Whatsapp: estratégias para utilizar as novas mídias como aliadas do ensino

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Um antigo adágio muito corrente na vida política diz: “Se você não pode vencer o seu inimigo, junte-se a ele”. Isso explicaria certas alianças inexplicáveis ao longo da história. A ideia de fundo é que, esgotados todos os recursos e estratégias numa disputa, e vendo-se à beira da derrota inevitável, ou você joga a toalha e se rende, ou procura unir-se aos vitoriosos.

Algo semelhante poderíamos pensar com relação ao mundo digital, em que muitos alunos mergulham durante horas seguidas, e nesse mundo parecem encontrar tudo. Nossas salas de aula analógicas tornam-se, para eles, o lugar do desinteresse e do tédio.

Em plena Idade Mídia, ou passamos a vida reclamando, combatendo e proibindo (tentando proibir) coisas como o aplicativo de comunicação WhatsApp Messenger, ou pensamos em formas pedagogicamente criativas de mergulharmos ao lado de nossos alunos nesse universo paralelo, que, afinal, não é tão paralelo assim, nem tão hostil como pode parecer à primeira vista.

Virtudes digitais

Um pedagogo com espírito envelhecido se sentirá de certo modo feliz por ter todos os motivos para se queixar das “novas gerações”, dispersivas, negligentes, incapazes de ler, pensar e escrever corretamente, alienadas etc. Quanto mais se queixar e apontar os erros dos alunos, mais ficará evidente (pensa ele) sua superioridade de educador. Quem critica é sempre (ou gostaria de ser) mais perfeito do que o criticado…

A primeira atitude para superar essa visão nada educacional é descobrir as invejáveis virtudes digitais dos nossos alunos. Uma delas é justamente a capacidade de concentração!

Temos de reconhecer que nossos alunos desenvolveram habilidades impressionantes para a comunicação simultânea com diversos interlocutores. Essa agilidade corre o risco, sem dúvida, da superficialidade, mas é essa uma das lacunas que saberemos corrigir, mostrando que a troca de mensagens pode dar margem ao necessário aprofundamento.

Outra virtude digital é a que relativiza as divisões e restrições de tempo. A qualquer hora do dia ou da noite, sempre é possível comunicar-se pelos celulares e iPhones. Antes ou depois de uma aula, os alunos podem preparar ou dar continuidade a alguma discussão relevante. Uma ideia prática (e ao mesmo tempo bem teórica) consiste em propor uma atividade semanal de pesquisa/discussão/compartilhamentos, que culminará com uma apresentação presencial dos resultados e conclusões.

Uma terceira virtude digital, além da comunicabilidade simultânea e contínua, é a naturalidade e informalidade com que tudo é tratado no ambiente do Whats-

App, como nas demais redes sociais, diga-se de passagem. Também aí surgem as lacunas que devemos identificar, demonstrando aos alunos que os dois códigos (o da informalidade e o da formalidade) coexistem em nosso dia a dia e cada qual tem sua hora. Na hora de uma redação ou dissertação, “você”, “verdade” e “comigo”. Na hora da comunicação digital, “vc”, “vdd” e “cmg”.

Literatura em três minutos

Uma iniciativa recém-criada de estímulo à leitura on-line pode ser incorporada ou nos servir de inspiração. Chama-se Leitura de Bolso (www.leituradebolso.com), e se apresenta com uma argumentação simples e direta:

No ano passado, 70% dos brasileiros não leram um livro sequer. Também com tanta coisa legal na internet, fica difícil competir. Por isso, criamos uma nova oportunidade para as pessoas lerem usando o WhatsApp e todos os seus recursos. E você só vai precisar de algo que sempre te acompanha: o seu celular.

A página no Facebook do Leitura de Bolso é simpática e vai conquistando suas adesões. Não pretende salvar a educação, mas é uma proposta inteligente e adequada a esse fato tecnológico/sociológico. Seja mania, moda ou necessidade, estamos praticamente todos nesta vibe.

As minicrônicas dos escritores Roberto Klotz e Mário Prata foram os primeiros textos divulgados nesse projeto. Todos os dias, uma história nova. A do dia 17 de dezembro de 2015 é uma crônica de Klotz, Andando com Nietzsche e Schubert. Um texto curto e leve, que brinca com o tema da aquisição de cultura.

O narrador está passeando num final de tarde com duas amigas, que conversam animadamente sobre Shakespeare, Machado de Assis e Nietzsche. A certa altura da caminhada, Ana Beatriz e Rafaela começam a observar o céu e a identificar nas nuvens imagens e figuras sofisticadas como o mapa do mar Adriático e a Pietá de Michelangelo. E então perguntam ao amigo o que ele via no céu:

Examinei as nuvens detidamente e encontrei uma nuvem linda, muito branca, parecia um coelhinho. Olhei de novo e depois olhei para o rosto das minhas amigas. Preferi dizer que não encontrei nada. Concluí que, às vezes, é melhor caminhar só do que bem acompanhado.

O contraste entre as referências culturais das duas moças e as do personagem masculino é um traço desse retrato despretensioso mas certeiro da nossa realidade. Conhecimentos de toda natureza estão à nossa disposição (a internet é céu infinito de buscas e achados). Contudo, não é raro encontrarmos jovens inteligentes ainda no nível do “coelhinho”, nível de imaturidade que podemos ajudá-los a superar.

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