Enem põe à prova o marketing das escolas

Histórico de mau uso dos resultados do Exame Nacional do Ensino Médio obriga escolas a desenvolver estratégias de comunicação que valorizem de forma ética o desempenho de seus alunos

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O Exame Nacional do Ensino Médio, o Enem, cresceu e virou um adulto com várias atribuições. Colocado à luz em 1998 como primeiro grande sistema de avaliação da educação média brasileira, para ajudar na definição de políticas e projetos de aperfeiçoamento, ele passou, nesses 21 anos, a servir de parâmetro ou base também para a admissão de estudantes na suprema maioria das instituições de ensino superior do país e em programas de concessão de bolsas e financiamentos do estudo privado, como Sisu, ProUni e Fies.

Transformado numa espécie de vestibular nacional em 2009, incorporou, na prática, outros dois vetores: ferramenta para os pais, na escolha da escola dos filhos, e fonte de dados para propaganda de escolas, sobretudo privadas, com bom desempenho no exame. Famílias precisam de informação na hora de escolher a melhor escola para os jovens, e publicidade a partir de conquistas legítimas é aceitável em qualquer atividade, incluindo a educação privada. Mas quais são os limites éticos a serem respeitados por escolas e redes ao usar resultados do Enem para fidelizar alunos e aumentar o rebanho com a conquista de novos estudantes? A relação entre classificação e qualidade da escola é sempre correta e automática? Em quais formatos e situações a utilização desses rankings pode ser considerada um serviço honesto, ético e elogiável?

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Em seu artigo O Enem e a Escolha da Escola, o educador e administrador paulistano Eduardo Silveira Mufarej, fundador do movimento de seleção e capacitação de lideranças políticas RenovaBr, cofundador da plataforma Alicerce Educação e membro do conselho da Escola de Negócios da Universidade de Yale, destaca pontos importantes sobre essas questões.

“Quando tratamos de exames como o Enem, o desempenho das escolas deve ser ponderado com alguns fatores, pois toda nota tem um porquê e deve ser avaliada dentro de seu contexto”, defende. “O porte da instituição, o nível socioeconômico de seus alunos, o tempo de permanência do estudante no estabelecimento e até mesmo os processos de ingresso na escola impactam diretamente os resultados. Qualquer comparação que ignore essa necessária contextualização deve ser considerada indevida, como alerta o próprio Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais, o Inep, responsável pela divulgação dos resultados do exame.”

Mufarej detalha suas restrições. “O que se vê hoje é uma distorção, muitas vezes calculada e até antiética, daquilo que deveria ser a avaliação do ensino médio brasileiro. Para ludibriar pais que buscam no exame orientação para escolher onde matricular seus filhos, as escolas se valem de estratégias de questionável moralidade na busca por uma posição no topo do ranking. Como, por exemplo, montar ‘classes de elite’ compostas pelos alunos com os melhores desempenhos, ou atrair, através de bolsas de estudo e outras vantagens, os melhores estudantes de outros colégios para que esses possam, através de sua capacidade e conhecimento, contribuir para uma melhor performance daquela instituição que sequer participou da sua formação.”

E conclui: “Ao procurar uma instituição de ponta de ranking, os pais, por vezes, estarão matriculando seus filhos em locais que têm, sim, alguns alunos com desempenho altíssimo. Com isso, o desempenho geral dessas instituições acaba sendo mascarado. Para alguns, aparentemente, nem todo aluno tem a mesma importância. Portanto, cabe aos pais a melhoria da avaliação da escola. Se o desempenho no Enem deve ser levado em consideração, é necessário, antes, o desenvolvimento de uma interpretação crítica desse resultado.

O próprio Inep disponibiliza em seu site o arquivo completo, com todos os dados de cada instituição, sem recortes. Nada melhor para a tomada de uma decisão bem informada do que ter a informação completa. Além disso, é importante ainda entender que o papel da escola na formação de nossos cidadãos não pode se limitar ao desempenho no exame. É imprescin­dível conhecer seu projeto, a direção e equipe pedagógica – bem como os recursos utilizados, como o material didático e soluções educacionais que enriqueçam o processo de ensino-aprendizagem. Escolas que manipulam o ranking, em vez do papel educativo que deveriam ter, agem de forma antiética, algo que certamente estará refletido na educação dos seus alunos”.

