Autor do recém-lançado livro Escravidão dá uma aula sobre como a escola deve tratar do tema

Para o escritor Laurentino Gomes, o período escravagista é o fio condutor dos grandes eventos da nação brasileira

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Por Carlos Dias

O que aconteceu em 7 de setembro de 1822? Essa é fácil. A independência do Brasil, é claro. Qualquer aluno de ensino fundamental sabe disso. E em 15 de novembro de 1888? Elementar. República e independência, afinal, são dois momentos da história determinantes para o presente do país. Pergunte, então, a um estudante sobre 20 de novembro de 1695. A maioria vai emudecer a respeito da data em que se comemora a morte de Zumbi dos Palmares – um personagem histórico tão importante quanto Tiradentes, diante dos 444 anos que separam o primeiro leilão em Portugal de escravos africanos, em 1444, até a extinção do regime escravocrata, em 1888.

“A escravidão aparece como pano de fundo de todos os grandes acontecimentos, como a guerra contra os holandeses, a Independência e a Proclamação da República”, afirma o jornalista e escritor Laurentino Gomes, que lançou no mês passado Escravidão, o primeiro volume de uma trilogia sobre o que ele considera “o fato mais importante da história do Brasil”. Apesar da relevância, segundo ele, houve sistemáticas tentativas de ocultar e apagar essa parte da história, gerando uma visão totalmente equivocada sobre esse período.

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“Felizmente, está mudando”, diz o autor. “A escravidão é hoje o assunto mais estudado na disciplina de história no Brasil.” Laurentino, que é francamente a favor das cotas, acredita que é preciso muito mais que elas para reparar as injustiças cometidas contra os negros, não só durante os 350 anos de escravidão, mas também depois dela. E a escola tem um papel fundamental nesse resgate. “Acho que a melhor maneira de enfrentar esses desafios é pelo estudo da história”, aponta o autor nesta entrevista concedida à Educação.

O senhor afirma que a escravidão é o fato mais importante da história do Brasil. Por quê?

A escravidão é o fio condutor de todos os grandes eventos da história brasileira até, pelo menos, o final do século 19. Seria impossível entender os nossos principais ciclos econômicos – como os do açúcar, do ouro e do diamante e do café – sem estudar a dependência da economia brasileira em relação à mão de obra cativa. A escravidão aparece também como pano de fundo de todos os grandes acontecimentos, como a guerra contra os holandeses, a Independência e a Proclamação da República. Nas raízes africanas estão os aspectos mais profundos da nossa identidade nacional. Para isso é preciso observar o que fizemos com os nossos índios e negros, quem teve acesso às oportunidades e privilégios ao longo da nossa história e como a sociedade e a cultura brasileiras foram se moldando desde a chegada de Pedro Álvares Cabral à Bahia até os dias de hoje.

O trabalho cativo deu o alicerce para a colonização portuguesa na América e a ocupação do imenso território. Também moldou a maneira como nos relacionamos uns com os outros ainda hoje. Neste início de século 21, temos uma sociedade rica do ponto de vista cultural, diversificada e multifacetada, mas também marcada por grande desigualdade social e manifestações quase diárias de preconceito racial. Isso, no meu entender, é ainda herança da exploração desumana, cruel e indigna do trabalho de milhões de pessoas forçadas a cruzar o Oceano Atlântico a bordo dos navios negreiros para viver como cativas no Brasil colônia. Estudar essa herança escravagista é, portanto, fundamental para entender a história do país e as dificuldades e características atuais.

Como a escola tratou o tema ao longo de todo esse tempo?

Até muito recentemente, a escravidão era tratada como tema secundário, quase casual, nos livros didáticos e na historiografia oficial. Isso não aconteceu por acaso. É resultado de um propósito de esquecimento. O Brasil foi o maior território escravista da América. Recebeu, ao longo de 350 anos, quase cinco milhões de cativos, cerca de 40% do total de 12,5 milhões de escravos africanos embarcados para o Novo Mundo. Foi também o país que mais tempo demorou para acabar com o tráfico negreiro, em 1850, e o último a abolir a própria escravidão, em 1888.

