Vilã ou aliada?

Internet transforma a relação entre alunos e professores e estabelece novos paradigmas para o ensino e a aprendizagem

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Betina von Staa: os jovens não têm medo da tecnologia, mas nem todos buscam o conhecimento espontaneamente

O advento de uma rede que interliga computadores e usuários no mundo todo é um dos maiores avanços da história no que diz respeito à comunicação. E também um dos mais rápidos: em pouco mais de duas décadas, o sistema tornou-se o principal veículo para a interação entre pessoas, empresas e instituições. De tal forma que, hoje, quem não está inserido nesse contexto é considerado um excluído digital.

Diante disso, pode-se imaginar o tamanho do impacto que a internet representou econômica, política e socialmente para a humanidade. O dinamismo que ela imprime às relações corporativas e pessoais exige que estejamos aptos a "domar essa fera" para exercer as mais variadas atividades interativas, desde um simples passatempo até um curso completo de graduação ou pós-graduação, tudo via web.

Na formação de crianças, jovens e adultos, a internet representa uma ruptura no modelo pedagógico tradicional e exige de professores, alunos, pais e instituições uma mudança de comportamento na relação entre ensino e aprendizagem. O principal fator de tal rompimento se deve ao acesso quase irrestrito às informações que a internet proporciona.
"A internet é um dos centros do que chamo de revolução colaborativa. Trata-se de uma tecnologia da inteligência coletiva por meio da qual sujeitos espalhados em todos os lugares conseguem colaborar na aprendizagem comum", reflete Alfredo Matta, doutor em Educação pela Universidade Federal da Bahia e especialista no tema.

Diante de tamanho potencial, alunos e educadores vão se adaptando aos poucos às novas ferramentas de ensino. "Os jovens não têm medo da tecnologia, mas nem todos buscam o conhecimento espontaneamente", considera Betina von Staa, coordenadora pedagógica da divisão de portais educacionais da Positivo Informática. Nesse contexto entra o professor, cuja principal missão muda substancialmente a partir do acesso dos alunos ao universo de dados que a internet proporciona. O conhecimento que antes ficava restrito aos livros e ao educador está disponível a todos que tenham acesso à rede e o mínimo de habilidade de manejá-la.

"O papel da escola deixa de ser apenas o de provedora de conhecimento. O próprio aluno traz informações para dentro da sala de aula. O educador deve incentivar o estudante a buscar informação, mas deve ser acima de tudo um orientador do conteúdo e das fontes de referência", avalia José Demísio, coordenador de graduação da Faculdade IBTA.
Ele conta que sentiu, a partir do advento da internet e da interação de seus alunos com ela, a necessidade de se inserir nesse mundo para conseguir atender à demanda em sala de aula.


Ricardo Kobashi: contribuição para o desenvolvimento social, cultural, intelectual e econômico dos cidadãos paulistas

O diretor do Centro de Pesquisa e Tecnologia da Universidade Paulista e do Colégio Objetivo, Almir Brandão, acredita que a internet muda completamente a perspectiva do aluno no processo de aprendizado. "O estudo de geografia, por exemplo, nos livros didáticos. A visão que o aluno tem do mapa, chapado no papel, é a mesma que teria um marciano, vendo a imagem lá do alto. Com programas da internet que fornecem imagens de satélite, o estudante pode fazer o percurso todo da sua casa até a escola e, de lá, viajar para outros países, conhecer o relevo e a vegetação de outras localidades", argumenta.


Presencial ou a distância?


Ao mesmo tempo em que o aluno pode fazer essa "viagem ao conhecimento", o inverso é também possível. A educação a distância (EAD) – que recebeu incentivo no Brasil a partir da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, no final da década de 90 – cresce a cada ano e passa a ser uma opção viável de formação em situações em que haja algum tipo de limitação, física, geográfica ou mesmo econômica. "No Brasil, mais de 1,2 milhão de pessoas freqüentam cursos de educação a distância", afirma o diretor científico da Associação Brasileira de Educação a Distância, Waldomiro Loyolla.
De acordo com o diretor, existe um enorme contingente de pessoas no país cuja presença regular em um curso fica comprometida, seja pela característica de sua atividade profissional, seja pela dificuldade de se locomover nos grandes centros nos horários de maior trânsito.

Na opinião de Alfredo Matta, não existe limite para o estudo em meio digital. "A medicina, por exemplo, que tantos pensavam fosse um dos limites da EAD via web, é hoje um dos maiores centros de atividade dessa modalidade, como a Faculdade de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) pode bem atestar", lembra.
O modelo ideal, entretanto, na visão do especialista, são os cursos híbridos. "Eu não acho que devamos comparar a EAD com a presencial no sentido de tentar provar qual é a melhor. As duas maneiras tem de fato vantagens e desvantagens", pondera Matta.

