos no universo da leitura literária. O trabalho foi reconhecido com prêmios, elogios e apoio, entre eles o do Fundo Itaú Excelência Social (FIES), em 2015. E, recentemente, gerou um livro, Pequenos Leitores – Um projeto de formação de educadores para a garantia do direito à literatura desde a primeira infância, com detalhes dos três ciclos realizados até agora em cinco cidades (São Luiz do Paraitinga e Ilhabela são as escolhidas para o biênio 2019/2020). Nesta entrevista à Educação, a diretora de desenvolvimento educacional da CEDAC, a pedagoga Patrícia Diaz, mestre em Didática, Teorias de Ensino e Práticas Escolares pela Faculdade de Educação da USP, explica o programa e opina sobre o processo de formação de leitores nas escolas brasileiras.

Como foi formada a parceria para a criação do projeto?

A CEDAC foi procurada há seis anos pela FTD Educação. Eles tinham um trabalho elogiável na área de leitura em algumas escolas, mas queriam formular um programa para dar alcance maior a essa ação, tornando-a mais ampla, técnica e sistematizada. Internamente, estávamos trabalhando com formação de professores em leitura desde 1999. Aprendemos que um programa de leitura, para ter reflexo efetivo nos alunos, precisa oferecer, antes de tudo, formação aos professores para que eles avancem, em qualidade e quantidade, em suas práticas de leitura, pois o nível médio de consumo de literatura entre os professores brasileiros não era – e infelizmente ainda não é – suficiente para implantar um projeto dessa natureza com a profundidade exigida. Não basta reforçar a didática para o ensino de literatura se a prática de leitura do educador infantil não tiver densidade mínima para permitir a percepção e a avaliação de alunos leitores tão novos.

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Além disso, o que mais foi levado em conta na definição do projeto?    

Ele é baseado em dois pilares fundamentais: o preparo do educador envolvido com educação infantil, para uma atuação sistêmica nas redes educacionais, e o aprimoramento da formação desse profissional, para que atinja um nível, como leitor literário, adequado à aplicação dos programas em turmas de crianças de três a cinco anos. Não temos a pretensão de, necessariamente, transformar professores, diretores e coordenadores em leitores vorazes. O projeto busca formação, capacidade de seleção e intensidade suficientes para que seus princípios cheguem e produzam efeito na iniciativa de leitura das crianças dali para frente.

É possível garantir, em um projeto como esse, o caminho que levará uma criança a se tornar um leitor para toda a vida?

Garantir é um termo forte e definitivo demais. Os pilares e objetivos do projeto, como disse antes, foram definidos justamente a partir da intenção de transformar a convivência com a leitura e a literatura em coisas naturais e crescentes no decorrer da vida. Se uma criança tiver professores que leem ao menos um texto por dia para ela, nos três anos de educação infantil, o ideal considerado por nós do projeto, ela terá contato com 600 títulos/leituras neste período. Se os educadores chegarem a 75% disso, serão 450. Se promoverem a leitura apenas duas vezes por semana, o que consideramos muito pouco, ainda assim serão 240 exposições neste triênio. Então a quantidade, somada a uma boa curadoria, realmente terá potencial de encaminhar bem a criança. Não há outro caminho a não ser incentivar e criar condições que permitam, a um número cada vez maior de crianças e jovens, a adoção da literatura e da leitura como costumes e bens culturais.

CEDAC docentes leitura

Patrícia Diaz, diretora de desenvolvimento educacional da CEDAC, é mestre em Didática, Teorias de Ensino e Práticas Escolares pela Faculdade de Educação da USP (foto: divulgação/CEDAC

E como isso é feito no programa?

Juntamos algumas estratégias. Na formação que rea­lizamos anteriormente, nossos agentes sempre realizaram sessões de leitura e discussão de textos literários com os professores. Trabalhos que envolviam o consumo e o debate didático de arte em geral e de literatura em particular. Na definição do projeto, a gente organizou esse programa para a formação dos professores, nas escolas, com muito mais rigor. Criamos sequências, módulos ou cadeias de textos, de vários autores brasileiros e estrangeiros, unidos por vertente, influência, proposta ou outra identidade literária relevante. E outras com textos de um mesmo autor, em momentos estéticos e/ou de vida distintos, mas que configuram uma sequência útil para a leitura e o aprendizado daquele conteúdo.

E funciona?

Sim. Tudo é construído com sequência e coerência estudadas e debatidas, para permitir ao professor não só o crescimento individual como leitor, mas, também, o apuro de sua capacidade didática para escolher o conteúdo mais adequado para as leituras em sala e mensurar a evolução em crianças tão novas, de três a cinco anos – o público do projeto. Essas cadeias de textos normalmente nos permitem aprofundar mais as discussões das questões estéticas com os professores, partindo do menos para o mais complexo. Isso tem utilidade porque é muito comum, nesta fase da educação infantil, os professores se preocuparem apenas em destacar para os alunos o conteúdo do texto, sem se preocuparem com a forma, que é fundamental para o desenvolvimento do prazer de ler.

