Escolas e a corrida contra o tempo

Velocidade com que surgem inovações tecnológicas desafia a capacidade de as instituições prepararem crianças e jovens para um mercado de trabalho em constante transformação

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A história da Humanidade mostra que conhecimento, descobertas e inovações tecnológicas melhoram a vida das pessoas no decorrer dos séculos. Graças a eles, os seres humanos, entre vários outros aprimoramentos, vivem mais, adoecem menos, cuidam melhor da saúde, utilizam ferramentas a cada dia mais facilitadoras nas atividades, se alimentam com informação e qualidade e se deslocam com rapidez e conforto infinitamente maiores.

Mas, nas últimas décadas, a velocidade e abrangência estonteantes desses avanços começaram a produzir, também, uma quantidade grande e preocupante de efeitos colaterais negativos. O principal deles é a retirada de milhões de pessoas, sobretudo de países pobres e em desenvolvimento, do mercado de trabalho e das atividades produtivas a cada revolução importante ocorrida em escala mundial.

A história da Humanidade mostra, é verdade, que grande parte dessas mudanças aprimorou a qualidade de vida em praticamente todas as nações e sociedades. Mas, como qualquer inovação traz vantagem para o grupo que a controla, em detrimento dos que não a dominam (a revolução tecnológica é a prova mais recente da tese), pesquisadores tentam nos últimos anos mensurar e comparar as perdas e ganhos profissionais, sociais e humanitários dessas avalanches de alterações no panorama atual.

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“É preciso estabelecer e criar novas formas de repartição das riquezas e divisão do trabalho” (foto: Shutterstock)

Michele Boldrin

Um dos mais respeitados estudiosos dessas mudanças, é o economista e escritor italiano Michele Boldrin, 61 anos, professor de ciências e artes da Universidade americana de Washington St. Louis e especialista em crescimento econômico, ciclos de negócios, progresso tecnológico e propriedade intelectual. Em entrevista recente à jornalista Tiziana Trotta, publicada pelo jornal espanhol El País, Boldrin analisou a questão sob um ponto de vista interessante: a relação das perdas mundiais no mercado de trabalho com a capacidade dos sistemas de educação de preparar novos profissionais e, sobretudo, de requalificar a mão de obra colocada automaticamente à margem das atividades a cada onda inovadora que toma conta do mundo.

Boldrin parte da ideia de que, nas últimas décadas, as inovações passaram a aniquilar empregos em velocidade dramaticamente maior do que a exibida pelas estruturas educacionais na tarefa de salvar parte das vagas existentes e produzir novas ocupações. Faz constatações duras e sugere medidas polêmicas.

“A desigualdade é fruto natural da inovação”, afirma. “Como não há crescimento sem inovação, ela, a desigualdade produzida pelas mudanças radicais, torna-se um efeito secundário do crescimento econômico. Cada coisa que você inventa tende a dar vantagem a algumas pessoas e a substituir outras, diminuindo a utilidade destas últimas do ponto de vista social. Uma vez iniciado o jogo, não há retorno. Você inventa algo que transforma minhas habilidades em inúteis”, explica ele.

“Esse mecanismo (o de superioridade a partir do uso de novas ferramentas) tem sido contínuo ao longo da história. Mas hoje cada inovação origina uma perturbação muito forte, com impacto social maior, assim como os custos de reajuste. Toda inovação determina um ganhador – o que a realiza –, quantas pessoas podem imitá-la e quem pode ser substituído. Cada vez são eliminados setores mais amplos da população, com mais conhecimentos.”

Ele acrescenta: “Dentro de alguns anos, por exemplo, carros sem motorista terão ampla presença no mercado. Nos EUA, pelo menos oito milhões de pessoas trabalham atualmente dirigindo algum tipo de veículo. Em pouco tempo, serão inúteis do ponto de vista econômico. A educação pode mudar alguma coisa, mas a rapidez na destruição do emprego é muito maior frente à velocidade para voltar a formar capital humano”.

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Michele Boldrin: “As inovações destroem empregos com mais rapidez do que a educação os salva” (foto: Flickr Niccolò Caranti 1)

O economista destaca que imitar novas propostas tecnológicas diminui distâncias e abre caminhos para que excluídos do mercado de trabalho recuperem parte de seu espaço, ainda que com produtos e serviços de qualidade inferior. Mas chama atenção para o fato de que os proprietários e controladores das mudanças, e de seus direitos de uso, trabalham para que o fenômeno ocorra cada vez menos.

“Há um fator tecnológico segundo o qual o Google, por exemplo, mantém uma posição dominante: ele funciona melhor que os demais”, atesta ele. “Mas existe também o fator legal. A propriedade intelectual protege quem chega primeiro e impede a competição de quem tenta imitá-lo. Esses mecanismos são cruciais na geração de desigualdade e contribuem para formar super-riquezas de maneira muito mais rápida, com menores riscos e investimentos comparados aos do passado. Esse fenômeno pode ser, contudo, atacado por meio da política”, defende o professor.

A economista Ana Luiza Matos, pesquisadora do Centro de Estudos de Conjuntura e Política Econômica (Cecon) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), lembra que essas mudanças de estágios não são recentes na história. “De certa forma, isso vem ocorrendo, em escalas menores, desde o início da presença do homem no mundo”, disse ela à Educação. “Para nos aproximarmos dos tempos atuais, Marx já insistia no ponto de que a produção mais volumosa com menos trabalho, geradora de menor recrutamento de pessoas em relação ao estágio anterior, era – e será sempre – consequência inevitável de toda modificação surgida a partir das alterações tecnológicas”, acrescenta.

