Como integrar conteúdo da cultura digital à grade curricular

Especialista fala sobre os desafios com a tecnologia e de como a programação é fundamental no ambiente escolar

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Educação, formação digital nas escolas e novas tecnologias são temas que povoam a vida e as atividades da catarinense Lúcia Gomes Vieira Dellagnelo. Mestre e doutora em Educação pela universidade americana de Harvard, foi secretária de Desenvolvimento Econômico Sustentável de seu estado, onde criou o Cluster de Inovação na Educação. É fundadora e presidente do Conselho do Instituto Comunitário Grande Florianópolis (ICom) e atua como consultora de organizações nacionais e internacionais na área de educação e desenvolvimento territorial. Atualmente, dedica a maior parte de seu tempo à função de diretora-presidente do Centro de Inovação para a Educação Brasileira (CIEB), organização sem fins lucrativos que impulsiona a transformação da educação brasileira pela inovação e o uso de tecnologias de informação e de comunicação no ensino e aprendizagem. Criado em 2016, o CIEB formula conceitos, propostas e divulga conhecimentos sobre o uso de tecnologia nas escolas de nível infantil, fundamental e médio. Nesta entrevista à Educação, ela destaca a necessidade de se fazer, nas escolas, a transição do ambiente de inclusão digital para o de programação, criação e desenvolvimento de linguagem nos universos digital e virtual.

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O pensamento computacional e a educação para a criação no ambiente digital estão formando uma linguagem tão importante quanto a oral ou a escrita para as crianças e jovens de hoje?

A construção dessa linguagem já é uma realidade e sua solidificação é uma consequência inevitável. A necessidade de desenvolver tecnologia e educação digital com crianças e jovens na escola está, inclusive, prevista na competência cinco da Base Nacional Comum Curricular, a BNCC. Ela diz que todo jovem precisa compreender, utilizar e criar tecnologia de forma reflexiva, significativa e ética. Mais do que uma ferramenta facilitadora de absorção de conhecimentos, da forma como funcionou no que se convencionou chamar de inclusão digital, a tecnologia digital hoje abriga um conjunto de conhecimentos e competências que precisam ser desenvolvidos com os alunos. Entender lógica da programação e como funcionam os algoritmos é fundamental para qualquer criança, adolescente e jovem.

Em quais eixos se apoia esse universo digital a ser oferecido aos alunos pelas escolas?

Quando o mundo da tecnologia é separado do todo, com o digital obviamente incluído, percebe-se que ele se afirma sobre três grandes eixos. Há o da cultura digital, para entender os impactos altamente transformadores provocados por esses instrumentos em todos os setores da sociedade. Nas relações humanas, produtivas, de trabalho. É preciso que o jovem tenha clara percepção dessas dimensões de influência para se conscientizar da importância de controlar o essencial da tecnologia. Mesmo porque ela, a tecnologia digital, continuará rompendo realidades de forma cada vez mais intensa, e o aluno de hoje precisará estar preparado para se adaptar às novas situações no futuro, quando as profissões e atividades exigirem isso.

E o segundo e terceiro eixos?

O segundo é o do pensamento computacional, ou seja, das habilidades e capacidades mentais de estruturar, fazer a decomposição e solucionar problemas com a ajuda de algoritmos. Esse pensamento não se estrutura apenas na dimensão de uso do computador. Inicialmente, o encaminhamento da solução pode ser apenas conceitual, automatizado ou não, e só depois adaptado às máquinas e sistemas. E o terceiro, igualmente importante, é o do conhecimento daquilo que chamamos de mundo digital: como funciona a internet e as redes nela contidas, a arquitetura disso tudo, a deep web, a internet profunda, e os outros espaços digitais e virtuais deste universo. Esses três eixos, com os seus conjuntos de temas, precisam ser obrigatoriamente trabalhados na escola –- o ideal era que já estivessem em aplicação, em alguma escala, em todas as redes e colégios públicos ou privados.

cultura digital na grade curricular

“A BNCC já diz que todo jovem precisa compreender, utilizar e criar tecnologia de forma reflexiva, significativa e ética” (foto: arquivo pessoal)

Quais os temas mais importantes a serem trabalhados dentro desses eixos?

Na cultura digital, precisamos pensar nas diferenças entre linguagem e mensagens de cada canal ou rede social. Um exemplo simples: como apropriar uma mensagem no WhatsApp, num e-mail descontraído e em outra forma, que são três coisas distintas. Isso tudo, claro, nos planos de uso, mas também nos de criação. Quando uma imagem pode substituir um texto, a tendência das pes­soas a encarar as mensagens instantâneas sempre de forma literal, desconsiderando os matizes de uma conversa ao vivo, enfim, o letramento digital. Neste eixo, outros pontos importantíssimos nessa formação são os de cidadania e ética digital. Minha responsabilidade ao divulgar, por exemplo, fake news, e o impacto que isso poderá ter nas pessoas. A questão da pegada, do rastro digital: o entendimento de tudo publicado na web ficará associado mesmo depois de sua morte. A questão do público e do privado na internet. Como alfabetização e educação digital, esses pontos são fundamentais, sobretudo para crianças e jovens. Agora, isso precisa ser devidamente trabalhado em meio à formação destinada à programação, algoritmo e criação no mundo digital.