Como o programa é aplicado?

A formação dura dois anos em cada escola. Neste período, todas as partes envolvidas – secretaria municipal de educação, diretor de escola, coordenador pedagógico, professor, grupo técnico da secretaria e nossas equipes – são mobilizadas de alguma forma. Além disso, solicitamos apoio e incentivo das famílias e das comunidades que abrigam as escolas (clique aqui e leia matéria sobre as competências de cada um desses entes). São dez ciclos no período, com encontros presenciais e atividades a distância. No total, oferecemos 88 horas de formação para professores, 152 horas para os coordenadores pedagógicos, 92 horas para diretores e 304 horas para a equipe técnica de secretaria.

E o conteúdo?

Oferecemos conteúdos relacionados à atuação profissional de cada ente que citei e realizamos, também, atividades compartilhadas entre esses atores. A carga horária ampla para coordenadores pedagógicos e equipe técnica das secretarias tem a intenção de criar um ambiente favorável à reflexão em torno da prática e á continuidade. Obvia­mente, temos como meta fazer com que a formação desencadea­da se enraíze e seja apropriada pela rede local após o fim do projeto, um processo chamado por nós de transferência de metodologia. Por isso compartilhamos os fundamentos teóricos e os procedimentos do nosso funcionamento, sobretudo, para os responsáveis diretos pela continuidade da formação dos alunos, no caso, os coordenadores pedagógicos e a equipe técnica. Portanto, a carga horária de formação desses grupos é maior que o dos outros.

Como os cursos e as bibliotecas das escolas são abastecidos?

Apesar de termos a FTD como parceira, o projeto, por contrato, não se alimenta apenas de livros editados por eles. As listas são definidas a partir de uma curadoria, feita com liberdade pela CEDAC, e todos os livros não produzidos pela editora parceira são comprados com os recursos regulares do projeto. Além do trabalho de leitura e debate sobre os textos, o projeto gráfico, a edição, as imagens e outros detalhes dos livros são destacados nos encontros com os educadores nas escolas. É muito interessante ver a evolução nesse aspecto durante a formação. No início, os professores costumam identificar coisas muito básicas, do tipo é ou não colorido, com muita ilustração ou não, essas coisas. Com o passar do tempo, as observações e as relações se aprimoram e elas refinam o olhar estético – e é isso que nos interessa transmitir para os professores, pois será essa a bagagem que eles usarão como mediadores de leitura da criançada.

Como a formação didática do professor é trabalhada no projeto?

Falamos sobre como funciona a estrutura. No caso da formação didática dos professores, o objetivo é que eles aprimorem sua capacidade pedagógica de mediar a leitura literária das crianças. E também crie condições para que elas assumam posturas e comportamento de leitores regulares, interagindo naturalmente com os livros e ampliando suas experiências estéticas e literárias.

E o preparo dos coordenadores pedagógicos?

Além de receberem o programa definido especificamente para as suas funções, os coordenadores são envolvidos em parte da formação dos professores da escola. Com isso, se não bastasse desenvolverem o aspecto didático ligado à leitura, aprimoram, como qualquer outro educador, a capacidade de análise daquele processo de formação. O pessoal da secretaria de educação é chamado a integrar quase todas as atividades. Assim poderão, a exemplo dos coordenadores, ficar íntimos do processo de formação, se aproximando dele, colaborando e sendo ativos no seu aprimoramento. Eles acompanham todo o período de aplicação do projeto e também o desenvolvimento dos pequenos leitores após nossa partida. Isso, além de um privilégio, é uma capacidade de acompanhamento e de colaboração que não pode ser desprezada.

E os diretores, como são preparados?

Ao lado dos coordenadores, eles asseguram as condições físicas, estruturais e ambientais para o desenvolvimento da leitura e das experiências literárias nas salas de aula e na escola, coletivamente. Isso, obviamente, tem a ver com a gestão de materiais, recursos, espaço, pessoal e das oportunidades da escola, e também das relações com a comunidade, que são atributos do diretor. Por fim, poderão também compartilhar os resultados do projeto com diretores de outras escolas.

Mensuração e avaliação de resultados são pontos importantes em qualquer projeto como esse. Como isso é feito?

Tivemos a assessoria de uma instituição especializada em avaliação, a Move. Ela nos ajudou a criar modelos de avaliação distintos para a CEDAC, a FTD Educação, as secretarias municipais, os professores, diretores e coordenadores, cada um deles de acordo com os objetivos do ator dentro do projeto. Eles analisaram toda nossa documentação sobre o primeiro processo. A partir disso, desenvolvemos algumas matrizes de avaliação para cada um desses casos. Elas atestam os pontos que queremos atingir e os indicadores que expressam se cumprimos a meta ou se chegamos perto dela em cada caso. Posso te dizer que os resultados das avaliações, até agora, são muito satisfatórios.

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