Vinicius, Jorge e Rubem

A educação poética nos salva da banalização, da insensibilidade e do tédio

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Em 2013, comemoramos o centenário do poeta Vinicius de Moraes. É bom não esquecermos nossos poe­tas. São eles que nos salvam da banalização, da insensibilidade e do tédio. A educação poética nos faz perceber o que passa e o que não passa. Num poema dedicado a Baudelaire, Vinicius conversava com o poeta francês:


Como passou depressa o tempo
Como mudou a poesia
Como teu rosto não mudou!


Esses versos nos servem também para pensar em Vinicius. O poetinha do Rio de Janeiro que passou a vida escrevivendo, com sentimento, com paixão. Para o poeta, viver é estar em constante busca do absoluto sem negar a imanência, e, socialmente falando, é cultivar a revolta e a resistência. O poeta não se rende aos donos da vida, aos poderosos. O único patrão do poeta é a própria vida. E a vida é incompreensível sem o poder do amor.
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O tempo passou, a poesia mudou, mas Vinicius permanece entre nós. Casou-se nove vezes, como se esta constante e errante busca representasse a busca eterna das nove musas. Vinicius namorava o teatro, o cinema, a arquitetura, a dança. Seu décimo e definitivo casamento foi com a música, que lhe rendeu o sucesso popular em parcerias inesquecíveis com Tom Jobim, Toquinho, João Gilberto e Chico Buarque.


Outro poeta
Grandes poetas lembram grandes poetas. Em 2013 alguns se lembraram dos 120 anos de nascimento e os 60 anos de morte de Jorge de Lima, como neste programa da TV Brasil – http://www.tvbrasil.ebc.com.br/delapraca/episodio/jorge-de-lima. Amante das artes e da religiosidade, Jorge cultivou sonetos (como Vinicius), e antecipando o mesmo espírito do “branco mais negro do Brasil” que Vinicius foi, escreveu poemas negros, ao cantar o Pai João e a negra Fulô, além de produzir uma biografia em versos de Castro Alves, o poeta dos escravos.


Somos escravos do sem-sentido se não houver leitura frequente de poesia. Para nos libertarmos dessa escravidão, temos de revisitar a poesia, recriá-la, desbanalizando nosso comportamento, escapando dos estereótipos verbais que bloqueiam a compreensão do incompreensível. Precisamos lembrar nossos poetas, esses aprendizes da palavra que nos ensinam a unir os contrários em novas visões e novos sentidos. Jorge de Lima falava do “ódio amoroso”, da “angústia mansa” e da “luz das sombras evidentes”.


É essa vidência dos contrastes que nos falta muitas vezes na vida escolar. Aquela abertura para a metáfora, para a rima, para a imagem surreal, para o cântico, para a reinvenção das formas. Aquela capacidade de aceitar o mistério como inspiração para a ciência, e o verso como caminho para a praticidade.


Escreveu Jorge de Lima, em seu grande empreendimento poético, a Invenção de Orfeu:


Minha voz alta sempre em lábios mudos
ruminando os rochedos, e escutando
o que é consciência, lógica ou absurdo,
e captando em vigílias persuasivas
um refrão de convites e renúncias,
interminável estribilho surdo.


Outro centenário
Há cem anos, em 1913, nasceu Rubem Braga, o cronista por excelência, mas cujos textos estavam repletos de lirismo, de poesia, de singeleza e singularidade, de dor e de tristeza. Não se faz um samba com beleza sem um bocado de tristeza, já explicara Vinicius no Samba da bênção, e é igualmente o caso de uma boa crônica. A crônica brota de uma tristeza crônica. Rubem tinha essa tristeza de fundo, renitente, que o levava a dizer que não queria ser um passarinho: “Não, um passarinho, não. Uma ave maior, mais triste. Eu quisera ser um urubu”.


Como passarinho ou urubu, o poeta sabe voar. Voar e ver de longe para entender melhor o que se passa diante dos nossos olhos. Num de seus textos, Rubem conta que certa vez conversava com um amigo. A noite estava fria. Chovia. As nuvens cobriam a cidade do Rio. E o cronista contou ao amigo que lá em cima…


[…] além das nuvens, estava um luar lindo, de lua cheia; e que as nuvens feias que cobriam a cidade eram, vistas de cima, enluaradas, colchões de sonho, alvas, uma
paisagem irreal.


Trata-se de uma humilde verdade. E é nessa humildade que reside sua veemência. A paisagem irreal é mais real do que a nebulosidade. Rubem Braga era poeta porque fazia do prosaico uma percepção poética. O ponto de vista muda para ver outros pontos da realidade. O cronista vê através do embaçado.


Numa entrevista, Vinicius disse: “Eu sou um labirinto em busca de uma porta de saída”, fazendo com essa imagem o que todo poeta faz – revela algo de si para revelar os outros. Todos nós somos labirínticos. Esta é a condição humana. Esta foi a condição de Vinicius, Jorge, Rubem, de cada um de nós, de cada professor e de cada aluno. A sala de aula é um encontro de labirintos que buscam saídas.


A saída é encontrar-se com o outro: sair de nós mesmos. Foi o que o próprio Vinicius ensinava. Temos de praticar a arte do encontro, apesar de tantos desencontros.


*Gabriel Perissé é doutor em Filosofia da Educação (USP) e pesquisador do Núcleo Pensamento e Criatividade (NPC) – www.perisse.com.br

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