Estórias do tempo da velha escola (coluna José Pacheco)

Brasília, julho de 2039 – ou: no tempo em que não havia a preocupação de separar o letivo do não letivo

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Querida Alice,

Quando nasceste, enviei-te cartas com data de 2007 (*). Nelas, eu te descrevi a escola do início de século, augurando que uma escola humanizada te acolhesse. Dois anos decorridos, idênticas mensagens eu enviei ao Marcos (*). Retomo, agora, o exercício epistolar, iniciado na primeira década do vigésimo primeiro século, para que saibais como era a escola no tempo em que o vosso avô nela se iniciou e como ela era, cinquenta anos depois, no início dos anos vinte.

Quase quarenta anos decorreram sobre o tempo em que viestes ao mundo. Creio ser tempo de enviar novas cartas aos meus netos, quando uma nova humanidade desperta, já distante do início de milênio e das atrocidades cometidas em finais da segunda década.

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É confusa essa “viagem no tempo”? Pois ficai sabendo que o tempo não existe, nem estabelece os rumos da humanidade. Foram seres humanos amorosos que, em amorosos atos, geraram impulsos de humanização. Foram educadores esperançosos e éticos que marcaram o tempo da mudança, rumo à idade da educação, que os futuristas dizem ser a década de 40. Por isso, vos contarei uma estória em cada carta, memória de amorosos gestos de há noventa anos. Também descreverei episódios ocorridos há vinte anos, no tempo em que a universidade vos acolheu.

Nesta carta, escolhi falar-vos de alguém, que, em mea­dos da década de setenta do passado século, erguia comunidades. Com ela aprendi o dom da gratuita oferenda.

A Tita, sem ser missionária também não era demissionária. Era professora apenas. E, sem querer saber se julho era mês de férias, levava à praia crianças e adultos, que nunca tinham visto o mar. E a Fátima, sua companheira de muitas “colónias de férias”, escrevia:

Chegamos à praia felizes por sentir a areia nos pés. Bem depressa cada um se começou a despir, indiferente aos olhares de espanto de gente que nunca tal coisa viu. Os Torres, de cabelos rapados onde ainda se notavam sinais das lêndeas esmagadas pela tesoura da poda, tinham um ar de presidiários famintos da vida e do ar que lhes oferecíamos.  Também eles queriam mostrar os seus fatos de banho.

Ó, meu Deus! Que vergonha! Aqueles meninos só têm cuecas! – E, envergonhada, a gentil senhora mandou o filho levar-lhes um fato usado. Ficaram felizes, os Torres. E ei-los a correr alegremente para o mar, dispostos a acabar com a raça das cuecas velhas do pai.

Os Almeidas eram tantos! Nove na mulher e quatro na amante. Tinham um distinto ar de ciganos matreiros a quem a vida ensinara a vencer. Naquele tempo, não era preciso mostrar serviço, não havia a preocupação de separar o letivo do não letivo, nem de fazer contas de merceeiro às trinta e cinco horas letivas obrigatórias. E a minha amiga Tita já sabia que a profissão de professor não é ato solitário, mas deverá ser solidário. Também sabia que as escolas só funcionam com projetos plurais e que até o Gama, quando viajou para as Índias, foi acompanhado. Porque ninguém dobra sozinho os cabos das tormentas que a vida de uma escola enfrenta.

Com amor, o vosso avô José.

(*) Para Alice, com amor. São Paulo, Cortez Editora; Para os filhos dos filhos dos nossos filhos. São Paulo, Papirus.

carta José Pacheco

Nesta carta, escolhi falar de alguém que, em meados da década de setenta do passado século, erguia comunidades (foto: divulgação)

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