Enem marketing escolar

“Acredito que, no máximo, 30 grandes escolas ou redes privadas importantes ainda apelem para expedientes desse tipo entre as mais de 30 mil unidades escolares do ensino médio brasileiro”, Ademar Celedônio Guimarães Júnior (foto: Shutterstock)

Parâmetros de avaliação

O educador Ademar Celedônio Guimarães Júnior é diretor de Ensino e Inovações Educacionais do Sistema Ari de Sá Plataforma de Educação, o SAS, rede com escolas próprias e parceiras com sede em Fortaleza, no Ceará. O grupo não se intimida e nem economiza esforços na hora de comunicar seus feitos ligados ao Enem nas plataformas de comunicação e peças publicitárias.

“Nossos resultados: oito anos entre as melhores do Enem, nove notas 1.000 (a máxima) em redação 2018, 9.621 aprovações no Sisu em 2019, oito escolas SAS há oito anos entre as melhores do exame”, e por aí vai. “O Enem é o segundo exame educacional nacional de ensino médio do mundo. Perde em tamanho e abrangência apenas para o Gaokao, da China. Além de ser a principal porta de entrada para o ensino superior brasileiro, em algumas regiões a única, ele nos dá parâmetros para avaliações no contexto internacional, entre elas o Pisa, e também métricas importantes para programas sociais e educacionais, como o Sisu e o ProUni”, elogia.

Celedônio considera legítimo o uso do desempenho de uma escola ou rede como instrumento de manutenção e conquista de alunos. “Realizado com seriedade e honestidade, é um processo de comunicação como outro qualquer”, destaca. “No coração de São Paulo e em outros pontos do país, há escolas com turmas de 600 pontos em média no Enem e outras com 150. Uma sala ao lado da outra”, revela. “Anos atrás, escolas importantes e grandes redes de ensino e parceria educacional criaram até CNPJs diferentes para separar burocraticamente turmas resultantes de seleção por resultados e de alunos conquistados em outros colégios, com gratuidades, remuneração, incentivos e outros métodos de sedução, das demais, formadas pela média dos alunos.”

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“Tudo para jogar o resultado no céu, anunciar como se fosse um feito de toda a rede e faturar alto com a repercussão baseada no desempenho individual de alunos ou turmas escolhidas a dedo. Outras atitudes do tipo chegaram a ser punidas pela Justiça”, diz. Celedônio destaca, porém, que os mal-intencionados constituem hoje minoria restrita. “Acredito que, no máximo, 30 grandes escolas ou redes privadas importantes ainda apelem para expedientes desse tipo entre as mais de 30 mil unidades escolares do ensino médio brasileiro”, arrisca.

O engenheiro de produção Felipe Sundin, mestre em Administração pela universidade americana de Stanford e diretor da rede de escolas de origem fluminense AZ, integrante do Sistema Educacional Brasileiro (SEB), concorda. “As práticas de aliciar alunos de outras escolas e forjar ou distorcer resultados do Enem para aumentar o rebanho estão perdendo espaço e ficando no passado”, avalia. “As famílias estão preparadas para se defender dessas atitudes. Sabem avaliar as boas escolas e identificar quem mente ou infla artificialmente os dados do Enem”, acrescenta o diretor, responsável pela produção do material didático e a implantação da metodologia AZ nas escolas parceiras.

A rede tem oito escolas próprias na cidade no Rio de Janeiro, nos bairros de Ipanema, Botafogo, Tijuca, Recreio dos Bandeirantes e Barra da Tijuca. Nessas unidades, a média no último Enem foi de cerca de 700 pontos nas provas objetivas e 800 em redação. Um sucesso ancorado em dois pilares básicos: uso arrojado de tecnologia (aplicativos, material na linguagem do estudante e mais de 30 mil vídeoaulas à disposição dos alunos, entre outros recursos) e intenso processo de capacitação de professores.

“A estruturação dos conteúdos é feita com base nas competências e habilidades, e não apenas nos tópicos das matérias. Isso faz com que os alunos assumam protagonismo no aprendizado”, explica o diretor de ensino da rede, o professor e pesquisador Naun Faul. “Além disso, investimos fortemente na intensificação dos estudos para a redação, com aprofundamento de repertório cultural, pois a correção do Enem considera muito a capacidade de articular ideias e de argumentação dos alunos.”

Acesso à informação

Para além do juízo de valor que se possa fazer da atitude, muitos educadores creditam a queda da propaganda enganosa e antiética relacionada ao Enem, em parte, à polêmica decisão, anunciada pelo Ministério da Educação (MEC), em março de 2017, de não mais divulgar os resultados do ranking Enem por Escola. O recurso fora adotado na oitava edição, em 2005. Os índices eram publicados no segundo semestre do ano posterior ao exame. Os argumentos do MEC para tomar a medida foram a interpretação e o uso distorcidos dos dados em muitos casos e a disposição de direcionar as métricas oficiais ao ingresso no ensino superior e aos programas de concessão de bolsas e incentivos.

