Uma pedagogia do corpo

Podemos aprender e ensinar observando nossos dedos, mãos, cabeça, pés: somos um livro a ser lido

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O personagem do livro Diário de um corpo, do escritor francês Daniel Pennac, observa-se ao longo de toda a sua vida, criando uma anatomia literária do corpo humano.

A sua vida corpórea encontra-se no centro de tudo: reações e descobertas, surpresas e rotinas, dor e prazer, beleza e escatologia. Trata-se de um diário íntimo, mas não no sentido convencional, de “confissões do eu”. O corpo é o de um homem que viverá até os 87 anos de idade e que registra a memória e a consciên­cia de ter/ser um corpo. Os registros partem da infância e chegam aos últimos momentos de vida.

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Na penúltima página do Diário, o narrador, faltando um mês para a sua morte, escreve:

86 anos, 11 meses e 1 dia

Sábado, 11 de setembro de 2010

Ao fazer comentários para Lison neste diário, salta-me

aos olhos o quanto eu deixei de registrar aqui.

Querendo dizer tudo, disse tão pouco! Mal cheguei a

roçar este corpo que eu queria descrever.

As descrições de Pennac revelam com realismo o estado de espírito do corpo nas diferentes e sempre concretas situações vitais. E esta contínua sensação de que nunca esgotamos o assunto.

Quando refletimos sobre nosso corpo, refletimos sobre nós mesmos, percebendo duas realidades pessoais na mesma realidade da pessoa. Pennac faz o personagem olhar-se no espelho, observar-se no diário, e refletir sobre sua vida.

O corpo ensina

O corpo é uma pedagogia a ser lida, entendida e praticada.

O corpo não apenas fala, mas sobretudo nos ensina quando se dispõe a nos fazer perguntas.

O adoecimento do corpo formula a pergunta: “o que você está fazendo de errado ou permitindo que se faça de errado com você para que esta doença aconteça? ”. Os médicos precisam redescobrir que o corpo é o melhor livro para estudar o corpo.

Outras perguntas o corpo faz. Basta um pouco de silêncio para ouvi-las: “gosta de aprender?”, “como está sua ‘taxa de esperança’?”, “que atitudes novas podem ser tomadas hoje?”.

As dores são outras perguntas. Perguntas incisivas. O sono excessivo é uma pergunta que não nos deixa dormir. A postura física questiona a nossa postura emocional, seja ela de enfrentamento das dificuldades ou de receio diante das mesmas dificuldades.

pedagogia do corpo

Foto: Shutterstock

Leitura da cabeça aos pés

A expressão “corpo docente” designa o próprio corpo dos professores. Ou seja, um corpo que ensina e avalia, que aprende e educa, que orienta e é orientado.

Mais do que mero instrumento “usado” para o ato de ensinar, é o corpo dos docentes que vai ensinar, educar, orientar, avaliar.

O corpo é um livro a ser lido da cabeça aos pés.

Começando pelos pés.

Há quem veja na palavra grega pódos (pé) ligações e ressonâncias com outra palavra grega, paidós (criança). O pedagogo (paidagogós, ainda em grego) era o escravo encarregado de levar as crianças à escola e, no caminho, dirigindo seus passos, certamente contava histórias fantásticas sobre outras terras pelas quais tivesse andado.

Esta p(é)dagogia, tão despretensiosa, deixa pegadas.

Os pulmões, delicados e ritmados, oxigenam, criando em sala de aula uma atmosfera saudável.

O fígado (o segundo maior órgão do corpo humano) está ligado às emoções mais entranháveis e à renovação de nossas energias. Não é à toa que, na mitologia grega, Prometeu acorrentado, e atacado pela águia enviada por Zeus, via seu fígado renascer a cada dia.

Nossas mãos falam o tempo todo. O dedo inquisidor do passado escolar seja substituído pela mão (freiriana) que acolhe. O dedo acusador seja transformado num dedo que indica outros caminhos para diversos tipos de caminhantes.

Um dos segredos do coração é a “cordialidade”. O corpo nos ensina a agir assim, com o coração cheio de vida e afeto. Com o coração nas mãos. Darcy Ribeiro dizia sempre: “A educação é uma das causas da minha vida. Por isso mesmo, falo dela sempre emocionado, com o coração na boca”.

E, no alto, a cabeça. Tomando o envolvido pelo envolvente, empregamos a palavra “cabeça” metonimicamente para falarmos de nós mesmos como seres cerebrais.

Dizemos que uma pessoa precisa abrir sua cabeça para receber sem medo novas informações e realizar raciocínios mais arrojados.

É importante manter a cabeça fria, administrar com lucidez nossos pensamentos e emoções para que o cérebro nos ajude a tomar as melhores decisões.

Não faz sentido querer colocar dentro da cabeça dos outros, à força, as nossas ideias e opiniões. Nem mesmo o que sabemos ser evidente e incontestável. Cada cabeça produzirá sua própria sentença. Cada pessoa deve aprender a avaliar o mundo por sua conta e risco.

Cuidar da cabeça é exercitar o cérebro com leituras, experiências esportivas e estéticas, meditar, cultivar amizades, fazer pesquisas relevantes, manter conversas inteligentes, recuperar memórias significativas, motivar a imaginação de modo construtivo, organizar planos para o trabalho e para o descanso.

A educação do cérebro também é emocional. Na arte de ensinar, precisamos cuidar do corpo. E é com o corpo que praticamos essa arte.

Gabriel Perissé  é professor da PUC-RS, escritor e palestrante www.perisse.com.br

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