Cinema de poesia e delicadeza

Novo cinema japonês traz temas tocantes e é também muitas vezes autorreflexivo, como “O segredo das águas”, de Naomi Kawase

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Divulgação

Dos anos 1950 até o início dos anos 1980, a presença de distribuidoras japonesas de cinema em São Paulo possibilitou que muitos espectadores brasileiros conhecessem o período mais fértil na produção daquele país, comandada pela atividade incessante e numerosa de diversos estúdios. Desde então, nosso circuito comercial passou a lançar cada vez menos filmes japoneses, sempre restritos a poucas salas nas grandes cidades. Alguns diretores de grande talento, nas gerações mais recentes, permanecem desconhecidos por aqui. É o caso, entre outros, de Naomi Kawase.

O segredo das águas (Japão/França/Espanha, 2014, 121 min), que disputou a mostra competitiva do Festival de Cannes, permite entender um pouco do que estamos perdendo: uma cinema de poesia e delicadeza, muitas vezes autorreflexivo, em que as imagens trabalham mais em nome de sentimentos, de sensações e de memórias do que de um fio narrativo convencional. Seus filmes parecem sugerir que o espectador deixe a razão descansar um pouco e procure entender o mundo pelo coração, pela sensibilidade e pela compreensão de uma certa ordem da natureza.

Desta vez, Kawase explora a beleza deslumbrante da ilha de Amami-Oshima, no sul do Japão. Beleza que contrasta, no início do filme, com a descoberta de um cadáver durante uma noite de lua cheia e danças tradicionais, em agosto. Um casal de adolescentes procura assimilar a experiência e, nesse processo, é apresentado ao ciclo invisível de amadurecimento que o mundo proporciona. A água, elemento fundamental na trama, conduz a espetaculares imagens submarinas. Sozinhos, esses momentos intensos condensam a poesia de um drama intimista que fala da morte para celebrar a vida, em chave oriental.

História
O livro Cinema japonês na Liberdade (Estação Liberdade, 304 pág., R$ 48) reconstitui as décadas em que, sobretudo na cidade de São Paulo, era fácil acompanhar o melhor da produção de cinema do Japão. O autor Alexandre Kishimoto recolhe números impressionantes. De 1948 a 1988, mais de 2.600 filmes japoneses teriam sido lançados em São Paulo.

Filmografia
Hoje com 46 anos, a diretora e roteirista Naomi Kawase tem imenso prestígio no circuito de festivais e do cinema autoral, com filmes como Shara (2003) e A floresta dos lamentos (2007). Eles correspondem quase a um exercício zen – corpo estranho no atual circuito cinematográfico, dominado por superproduções americanas de ação e fantasia.

Personagens
Os protagonistas de O segredo das águas (interpretados por Nijirô Murakami e Jun Yoshinaga) têm 16 anos e representam um perfil de adolescente muito comum no mundo atual: estão submetidos, simultaneamente, às antigas tradições da comunidade onde vivem e, também, às demandas emocionais, culturais e sociais da globalização.



FILMOTECA

Crianças da Ásia

Em O segredo das águas, mesmo em uma cultura diferente da brasileira, acompanhamos dramas comuns a jovens de outros países. Conheça alguns filmes asiáticos que têm crianças e adolescentes como protagonistas:

A cor do paraíso (1999)
Indicado ao Oscar de filme estrangeiro por Filhos do paraíso (1997), que narra o cotidiano de dois irmãos obrigados a usar o mesmo par de sapatos para ir à escola, o diretor iraniano Majid Majidi se dedica neste filme ao modo muito particular com que um menino cego, abrigado em uma escola para deficientes visuais, encara o mundo.

Nenhum a menos (1999)
Uma adolescente assume o lugar do professor de uma vila, com a missão de manter todos os alunos na escola até que ele retome o posto. Se atingir a meta, ela será premiada. Dirigido pelo chinês Zhang Yimou, um dos mais prestigiados cineastas de sua geração, que também se voltou para o universo da educação em O caminho para casa, lançado no mesmo ano.

As coisas simples da vida (2000)
O diretor chinês Edward Yang (1947-2007) foi criado em Taipei (Taiwan), cenário deste seu derradeiro longa-metragem, que obteve o prêmio de melhor direção no Festival de Cannes. Um menino de oito anos, frequentemente acompanhado de uma câmera fotográfica com a qual observa e registra o mundo, está no centro de uma crônica familiar.

O sonho de Wadjda (2012)
Rara oportunidade de conhecer o dia a dia de uma família na Arábia Saudita, em filme dirigido por Haifaa Al-Mansour. A personagem do título é uma menina de 12 anos dividida pela cultura conservadora de Riad, onde vive, e o desejo de fazer coisas proibidas ou não recomendáveis para mulheres em sua sociedade, como andar de bicicleta.

Pais e filhos (2013)
Quase sempre voltado para os contrastes entre gerações e para o olhar lançado por crianças em direção ao mundo, em filmes como Ninguém pode saber (2004) e O que eu mais desejo (2011), o diretor japonês Hirokazu Kore-eda explora os dramas criados pela descoberta, por dois casais, de que seus filhos já crescidos foram trocados na maternidade.

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