Os resultados deixaram também de certificar pessoas com ensino médio incompleto para receber o diploma da etapa. Até então, estudantes com mais de 18 anos, com pelo menos 450 pontos em cada uma das áreas de conhecimento do exame e 500 na redação, podiam utilizar as notas do Enem para reivindicar o diploma dá etapa. Cerca de 11% dos inscritos conquistaram o canudo dessa forma nas edições anteriores. Com a decisão, a chancela passou a ser feita exclusivamente por meio do Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (Encceja), aplicado anualmente no Brasil e no exterior.

“Interromper a divulgação por escola foi a decisão mais adequada. O Encceja é o exame adequado para a certificação”, defendeu a presidente do Inep à época, Maria Inês Fini. Em tese, a qualidade das escolas passou a ser medida pelo Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica, o Saeb. Todas as unidades públicas e privadas com ensino médio do país deveriam ser avaliadas e ter o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, o Ideb, calculado. Até 2016, a análise foi feita por amostragem: apenas alguns alunos faziam o exame.

“Para ludibriar pais que buscam no exame orientação para escolher onde matricular seus filhos, as escolas se valem de estratégias de questionável moralidade na busca por uma posição no topo do ranking”, Eduardo Silveira Mufarej

A intenção do MEC ao lançar o Enem por Escola, em 2005, era permitir que as unidades tivessem acesso amplo às informações sobre as médias de qualificação, porcentagem e desempenho dos participantes para corrigir rumos e reforçar as áreas de estudo vulneráveis. Mas, de acordo com José Mendonça Bezerra Filho, ministro da Educação à época, no governo Michel Temer, os dados passaram a gerar rankings utilizados como “propaganda falsa” por escolas e redes. “O Enem não permite avaliação adequada de cada unidade escolar”, acredita ele. “Quando se divulga propaganda utilizando um ranqueamento indevido, a partir de uma prova como essa, o que se faz, a rigor, é propaganda enganosa, e o MEC não pode validar esse tipo de comportamento. Não é a missão do Estado brasileiro”.

Por serem de fácil entendimento para pais e alunos, os rankings do Enem por Escola, fortemente divulgados por veículos de comunicação, foram logo “adotados” por redes e escolas que viam seus desempenhos como ferramentas de marketing eficientes. Mas eles comparavam unidades com alunos de realidades sociais e econômicas diferentes. Além disso, como o exame não é obrigatório, escolas com poucos participantes, situação normalmente facilitadora da seleção, eram comparadas a outras com muito mais inscritos, o que distorcia a avaliação do desempenho médio das instituições. Isso, claro, quando os dados não eram distorcidos em campanhas de má-fé.

Os representantes das escolas privadas comemoraram a decisão do MEC. “O fim da divulgação do ranking é maravilhoso”, empolgou-se a hoje vice-presidente da diretoria executiva da Federação Nacional das Escolas Particulares (Fenep), Amabile Aparecida Pacios, em entrevista a Mariana Tokarnia para a Agência Brasil. “Vão acabar com uma série de medidas que desvirtuam o resultado da avaliação do Enem.”

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Ranqueamentos

Carolina Pavanelli, diretora pedagógica da Eleva Plataforma de Ensino, faz coro. “Vejo de forma positiva a suspensão, mesmo porque os dados continuam disponíveis e os veículos e instituições continuam a fazer seus rankings e listas”, comenta em entrevista a Educação. “Mas não trabalhamos a imagem da Eleva usando casos isolados como representações falsas ou distorcidas do todo. Ela é trabalhada a partir da porcentagem dos nossos alunos de ensino médio que atingem, no Enem, o objetivo de ir para o curso superior desejado, felizmente alta em todos os anos. No fundo, isso é o que importa para o aluno, os pais e as escolas”, analisa ela.

O site e as peças publicitárias da Eleva informam: mais de 3 mil aprovados na primeira chamada do Enem/Sisu, mais de 500 aprovados em Medicina, 152 no Colégio Naval e a maior aprovação do Rio de Janeiro nos institutos Militar de Engenharia (IME) e Tecnológico da Aeronáutica (ITA) em 2019. O grupo reúne 70 mil alunos em cem escolas próprias e mais 180 mil em 300 parceiras.