Alguns dos grandes abolicionistas do século 19, como Joaquim Nabuco e André Rebouças, diziam, porém, que não bastava acabar com a escravidão. Era preciso também enfrentar o seu legado, dando terra, trabalho, educação e oportunidades aos ex-cativos e seus descendentes. Isso o Brasil jamais fez. Nossa população afrodescendente foi abandonada à própria sorte, como mostram hoje todas as estatísticas e indicadores sociais. Em vez de incorporar esses brasileiros à sociedade civil, como cidadãos de plenos direitos, preferimos construir alguns mitos a respeito de nós mesmos, segundo os quais teríamos tido uma escravidão mais benévola, patriarcal e boazinha, o que também teria dado origem a uma grande democracia racial brasileira. Tudo isso é mito, mas aparecia com grande frequência nos livros didáticos e nas salas de aula. Felizmente, está mudando.

Escravidão Laurentino Gomes

“Estudar a herança escravagista é fundamental para entender as dificuldades e características atuais do país”, afirma o escritor (foto: divulgação)

Diante de tamanho impacto no passado, no presente e no futuro da sociedade brasileira, como deveria ser a abordagem desse tema na sala de aula?

Na introdução do meu livro, eu defendo a tese de que, no estudo da escravidão, existem diferentes possíveis olhares: o olhar negro, o olhar branco e o olhar atento, no qual eu procuro me enquadrar. Há diferenças importantes entre esses “olhares”. O olhar negro está presente nas obras, por exemplo, de Abdias Nascimento e Clóvis Moura, e em geral reconhece o papel do africano e seus descendentes, protagonistas de uma história tão antiga e pródiga quanto o continente de que são oriundos os escravos e seus descendentes. O olhar branco tem como exemplo Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, e perpetua os registros de uma história repetida desde os tempos do colonizador europeu, perfeitamente condizente com interesses e perspectivas eurocêntricas e caucasianas presentes nas narrativas tradicionais da historiografia brasileira.

Cabe ao “olhar atento”, contemporâneo, assimilar a complexidade dessas duas histórias, incorporando novos ingredientes ao seu relato e análise, dispondo-se a oferecer uma compreensão mais ampla e ao mesmo tempo mais sutil e refinada da escravidão. Na perspectiva oferecida por esse “olhar atento”, seria possível identificar e destacar novas narrativas e reinterpretar heróis, acontecimentos e consequências que marcam quatro séculos de uma convivência ainda hoje pendente de reconciliação. Acredito que seja essa a atitude mais desejável nas salas de aula atualmente.

O Brasil tem estudos e livros em quantidade suficiente e qualidade adequada para a compreensão desse período?  

A escravidão é hoje o assunto mais estudado na disciplina de história no Brasil, repetindo um fenômeno que já ocorre há muito tempo em países como os Estados Unidos. O tema tem sido alvo de uma vasta produção literária e acadêmica com enfoques diferenciados e, muitas vezes, conflitantes. Cada nova geração de escritores e historiadores procura iluminá-lo sob diferentes perspectivas, que incluem obras de grande densidade acadêmica, como teses de doutorado, dissertações de mestrado e outros trabalhos que todos os anos brotam nas universidades e em centros de pesquisa. Ainda assim, e infelizmente, há poucas obras no mercado editorial de livros que expliquem o assunto em detalhes e linguagem acessível ao leitor comum, mais leigo no assunto. Por isso, acredito que esse meu livro pode ajudar a preencher uma lacuna.

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A história também é vítima da escravidão? Ou seja, há menos documentos históricos e menos estudos por causa dessa herança?

No Brasil, tornou-se ideia comum que os documentos da escravidão teriam sido destruídos e malconservados, o que tornaria o estudo do tema difícil, quando não impossível. Isso é verdade apenas em parte. De fato, parte da documentação histórica, relacionada aos registros de compra e venda de escravos na antiga Alfândega do Rio de Janeiro, foi destruída por ordem de Rui Barbosa, então ministro da Fazenda, logo depois da Proclamação da República. Com essa medida, os republicanos queriam, segundo se dizia na época, “apagar uma mancha” na história brasileira, o que, obviamente, foi inútil porque a “mancha” nunca se apagou.

Mas, apesar disso, restaram inúmeras outras fontes preciosas, relativamente intactas e pouco exploradas. Isso inclui inquéritos policiais e processos na justiça envolvendo os escravos e seus senhores, testamentos e inventários pós-morte, certidões de batismo, casamento e óbito, anúncios de fuga ou de compra e venda de cativos registrados nos jornais da época ou em documentação cartorial. Existem também depoimentos de viajantes que visitaram o Brasil na época e deixaram preciosos relatos a respeito da escravidão. Tudo isso tem ajudado os historiadores a reconstruir nos mínimos detalhes essa grande história brasileira de dor e sofrimento.

