Vítimas ou algozes?

Apesar das carências, o fracasso dos professores é resultado de circunstâncias pessoais e não da conjuntura externa usada por eles para justificar seus insucessos

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Afora os políticos, não há categoria profissional no Brasil mais distante de cumprir a função esperada pela sociedade do que a dos professores, especialmente os do ensino básico. Ao contrário dos políticos, porém, os professores brasileiros gozam de amplo prestígio, pois são vistos como coitados batalhadores que “fazem o possível” frente a uma remuneração supostamente aviltante. O que não é verdade, como já tentou se comprovar aqui estatisticamente em colunas passadas, mas, como dizia Goebbels, repita uma mentira mil vezes e ela se torna verdade.

Por que eu digo isso? Porque os resultados da educação brasileira são, indiscutivelmente, desastrosos. Apesar de investirmos basicamente o mesmo que os países desenvolvidos, ocupamos as últimas posições nos testes internacionais de educação, temos o índice mais alto do mundo de repetência na primeira série e certamente um dos piores sistemas alfabetizadores do planeta, já que pesquisas recentes apontam que 75% dos brasileiros não conseguem ler e entender um texto curto. A mesma performance se repete em matemática. Somos uma nação de iletrados, e o fracasso das escolas se transforma no fracasso do país.

Os professores tendem a ver a coisa de maneira inversa: o país vai mal, portanto a escola também precisa ir. Mas está aí a história para desmontar essa falácia. Há uma série de países do mesmo nível de desenvolvimento do Brasil – Argentina, Chile, Uruguai, México, Rússia, até a Índia – que têm sistemas educacionais muito melhores. E há outra série de países que, em situações de pobreza ainda maior do que a brasileira, conseguiram dar um salto em seu sistema educacional, que desenvolveu o país. A Coréia do Sul das décadas de 60 e 70 é o caso mais notório.

Há uma simples realidade: os professores não estão fazendo seu trabalho. E é verdade que têm uma série de carências, que muitos são mal pagos e trabalham em lugares péssimos. Mas aí é que o professor se torna mais indispensável, que seu esforço se torna mais necessário. Ao invés disso, a maioria dos professores, a se julgar pelo discurso oficial de seus sindicatos e dos e-mails que recebo, usam essa conjuntura adversa para justificar seu insucesso e desculpar seu fracasso. Que muitas vezes, como em toda profissão, é resultado de circunstâncias pessoais: preguiça, absenteísmo, falta de empenho e energia.

O sinal mais gritante desse desleixo de grande parte dos professores são as correspondências que recebo. Quase todas têm erros grosseiros de português e tecem considerações ilógicas. Alguns vocábulos usados nas últimas semanas: “milhonários”, “a pouco”, “jovens alardeados por traumas familiares” etc. A maioria é absolutamente refratária a dados e perguntam se eu dou ou já dei aula em alguma sala de aula fétida com 40 alunos (a resposta é “não”), como se a experiência pessoal deles invalidasse a realidade do sistema educacional do país.

Certa vez ouvi de um economista com longa experiência em países em desenvolvimento que o sintoma mais claro de um país que se desenvolve, comparado com aqueles que patinam no atraso, é que os vencedores sempre estão interessados no que estão fazendo de errado e onde podem melhorar. Os atrasados culpam terceiros: os EUA, o FMI, a OMC, o capitalismo, seus colonizadores etc. Me parece que com os professores é igual. Os professores de sucesso vêem as dificuldades à sua volta como mola propulsora de um esforço redobrado e como motivação para uma gana maior ainda. Os outros se vêem como vítimas. Assim, lavam as mãos, persistem em sua mediocridade e culpam a tudo e todos pelo insucesso de seus alunos. Viram seus algozes.



Gustavo Ioschpe é mestre em desenvolvimento econômico com especialização em economia da educação

E-mail:



desembucha@uol.com.br


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