Outro grupo educacional com bons resultados sem apostas no ranqueamento é o Poliedro, surgido há 26 anos como curso preparatório para o ITA em São José dos Campos, no Vale do Paraíba paulista, e hoje com 150 mil alunos no país, em 400 escolas associadas de 250 grupos educacionais, e outros nove mil em seis unidades próprias na cidade-sede e em Campinas.

“Mais de 90% dos nossos alunos que se submetem ao Enem conseguem ingressar em um curso superior pelo Sisu ou aprovação e convocação diretas dos centros universitários públicos ou privados”, contabiliza o gerente de inteligência educacional e avaliações do grupo, Fernando da Espiritu Santo. “Se nossas escolas oferecem boa educação à maioria, aos grandes grupos de alunos, seria falta de inteligência fazer divulgação explorando desempenhos individuais dando a falsa impressão de que são coletivos. Nosso marketing se sustenta em tradição e resultado – e dessa forma deveriam agir todos”, resume ele.

“Se uma escola ou rede consegue um bom índice no Enem com muitos alunos inscritos, isso diz, no mínimo, que ela sabe encaminhar soluções didáticas a seus alunos, desenvolvendo o raciocínio de acordo com as novas demandas educacionais”, posiciona o educador e consultor Josias Silva, gestor da plataforma de conteúdo e serviços para escolas e grupos Central Enem ao lado da pedagoga Sabrina Moreira e do professor especializado em ciências exatas Emerson Poli.

Mas, como vem ocorrendo nos últimos anos em todos os pontos relacionados à educação no país, houve também pesadas críticas à interrupção do Enem por Escola pelo MEC, feitas por especialistas de peso. “A decisão do MEC de passar a não divulgar os resultados do Enem por unidade escolar segue na contramão das políticas públicas de acesso à informação e desrespeita a determinação do Plano Nacional de Educação (PNE) de incorporar o exame, assegurada sua universalização (tornando-o obrigatório para os concluintes), ao sistema de avaliação da educação básica”, afirmou no Facebook o professor universitário, ex-prefeito de São Paulo, ex-ministro da Educação e candidato à presidência da República na última eleição Fernando Haddad, responsável pela reforma que solidificou o Enem como principal porta de acesso ao ensino superior do país.

Não foi a única voz potente em sentido oposto. “O que acho mais estranho é ter a informação e não divulgá-la”, lamentou Reynaldo Fernandes, ex-presidente do Inep. “Sonegar informações não pode ser visto como avanço. A interpretação dos dados é aberta. Ter a informação permite que as pessoas avaliem da melhor forma e de acordo com os melhores critérios”, acrescentou. Organizações defensoras da liberdade de expressão e de imprensa seguiram o mesmo raciocínio: o mau uso dos dados por uma parcela das escolas e redes não pode e nem deve servir de justificativa para o enterro de um instrumento nacional, público e democrático de informações relacionadas a uma área tão importante como a educação.

O pesquisador e gestor escolar José Francisco Soares, conhecido no meio como Chico Soares, é professor titular aposentado emérito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Graduado em Matemática, mestre e doutor em Estatística pelo Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada (IMPA) e também pela Universidade do Wisconsin-Madison, pós-doutor em Educação pela Universidade de Michigan, é considerado por muitos do ramo o maior especialista brasileiro em processos do tipo Enem. Na presidência do Inep, entre 2014 e 2016, criou 19 subdivisões para o exame, para adaptar melhor o uso dos dados às políticas públicas, incentivar a análise comparativa de unidades educacionais envolvidas em contextos semelhantes e contribuir para neutralizar os usos distorcidos de resultados.

“Para a educação privada, o Enem diminuiu custos consideravelmente ao dar uma nota em massa de norte a sul do país. Mas é preciso acabar com a ideia e a prática do espetáculo. Entre os recortes que criei, um dos principais destaca o tempo em que o aluno está na escola”, lembra. “Confesso não ser muito fã de hierarquia, mas ela existe no Enem e deve ser considerada para não haver desonestidade de análise e julgamento. A hierarquização é inevitável, mas precisamos fazê-la dentro de uma estratégia educacional. Espero que não abandonem essa ideia e os processos criados por completo”.

Ele defende que a redação deveria ser eliminatória para candidatos a qualquer curso que não atingisse nela uma nota mínima. E também as provas das quatro áreas de competência em duas partes: uma primeira etapa genérica, de múltipla escolha, e outra específica, com questões abertas e direcionadas a cada curso ou área. “Estamos longe disso, mas insisto: é possível não comparar o incomparável, como se fez nos últimos anos com anuência de autoridades educacionais”, prega Chico. Propaganda sem engano é isso.

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