As ideias de Michele Boldrin para amenizar os efeitos colaterais das inovações tecnológicas são polêmicas. Em seu livro mais recente, Against intellectual monopoly (Contra o monopólio intelectual), escrito em parceria com David K. Levine, ele faz críticas aos monopólios e defende a quebra de patentes em setores como o da produção de medicamentos. “É preciso abolir os monopólios. Ponto”, prega ele, definitivo. “O caso das farmacêuticas é só um exemplo, um dramático monopólio criado pelo sistema de regulação do setor. A pesquisa tornou-se excessivamente cara e complicada. Pedir às indústrias farmacêuticas que sejam benfeitoras na África, e que deem seus produtos de presente, é uma estupidez”, disse ao jornal espanhol.

Outra proposta no mínimo controversa do professor italiano envolve diretamente a educação. Ele defende uma revisão dramática e urgente dos conteúdos oferecidos nos ensinos fundamentais, médios e superiores em todo o mundo. “Em primeiro lugar, é preciso reestruturar os sistemas educativos para que eles possam formar estudantes mentalmente flexíveis”, acredita. “A cultura clássica tornou-se um luxo nesse mundo. Ler Horácio é muito bonito, mas para poucos… isso não me permitirá sobreviver. Antes de falar a uma criança de seis anos das glórias ocorridas no Egito, tenho que ensiná-la a entender o mundo que a rodeia. Não se pode perder o tempo em que o cérebro está mais ativo, entre os 14 e os 19 anos, aprendendo declinações do latim. Isso é criminoso”, acrescenta.

Outros pontos de vista

O jornalista, palestrante e pesquisador Clóvis de Barros Filho, professor livre-docente na área de Ética da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, discorda frontalmente de Boldrin nessas questões relativas à formação nas escolas e universidades. “Neste ponto, penso muito diferente do que ele disse do início ao fim. Todo esse repertório clássico que ele deslegitima é, precisamente, o que vai permitir, ainda por muito tempo, uma avaliação crítica do mundo.

Boldrin propõe um alinhamento servil ao mundo tal como ele se apresenta, por meio da maximização não refletida da eficiência”, argumenta Barros Filho em entrevista à Educação. “Pensamentos como esse devem ser contrariados até porque inovação, como palavra ou conceito, não traz necessariamente indícios ou mesmo juízo de valor. O novo pode ser bom, ruim ou péssimo. Pode ser melhor ou pior do que o existente antes, e não faltam exemplos para provar isso”, acrescenta o pesquisador.

O professor da USP considera que, ao propor as coisas dessa forma, o economista italiano desconsidera possibilidades importantes como a de não gostar do mundo, ou ao menos de parte importante dele, do jeito que se apresenta agora e também nos vários momentos da vida. E também a de poder subvertê-lo em busca de outro mundo que pareça mais justo, humano e gerador de boa convivência. “Neste momento fértil da História, a educação, sobretudo dos jovens, precisa levar os formados a olhar para a realidade, seja ela qual for, com espírito crítico, sem ser meramente uma peça de produção ou reprodução eficiente da realidade como ela foi proposta indistintamente pelas inovações, mas oferecendo ideias e soluções, muitas vezes distintas das vigentes, para o bem das pessoas. É o que o discurso popular qualifica, com sabedoria, de pensar fora da caixinha.”

Outra proposta de Michele Boldrin criticada por Barros Filho é a de quebra unilateral de patentes. Na avaliação do professor brasileiro, a busca de menores custos na produção de itens fundamentais, por meio de pagamentos mais suportáveis de direitos de criação e desenvolvimento, será sempre positiva. Mas esses obje­tivos devem ser conquistados com negociação, e não com medidas radicais tomadas de um só lado. “Se uma pessoa ou grupo investe tempo e dinheiro na criação de algo, e depois é informada de que não terá retorno do total investido, isso configura traição. E traições quase sempre geram abandonos. No caso dos mercados, abandonos produzem fuga de investimentos, algo que não me parece positivo, sobretudo para nações e populações mais pobres e carentes”, explica.

Ana Luiza Matos identifica a necessidade da criação de novos modelos de convivência e absorção de mão de obra diante dos efeitos colaterais negativos produzidos em grande escala pelas inovações tecnológicas contemporâneas. E faz algumas propostas: “É preciso estabelecer e criar novas formas de repartição das riquezas e divisão do trabalho. Se produzimos cada vez mais com uma quantidade menor de pessoas, parece claro que uma das saídas é admitir a redução das jornadas de trabalho, para que os atuais empregados possam ter mais tempo e qualidade de vida e, ao mesmo tempo, novos profissionais tenham chance de ocupar o tempo liberado nas corporações com seu trabalho. Neste particular, o Brasil atual, com as quebras na legislação trabalhista e o aumento da carga de trabalho nas novas parcerias, agravados pela crise, caminha em sentido contrário”, identifica ela.

“Além disso, fica evidente que, no Brasil, necessitamos fazer o possível e o impossível para aumentar os investimentos em educação e pesquisa. Mais uma vez, não é o que estamos vendo por aqui. Sem a correção desses pontos não há nem haverá saída.”

As cartas estão na mesa. E o futuro, como se percebe, dá cada vez menos tempo para hesitações.

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