Zonas de pressão

Em busca de bons resultados acadêmicos, China e EUA apostam em níveis diferentes de cobrança parental; no Brasil, há confusão sobre modelo de educação familiar

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© Tony Metaxas/Asia Images/Corbis

O mundo vive uma nova Guerra Fria, mas desta vez o campo de batalha é a educação. Em pesquisa realizada neste ano pela Pew Research Center, duas potências mundiais – Estados Unidos e China – colocam-se em dois extremos quando o assunto é a pressão dos pais por um melhor desempenho acadêmico dos filhos. No gigante americano, 64% da população acredita que os pais não pressionam seus filhos suficientemente, 21% acham que a pressão é ideal e apenas 11% que a pressão é exagerada. Enquanto isso, em outro extremo, 68% dos chineses pensam que há pressão demais por parte dos pais, 14% acham que é equilibrada e os mesmos 11% não consideram que há muita cobrança sobre crianças e jovens.

O estudo, realizado todos os anos pelo projeto Pew Global Attitudes Project, da Pew Research Center, empresa que conduz pesquisas de opinião pública internacionais, ouve uma média de mil pessoas em cada país (são 20 no total)  e as questiona sobre uma série de assuntos, entre ele a educação. Não há um corte socioeconômico específico das pessoas ouvidas; a empresa diz trabalhar com uma amostragem fidedigna da população total de cada país. Os pesquisadores trabalharam com o conceito de “pressão” como sinônimo da necessidade dos pais de serem mais ou menos rígidos e exigentes ao cobrar melhores resultados de seus filhos na escola.

Para Juliana Horowitz, pesquisadora do Pew Global Attitudes Project, os resultados estão associados a uma preocupação geral, por parte dos EUA, de que a China tomará o lugar de nação mais poderosa do mundo, começando pela formação de “cérebros”. Isso porque crescentemente os alunos norte-americanos têm apresentado desempenho ruim em provas como o Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa). “De um lado, os EUA se preocupam de não estarem agindo de forma eficaz para que a China não os ultrapasse. De outro, o índice de suicídio entre os jovens chineses é altíssimo, e é possível que a razão seja essa pressão exacerbada dos pais”, contrapõe. Talvez esta seja a única resposta produzida pela pesquisa, que suscita inúmeros questionamentos. A pressão dos pais e o melhor desempenho acadêmico são realmente intrínsecos e diretamente proporcionais? A cobrança por melhores resultados na escola é boa ou ruim, ou existe um equilíbrio ideal? As perguntas levam a uma discussão ainda maior, de proporções globais: através de modelos de educação de pressão exacerbada ou de pouca cobrança parental, que tipo de adultos e cidadãos essas nações planejam formar?


China e EUA
O polêmico modelo de educação familiar chinês veio à tona no início de 2011 com o lançamento do livro de Amy Chua O grito de guerra da mãe-tigre. Amy, professora universitária nascida americana e com ascendência chinesa, defende que os pais ocidentais são incapazes de educar e formar filhos brilhantes porque não são firmes o suficiente. Em seu livro, ela conta como criou suas duas filhas: sem direito de participar de festas, dormir na casa de amigos, assistir à TV ou jogar videogame, escolher as próprias atividades curriculares, tirar menos de 10, participar de teatros na escola ou de reclamar de não ter escolha. Segundo ela, um pai ideal pressiona seus filhos até o limite e ultrapassa essa fronteira, sem medo de não ser popular. Só assim, para ela, é possível criar adultos não só “de sucesso”, mas os melhores entre os melhores.

Nos EUA, a era de cobrança, que extrapola o âmbito familiar, começou com a lei No Child Left Behind, em 2002, e continuou com a legislação atual do presidente Barack Obama, conhecida por Race to the Top. Os programas têm desenhos semelhantes: concedem incentivo financeiro aos estados que aumentarem o desempenho de seus alunos em inglês e matemática nas provas padronizadas. A corrida por melhores resultados foi objeto de discussão do documentário Race to Nowhere, lançado neste ano. Em um determinado momento, uma das entrevistadas desabafa: “a pressão vem das universidades, dos pais, do governo, mas precisa acabar”. 

