Vovô Joãozinho

Livro reúne correspondência afetiva trocada entre Guimarães Rosa e suas netas, nos anos de 1966 e 1967

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Alexandre Pavan

Vovô Joãozinho tinha muita história para contar. Com elas, conquistava milhões de leitores adultos, maravilhados com a grandeza sertaneja de seus personagens. E, mais do que isso, o vovô que inventara um jeito novo de escrever fascinava até mesmo quem ainda não sabia nem falar.

“Joãozinho” Guimarães Rosa gastava horas criando palavras, historinhas e desenhos dedicados às suas netinhas por afinidade, Vera e Beatriz, de 3 e 4 anos. Como elas moravam em São Paulo e vovô dividia-se entre sua casa no Rio de Janeiro e os trabalhos diplomáticos em várias partes do mundo, o diálogo também se fazia por cartinhas e cartões-postais. Todos esses papéis, trocados entre 1966 e 1967, acabam de ser reunidos em edição fac-símile no belo livro
Ooó do Vovô – Correspondência de João Guimarães Rosa, com Vera e Beatriz Helena Tess

, lançado em conjunto pela USP, PUC-Minas e Imprensa Oficial de São Paulo.

A idéia da publicação surgiu em 1998, quando Vera e Beatriz procuraram o casal de bibliófilos José e Guita Mindlin atrás de orientações de como conservar os manuscritos de
Grande Sertão: Veredas

. Naquela visita, as netas acabaram mostrando as cartas que trocaram com o avô e que haviam sido conservadas durante anos por dona Aracy, viúva do escritor.

“Acontece geralmente com os grandes escritores que, à medida que cresce sua popularidade e a admiração do público leitor, eles vão se transformando em mito, a obra assumindo predominância sobre a pessoa de seu criador”, escrevem Antonio Candido e José Mindlin no prefácio do livro. Ambos, que conviveram e foram amigos de Rosa, se surpreenderam com a pessoa que a intimidade dos documentos revela. “Que ele era brincalhão, com grande senso de humor, nós já sabíamos, mas brincar com crianças pequenas é coisa bem diferente. O maior escritor brasileiro do século XX sente-se atraído pelo mundo infantil, põe de lado seus inúmeros afazeres e com elas conversa, quase monologa, e desenha, com uma constância comovedora.”

Vera, aos 3 anos, praticamente ainda não falava. Quando queria alcançar algum objeto, limitava-se a apontá-lo e dizer “ooó”. Guimarães Rosa passou a referir-se a ela como “Ooó do vovô”. Num cartão de 21 de outubro de 1966, tentando convencer a netinha a passar uns dias no Rio de Janeiro – coisa que a menina fazia com freqüência -, ele escreve, imitando a sintaxe das crianças: “Nenen querida! Vovô atí, titia atí, nenen vem atí? Susí atí. E praia. Nenen atí? Atí bôbo não. Atí bom, casa vovô, casa nenen. Casa 2. Beijinho bom.”

Em outra correspondência, o vovô conquistador anota: “Verinha, querida. Você vem cá, vovô conta estória. Você não vai me duvidar, hem? Aqui tem histórias muito bonitas, muitas, muitas. Do macaco risonho. Do boi de chapéu. Do peixe pintado. Do trem de ferro que queria pegar outro trem. Da noiva que casou num barco. Das noivas que foram à casa da fada-boa. Da bruxa má que casou com o macacão. Saudades, lembranças, beijos do Vovô.” Todas as cartas são ilustradas por desenhos do escritor, representando animais, carros, casas, as netas e ele próprio.

Em uma das visitas de Vera ao Rio, o avô se transforma em secretário da neta e faz uma “cópia fiel” do texto da menina, escrevendo-o em um cartão ilustrado com dois cachorrinhos: “Queída Biatiz Eêna, minha irmãzinha. Catão bonito, com caçoinho, dois caçoinhos. Pa você. Mamãe queída. Papai queído. Irmãozinhos queídos.” O livro ainda traz encartada outra surpresa: um envelope de papelão em fac-símile em que estão guardados alguns cartões selecionados. Funciona como se o leitor estivesse fuçando uma gaveta que, por descuido, Guimarães Rosa tivesse deixado aberta.

A edição finaliza de maneira comovente, com um desenho feito na data da morte do escritor, em 19 de novembro de 1967 – três dias após ter assumido sua cadeira na Academia Brasileira de Letras -, em que ele tentava convencer Vera a permanecer mais uma semana no Rio. A agenda seria esta: “20/11 – comprar bolsa e sapato; 21 a 24/11 – passeios na praia, no Jardim Botânico, no Zoológico, nos parques.” Infelizmente, um enfarte impediu que vovô Joãozinho cumprisse o prometido.



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