Violência velada

Face ao humor negativo, que resulta no assédio moral e na humilhação, a escola deve conscientizar seus alunos sobre os possíveis significados do riso

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Um garoto cola um papel nas costas de um daqueles colegas chatos de escola, que sai andando pelo pátio sob o riso disfarçado de todos. Todo mundo já se viu em situação semelhante. O que fazer? Rir desbragadamente, avisar, calar-se? Como se sente a vítima da brincadeira? O que você faria se estivesse no lugar dela? Esta situação cotidiana mostra o grande potencial de discussão sobre ética e moral a partir do tema do humor.


Questões como esta foram colocadas para alunos com idade entre 6 e 10 anos de uma escola de São Paulo pela aluna do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP) Júlia Cizik Franco, que desenvolve uma pesquisa de iniciação científica sobre o tema direito ao riso. Os resultados ainda estão em análise, mas Júlia ressalta o grande interesse demonstrado pelas crianças. “Entre as crianças de 8 e 10 anos, por exemplo, muitas responderam com propriedade, além até do que perguntamos, pois é um tema com o qual já se defrontaram”, conta Júlia.


É fácil extrapolar o tema. O assédio moral está na moda, apavorando educadores de escolas públicas e privadas, e tem a ver diretamente com o direito ao riso. De maneira igual, o trote enquadra-se na mesma lógica deturpada do que seja bom humor. Muitas das brincadeiras que envolvem a violência moral e o trote amparam-se na ideia de que todos riem, e isso legitimaria o riso, não só entre os praticantes, mas entre os adultos que deveriam se posicionar sobre o que está feito, como professores e diretores. “Calma lá”, alertaYves de La Taille, pesquisador da área da moralidade. “As vítimas dessas brincadeiras riem de vergonha pela situação humilhante e não por compartilhar do que lhes está sendo imposto”, argumenta.


Um estudo apresentado recentemente por sua orientanda, Carla Baldini Marcelino de Melo, mostra que no trote o riso amarelo do humilhado oferece todas as desculpas necessárias para quem humilha. Ela entrevistou veteranos de vários cursos da USP que recorrem ao trote para investigar os critérios que estão por trás do riso de zombaria. Na visão dos seus entrevistados, é o calouro que decide se o trote o humilha ou não. Se ele rir, não tem problema. “O veterano claramente se exime”, diz Carla de Melo.


Civilizar o riso
O estudo sobre o trote feito por Júlia pode ser estabelecido em outros contextos. “Também no assédio moral o riso de zombaria pode estar muito presente, e o indivíduo que sofre é culpabilizado”, explica. Este é um caso típico em que o riso é um argumento antes de tudo sobre a inferioridade do outro, que não eleva quem humilha, mas rebaixa sempre mais o humilhado.


A violência moral sistemática surge muitas vezes oculta pelo silêncio, num quadro de personagens do qual constam o humilhador, o humilhado, mas também os que são cúmplices por medo ou conivência. O riso envergonhado e cabisbaixo da vítima, de qualquer idade, aqui também funciona como maquiagem da violência. Para Yves de La Taille, o trabalho mais amplo sobre o humor na escola poderia levantar essas questões, até como forma de conscientizar os alunos sobre o que está por trás de uma boa risada. Às vezes, são a vergonha e a dor, e não o prazer. “É preciso civilizar o riso”, diz Yves.


Para a psicóloga Denise Ramos, formas de violência como o bullying não têm nada a ver com o bom humor. “O bom humor é relativo a si mesmo, e não aos outros, por isso ter bom humor e fazer piada são coisas bem diferentes”, conclui. Segundo explica, humor vem do latim humore, com sentido de algo que flui internamente, relativo a impulsos e reações. Se acrescentarmos antes a palavra “senso”, temos a habilidade de apreciar ou compreender um fato. “Assim, a consciência tem de estar presente; sem consciência, não há senso de humor”, explica.


Na visão de Denise, o riso não deve humilhar, mas sim curar humilhações, vaidades feridas, ressentimentos e raivas. “O senso de humor funciona como um espelho dando a importância real de nossos feitos grandiosos ou vergonhosos. Estudos sobre humor têm observado que as piadas mais engraçadas são aquelas em que o público se identifica com o personagem, isto é, piadas sobre nós mesmos”, explica. Do mesmo modo, diz, o bom humor, quando compartilhado, tem uma dimensão social. “Ele nos livra do medo do ataque e aumenta a tolerância com os diferentes conflitos. Criamos novas soluções, modificamos o ambiente e influenciamos mais gente”, conclui.


Resolução de conflitos
Com tantos atributos formativos, o humor raramente é visto pela escola como um caminho para a resolução de conflitos. As estratégias nesse sentido passam por diálogo, responsabilização e mediação – e nada impede que isso seja feito também com uma disposição bem-humorada, claro, nos momentos adequados. “O humor sozinho não resolve tudo como um milagre. Há hora em que as coisas precisam ser conversadas seriamente”, observa a diretora Roberta Mardegam, do Cermac.


Há iniciativas que trazem o tema do humor como elemento central da reflexão, como a que vem sendo proposta pelo advogado Marcelo Pinto, fundador do Instituto do Riso, em São Paulo. Pinto inaugurou em São Paulo, anos atrás, o primeiro Clube da Gargalhada – iniciativa que nasceu na Índia, por iniciativa de um médico, e já existe, segundo ele, em 60 países. Mais conhecido como Dr. Risadinha, ele criou um programa denominado InseRir nas Escolas, com o objetivo de conscientizar os educadores e alunos sobre a importância do riso. Entre as estratégias, está a proposição da risada sem motivo, como um exercício antes das atividades didáticas – a exemplo da ginástica laboral existente nos ambientes corporativos.


Segundo Pinto, as crianças a partir dos 10 anos desenvolvem mais preconceitos em relação ao riso e ao trabalho proposto. Por isso, ele atua principalmente em escolas do primeiro ciclo do ensino fundamental. “Meu objetivo é conscientizar as crianças de que o bom humor é importante e deve ser cultivado, ao longo da vida”, diz. Atuando gratuitamente em escolas públicas e de forma remunerada na rede privada, o advogado conta que algumas vezes encontra desconfiança entre os professores, mas vem conseguindo defender sua causa, inclusive mostrando como o riso pode ser um antídoto para a violência moral. “Ensinamos às crianças que bom é rir com os outros, e não dos outros”, diz.


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