“Eu não enxergaria a China ou os EUA como modelos a serem seguidos”, pondera o britânico Carl Honoré, autor dos livros Devagar e Sob pressão – nenhuma criança merece superpais. Segundo ele, há uma obsessão em ambas as nações por criar pessoas que apresentem bons resultados em provas, o que acabou distorcendo o conceito de “educação”. Em outras palavras: as escolas teriam se transformado em fábricas de avaliação em vez de lugares de aprendizado. O problema é que, quando crescerem, essas crianças não precisarão fazer provas, mas necessitarão de habilidades como pensar criativamente, socializar, trabalhar em grupo, comunicar-se e assumir riscos.


Contraponto
Honoré lembra que os países asiáticos acordaram recentemente para o fato de que seus sistemas educacionais estão produzindo “robôs passadores de exames” – por esse motivo, passaram a olhar para países como a Finlândia, no intuito de “relaxar um pouco”. Para escrever o livro Sob pressão, o britânico entrevistou pais, alunos, professores e gestores educacionais de diversos países, entre eles Hong Kong e China. “Até na China há muitas vozes alertando que as crianças estão sob pressão demais. Quando os alunos têm mais tempo para relaxar, refletir e tomar conta de seu próprio aprendizado, eles aprendem melhor”, defende.

Na Finlândia, país não contemplado pela pesquisa da Pew Global, as crianças começam a escola aos sete anos, fazem menos provas, passam menos horas na sala de aula e têm menos lição de casa que outras de sua faixa etária mundo afora – incluindo o Brasil. Para o professor James Greenberg, da Faculdade de Educação da Universidade de Maryland, tanto a Finlândia quanto os países asiáticos fizeram um enorme investimento na educação. Mas no país escandinavo, faz parte da cultura das crianças valorizar a educação e os professores. “As crianças são propensas a absorver a importância da educação sem a pressão extra”, afirma. Já na Coreia, há fortes expectativas em relação aos resultados que os alunos vão trazer para a nação. Para o professor, ambos os países querem o melhor para os seus cidadãos, mas têm valores diferentes e por isso tomam decisões e caminhos diversos para atingir o objetivo final.

Isso nos leva de volta ao questionamento inicial: métodos diferentes – mais ou menos pressão, no caso – não formam pessoas diferentes na sua essência? Marilda Lipp, diretora do Centro Psicológico de Controle do Stress da PUC de Campinas, acredita que sim. De acordo com ela, em países em que a cobrança em cima dos jovens é muito forte, espera-se formar cidadãos voltados para competições e realizações de tarefas – ou, como pontuou Honoré, “passadores de exames”. Nessa lógica, em nações onde não há muita pressão por parte dos pais, a ênfase é na formação do ser humano como um todo. “Pai e mãe têm de pensar no que querem para sua família: cidadãos voltados para a realização ou mais preocupados com uma qualidade de vida geral?”, questiona. “Por isso faz sentido que um país como a China, que está avançando rapidamente no mercado internacional, esteja querendo formar realizadores”, diz.

Irene Maluf, psicopedagoga e ex-presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia, lembra outro aspecto que diferencia esses modelos de educação: a história e o governo de cada país. Em lugares como a Finlândia, a postura dos pais é mais relaxada porque existe uma estrutura estatal que oferece total apoio aos seus cidadãos. “Com um supergoverno, que supre boa parte das necessidades das famílias, existem outros tipos de preocupações”, defende. Já países com histórias diferentes de desenvolvimento econômico tendem a ser mais duros com as crianças.


No Brasil
No meio do cabo de guerra entre China e EUA, aparece também o Brasil, quinto país com maior número de pessoas afirmando que os jovens não são exigidos o suficiente (49%), enquanto 31% pensam que há um equilíbrio ideal e 18% acham que a pressão é demais. Há uma falha na pesquisa da Pew Global: na falta de um perfil socioeconômico das pessoas que responderam ao estudo, fica difícil justificar os números revelados. Qual seria, por exemplo, o modelo de educação brasileiro que reflete essa pretensa “falta de pressão” parental? Marilda Lipp defende que no nosso país há uma confusão tão extrema em relação ao modelo educacional – ele não existiria como unidade – que os pais não sabem ao certo qual papel desempenhar. “Há pais que não sabem se podem cobrar, educar, se têm direito de colocar limites”, explica. Outro tipo de pais, segundo ela, é o time dos extremamente ocupados que largam mão de disciplinar o filho em uma atitude dita democrática, o que acaba por comprometer o processo de desenvolvimento da criança. “Criança precisa de limites, tem de obedecer, tem de receber instruções”, frisa. “No nosso país oscilamos entre os que têm medo de disciplinar e aqueles do tipo ‘realizadores’, que acham que o filho tem de ser o melhor e fazer tudo. Essas crianças são miniexecutivos, não têm tempo para nada.”