Como ensinar sobre a escravidão em uma sociedade contaminada pelo preconceito e por racismo?

Personagens, datas e acontecimentos históricos são ferramentas de construção de identidade. Funcionam como âncoras lançadas no passado nas quais procuramos alicerçar valores, convicções, sonhos e aspirações do presente, enquanto preparamos a jornada rumo ao futuro. E, como todos os símbolos, geralmente são produtos mais de edificações imaginárias do que de fatos objetivos e comprovados – o que também os torna alvos de infindáveis investigações e discussões entre os pesquisadores. Palmares e o seu mártir Zumbi são bons exemplos disso.

O racismo é uma consequência histórica, resultado da escravização de milhões de africanos de pele negra, mas também uma forma de hierarquização de poder. Esta é uma das consequências mais profundas e duradouras da escravidão africana nas Américas: o nascimento de uma ideologia racista, que passou a associar a cor da pele à condição de escravo.

Por essa ideologia, usada como justificativa para o comércio e a exploração do trabalho cativo, o negro seria naturalmente selvagem, bárbaro, preguiçoso, idólatra, de inteligência curta, canibal, promíscuo, “só podendo ascender à plena humanidade pelo aprendizado na servidão”, na definição do africanista brasileiro Alberto da Costa e Silva. Sua vocação natural seria, portanto, o cativeiro, onde viveria sob a tutela dos brancos, podendo, dessa forma, alçar eventualmente um novo e mais avançado estágio civilizatório. Essa ideologia, no meu entender, permanece ainda hoje oculta nas formas preconceituosas de relacionamentos entre brancos e negros no Brasil.

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O senhor é a favor das cotas?

Sim, sou a favor das cotas. A começar pelo seu caráter simbólico. Mais de um século depois da Lei Áurea, é a primeira vez que o Brasil, sob um regime democrático, tenta implantar políticas públicas destinadas a enfrentar o legado da escravidão. O regime de cotas é polêmico, aqui e em qualquer outro lugar do mundo, mas representa um esforço genuíno de enfrentar um problema com o qual o Brasil nunca se preocupou antes.

A escravidão na América acabou, legalmente e formalmente, em maio de 1888. Mas, infelizmente, continua a existir, no Brasil e no mundo todo sob outras formas mais sutis e disfarçadas de exploração do trabalho, desumanas, indignas e inaceitáveis para os padrões éticos que julgávamos ter atingido neste início de século 21.

escravidão laurentino gomes

Livro é o primeiro volume de uma trilogia

Isso atinge especialmente a nossa população afrodescendente e faz com que, por exemplo, nas 500 maiores empresas que operam no Brasil, apenas 4,7% dos postos de direção e 6,3% dos cargos de gerência sejam ocupados por negros. Os brancos são também a esmagadora maioria em profissões qualificadas, como engenheiros (90%), pilotos de aeronaves (88%), professor de medicina (89%), veterinários (83%) e advogados (79%).

Temos que encarar o racismo de frente como os norte-americanos fazem hoje. As cotas raciais para descendentes de africanos e postos de administração pública são um importante mecanismo de correção de injustiças e desníveis de oportunidades entre os brasileiros. Nós nunca vamos ter um país decente enquanto não dermos as mesmas oportunidades para a população afro-brasileira se expressar na sua plenitude em seus talentos e vocações. Mais do que o pagamento de uma dívida histórica, portanto, as cotas são um importante investimento no futuro do Brasil.

 O senhor, então, acha necessário haver mais políticas de compensação e de inclusão? Como toda essa injustiça pode ser interrompida?  

Acho que a melhor maneira de enfrentar esses desafios é pelo estudo da história. Precisamos entender e refletir sobre o que aconteceu. Uma sociedade, ou um país, que não estuda história é incapaz de entender a si mesmo porque desconhece as suas raízes. Só pelo estudo de história será possível preparar ou qualificar os cidadãos brasileiros para a difícil tarefa de fazer escolhas e organizar a realização do país dos nossos sonhos. Isso inclui o racismo e o passivo social resultante da escravidão.

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