Violência de quem contra quem?

O despreparo e a incompetência dos professores deixam marcas profundas e duradouras: a ignorância do aluno e sua evasão

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Cada vez mais tenho ouvido e lido reclamações de professores e diretores das escolas brasileiras a respeito do problema da violência na sala de aula. Histórias macabras de alunos ameaçando professores, xingando-os, causando depressão e neurose nos mestres que, assim, ficariam impossibilitados de exercer seu ofício. Por um terrível desvio da minha personalidade, cada vez que vejo um consenso se formando sobre um assunto que soa um pouco exótico, fico em dúvida e começo a buscar evidências para tentar pensar sozinho.

Quando perguntados, no Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (Saeb), os professores revelaram que 13% já haviam visto, em toda a sua carreira, alunos sob efeito de drogas ilícitas. Só 4% disse já ter visto alunos com armas brancas e 3% com armas de fogo. A mesma pesquisa revela que só 5,4% dos professores já foi ameaçado por um aluno e apenas 0,7% dos professores já foi efetivamente agredido por um aluno. Isso em toda a sua carreira. Se imaginarmos que a média de permanência na carreira é de 10 anos, significa que a cada ano 0,54% dos professores são ameaçados e 0,07% dos professores são agredidos.

É condenável? Evidente! É permissível? Óbvio que não. Tem-se que lutar contra? Claro. Mas é a epidemia que sugerem professores, seus sindicatos e alguns jornalistas afoitos em vender matérias de impacto? Não, longe disso. Mais de 95% dos professores jamais foi ameaçado, mais de 96% jamais viu qualquer tipo de arma em sua sala e 87% jamais viu um aluno sob o efeito de drogas.

No geral, a sala de aula permanece um lugar seguro para professores – segundo suas próprias declarações no questionário do Saeb. A escola pode estar em uma zona violenta, é verdade, mas essa violência parece ficar do lado de fora da aula. Usá-la como razão para o insucesso do ensino, portanto, não cola.

Pesquisando sobre a violência nas escolas, me chamou atenção um outro tipo de violência, esse sim nunca noticiado nem mensurado, que é a violência de professores contra seus alunos. Livro de Maria Helena Patto relata casos em que professores amarravam, com cordas, os alunos a seus assentos. Mais comum que a violência física é o abuso verbal. Pesquisa qualitativa da Unesco sobre violência ouviu alunos cujos professores os apelidavam depreciativamente, chamando-os de “safado” e “bunda-mole”. Perguntados sobre o que os alunos não gostam em suas escolas, 25% disseram “das aulas” e 24% “da maioria dos professores”.

Confesso que a violência que mais me preocupa nas salas de aula do Brasil é o despreparo e a incompetência dos professores. Essa deixa marcas profundas e duradouras, que são a ignorância do aluno e sua evasão. Suspeito que derivam dela a maioria da indisciplina de alunos contra professores (por estarem de saco cheio de sermões inúteis) e de professores contra alunos. O professor transfere ao aluno, via agressividade, a frustração com a própria incapacidade.

Lembro que nos meus dias de estudante a mesma turma era em alguns horários compenetrada e silenciosa, e em outros uma algazarra sem fim. Os mesmos alunos, no mesmo espaço. Só havia um denominador comum: a bagunça nunca acontecia nas aulas dos professores bons.

 




Gustavo Ioschpe é mestre em desenvolvimento econômico com especialização em economia da educação

E-mail:



desembucha@uol.com.br



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