Marilda alerta que a falta de um modelo educacional congruente no Brasil faz com que, na mesma sala de aula, existam alunos que seguem diferentes modelos de educação, e isso confunde também os professores, que não sabem se devem ser severos e exigentes ou mais complacentes. Alguns pais esperam que a escola dê a educação estrita que eles em casa não sabem dar, e outros reclamam quando o filho tira nota baixa, pois acham que ele deve ser poupado. “Os professores pensam: se pai e mãe não disciplinam, como eu vou disciplinar? E quem vai disciplinar essa criança?”


Medida certa
Os especialistas ouvidos são unânimes ao dizer que a criança necessita de diretrizes ao longo de seu desenvolvimento, mas que a pressão em exagero é uma catástrofe. “A cobrança maneirosa tem de existir sempre. Sem pressão (ou com pouca), não é educação”, afirma a psicopedagoga Irene Maluf. Segundo ela, a pressão é positiva quando pode ser traduzida em motivação, atenção e acompanhamento. E é negativa quando é exercida sobre uma criança que não tem condição de se esforçar mais. “O pai sempre vai ter o desejo de que o filho seja o melhor. Essa expectativa é excelente quando é motivação, mas péssima quando vira um fardo sobre a criança. Isso é paralisante, engessa”, alerta.






Gustavo Morita
Irene Maluf, psicopedagoga: “expectativa é péssima quando vira um fardo”

Marilda complementa que os pais não podem deixar que a criança opere por regras próprias porque sua natureza é hedonista, ou seja, ela sempre vai preferir brincar a estudar, por não entender os desdobramentos de suas escolhas no presente. E a função do adulto é apontar esses caminhos. “Os pais têm um papel fundamental para que o filho cumpra suas obrigações, mas não precisam pressionar demais”, diz.

As consequências da pressão exacerbada podem ser devastadoras. Marilda observa que os jovens entram em um processo de ansiedade agudo e isso faz com que a produtividade caia consideravelmente, produzindo o efeito contrário. Em países em que se exige muito dos jovens, o índice de suicídio nessa faixa etária tem aumentado consideravelmente. A China é um deles. Em 2008, a Associação Chinesa para a Saúde Mental divulgou que os jovens chineses têm mais probabilidade de morrer pelo suicídio do que por qualquer outra causa. A cobrança por resultados, segundo Carl Honoré, também pode gerar a perda de criatividade e de autonomia. “Eles não têm tempo ou espaço para explorar o mundo em seus próprios termos, aprender a assumir riscos e cometer erros. Também não aprendem a olhar para dentro de si próprios e entender quem são, porque estão muito ocupados tentando ser quem os outros querem que eles sejam”, afirma.

Agenda lotada


A pedagoga Ana Letícia Castro, de Juiz de Fora (MG), matriculou o filho Lucas, 8 anos, em diversos cursos extracurriculares: o menino faz aulas de inglês, futebol e teclado, além de estudar em um colégio exigente. No fim de 2010, Letícia começou a se preocupar. “A coordenadora escolar relatou que ele vem se apresentando disperso durante as aulas e isso pode ser proveniente de um esgotamento”, conta. Ao conversar com o filho, ele respondeu que não queria parar as atividades por causa dos amigos. “Tive medo de estar sobrecarregando meu filho e de que, com isso, ele pudesse apresentar defasagem escolar”, diz. A solução encontrada foi procurar uma psicóloga infantil para se certificar de que não estava exigindo demais do filho. Letícia e o marido ouviram que, como as atividades tinham objetivos diferentes, não havia problema. “Procuramos respeitá-lo. Se ele não está disposto, colocar pressão faz com que ele realize a atividade só por fazer e nem assimile o que está fazendo.

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