A senhora é otimista em relação ao oferecimento desses conhecimentos pelas escolas brasileiras em larga escala nos próximos anos?

O fato de essa necessidade estar registrada na BNCC é uma boa notícia e, para várias situações, um bom começo. Deixa muito clara, para educadores e gestores educacionais, a necessidade de se trabalhar com essas competências. Agora precisaremos implementar em massa nas escolas públicas e privadas – e aí as dificuldades dos educadores começar a emergir. O grande desafio, a partir de agora, será definir como trabalhar esses conteúdos com os alunos, e integrá-los à grade curricular de forma harmônica, sem prejuízo de outros ensinamentos, com professores que não tiveram formação neste campo.

A senhora tem alguma sugestão de como definir isso?

Nós, no CIEB, apresentamos nossa contribuição lançando as Referências para a Construção de Currículos em Tecnologia e Computação da Educação Infantil ao Ensino Fundamental. Procuramos ajudar as escolas separando as competências ano a ano e mostrando a progressão existente entre elas, e também como o professor pode trabalhar etapas desse conteúdo em sala de aula, muitas vezes até sem ter computadores ou outros gadgets à disposição. As exigências mostram, por exemplo, muitas atividades possíveis de serem resolvidas sem que se esteja plugado.

Onde o interessado encontra esse material?

Em nosso portal, o www.cieb.net.br. Além desse currículo, é possível consultar um material chamado Análises e Contribuições para a Proposta da BNCC do Ensino Médio com Foco em Tecnologia e Educação. E também a Proposta de Itinerário Formativo em Cultura Digital, diante das definições de itinerário formativo incluídas na Lei do Novo Ensino Médio. Esse documento, validado pelo MEC, foi incorporado ao Guia de Implementação do Novo Ensino Médio. Tudo isso está à disposição em nosso portal de forma bem didática, com ilustrações e mandalas, para ser consultado e baixado gratuitamente. Agora, é quase uma obrigação enfatizar que as escolas brasileiras públicas e privadas necessitam avançar na consolidação de uma estrutura mínima para o desenvolvimento desse aprendizado. A maior parte das estruturas digitais escolares ainda espelha uma situação do período de mera inclusão digital, ou seja, do aprender a utilizar programas básicos meramente para leitura, pesquisa e estudo. Diante da nova realidade da operação em busca de soluções, esses espaços se revelam insuficientes.

A distância entre as realidades das escolas privadas e públicas brasileiras, no campo da alfabetização digital, é algo que justifica o desânimo quando se pensa nessas últimas?

Sabemos que as privadas possuem, na média, uma estrutura digital melhor, que permite trabalhar todos esses temas de maneira mais adequada. É oportuno lembrar que muitas delas não fazem isso: apesar de terem infraestrutura, ainda fazem um ensino muito instrumental, com sugestão de finalidades passivas, da tecnologia digital.

A maioria das questões conceituais sobre cultura e cidadania digital e pensamento computacional, ou pelo menos as mais importantes, pode hoje ser feita em qualquer escola, como lembrei, independentemente de haver um computador, telão ou tablet à frente dos alunos – e isso infelizmente ainda não é adotado como prática regular e universal. Para se ter ideia, a pesquisa TIC Educação 2018 mostrou que mais de 40% dos professores – de escolas públicas e privadas – questionados pelos alunos sobre temas relacionados à cultura e à cidadania digital disseram não ter conhecimento sobre o assunto. Fica claro que ainda temos um caminho considerável até o ponto em que os educadores terão segurança, em larga escala, para explicar como funcionam os algoritmos por trás de plataformas como Google, Facebook e outras, às vezes influenciando nossas vidas de uma maneira que a gente nem percebe no primeiro momento, e também como isso poderá ajudar os alunos em seus projetos futuros.

Se a senhora precisasse explicar, de forma simples, o que é algoritmo e lógica de programação a um bom professor sem qualquer formação teórica sobre tecnologia digital, o que diria?

Algoritmo nada mais é do que a sequência de passos necessários para a resolução de um problema. Primeiro é preciso reconhecer os padrões do problema. Depois, saber decompor o problema e, em seguida, construir uma solução seguindo determinados passos. Em um exemplo elementar, o aluno nas fases iniciais deverá aprender como programar um pequeno robô, um cachorrinho ou carrinho eletrônico para que ele levante o braço ou cumpra uma rota até determinado ponto. Na programação, ele não vai entender a ordem como um conceito geral. É preciso uma sequência de comandos utilizando a linguagem em questão. Primeiro coloque o pé ou a pata direita para frente, depois vire à direita, depois à esquerda, depois ande reto por dois minutos e aí você chegará. Essa sequência de passos forma o algoritmo. Por isso que a gente propõe, nesses documentos do CIEB, que essa habilidade seja trabalhada desde o ensino infantil. (EM)

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