Para outro especialista, Wilmar Cidral, gestor do Instituto Nacional de Pós-Graduação de Joinville, Santa Catarina, a EAD é um caminho sem volta e o cenário atual é apenas a ponta do iceberg . "As instituições de ensino que conseguirem aliar essa tecnologia à criatividade certamente terão êxito no envolvimento de seus alunos". Contudo, Cidral acredita que o ensino a distância não é para todos. "Alguns conteúdos podem ser prejudicados se o estudante não tiver disciplina. Por essa razão, pode ser realizado um monitoramento da performance e da aplicação do aluno diante do computador."


Desempenho escolar


Betina von Staa avalia que a utilização da rede transformou a educação. Segundo ela, as escolas que incorporam a internet no seu dia-a-dia ajudam e melhoram o desempenho de seus alunos. Tal afirmação encontra respaldo em uma pesquisa realizada pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), levantamento que faz parte do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa). Trata-se de um exame internacional – realizado em 2003 com base no Censo Escolar e que engloba alunos de escolas particulares e públicas de todo o Brasil – que avalia e compara o desempenho de jovens de 15 anos nos 31 países-membros da organização e seus 11 parceiros.


Waldomiro Loyolla: mais de 1,2 milhão de pessoas estão freqüentando cursos de educação a distância

Os cientistas demonstraram que os computadores e a internet estão associados a um melhor desempenho dos alunos nas habilidades escolares, a exemplo da matemática e da leitura. O aluno que não tem acesso a esses recursos está em desvantagem em relação aos colegas, tanto no que diz respeito ao conhecimento de tecnologia quanto no seu desempenho em matemática.

"Infelizmente ainda estamos longe do ideal, já que o Brasil está em uma das últimas colocações na avaliação do Pisa e isso se deve em boa parte aos baixos níveis de informatização das escolas", lamenta a coordenadora.

Contudo, é preciso uma certa dose de cautela na implantação desses sistemas nas instituições de ensino, pois a internet não é a salvação da lavoura da educação brasileira. Matta acredita que essa visão, além de equivocada, é também perigosa, pois impede que o professor e o aluno de carne e osso vejam os computadores e a educação a distância como apenas mais uma opção para suas práticas sociais, como de fato são, e passem a depender de projetos miraculosos e caros de terceirização e consultoria para que estas tecnologias sejam finalmente praticadas.

Desta forma, complementa o especialista, gastam-se fortunas na compra de computadores e a quase imposição dos usos "corretos" dominados pelos "iniciados" acaba por distanciar-se da prática concreta daqueles que vão utilizar a solução, fazendo fracassar em grande parte esses esforços. "O mais aconselhável é introduzir mais lentamente, porém seguramente, as tecnologias nas escolas."

A escola, nesse contexto, tem em seu escopo também essa responsabilidade, já que a mudança de perfil do professor não ocorre com tanta desenvoltura quanto nos jovens, que praticamente nasceram "plugados" na rede. O que exige que os gestores da educação invistam em capacitação e treinamento do corpo docente para que o educador possa tirar proveito das ferramentas que a internet proporciona de maneira eficiente e produtiva.


Análise de conteúdo


Para aqueles que têm acesso e familiaridade com a web, a realidade é bastante diferente. Se, por um lado, o aluno tem a facilidade de acesso a um mundo de informações ao alcance do mouse, por outro, essa possibilidade infinita de recursos pode ser um problema se a ferramenta não for bem administrada. Isso se dá pelo fato de que, ao mesmo tempo em que a rede está repleta de conteúdos didáticos, científicos e técnicos corretos e atualizados, também há muitos equívocos, muita informação distorcida que pode induzir ao erro, além, obviamente, de conteúdo impróprio.

"O estudante que navega pela internet precisa desenvolver autonomia perante o conhecimento. Para tanto, o professor deve orientar a pesquisa a bons sites, boas referências e conteúdos para que o próprio aluno tenha condição de selecionar o que estudar", acredita Betina. Assim, aos poucos, ele próprio vai desenvolvendo senso crítico em relação ao que lê e passa a escolher mais criteriosamente o que pode ser aproveitado.

Nesse sentido, um dos caminhos que facilitam a missão do professor e das escolas é contar com portais de conteúdo educativo, a exemplo do Portal Educacional, um dos quatro do gênero mantidos pelo Grupo Positivo, do qual Betina é coordenadora. O endereço, criado em 2000, tem conteúdo abrangente, dirigido à educação infantil, ao ensino fundamental e ao ensino médio, dependendo da necessidade da instituição.

Além de recursos de administração escolar, o portal oferece ferramentas de comunicação entre os usuários, entre outros instrumentos. As escolas parceiras do projeto passam a ter sua própria homepage, na qual tornam disponíveis aos alunos e docentes conteúdos e serviços próprios, assim como todo o material do Portal Educacional.


Responsabilidade 


Sempre houve alunos mais, digamos, espertinhos que se apropriam de trechos de textos alheios e às vezes até conteúdos na íntegra. Isto não é novidade e os professores há muito lidam com o problema. Ocorre que, com a internet, a infinidade de fontes dificulta muito uma apuração mais rigorosa por parte do mestre, que, evidentemente, não consegue identificar em muitas oportunidades a origem da transcrição.

Para tentar driblar esses artifícios, o professor da era da internet precisa elaborar práticas pedagógicas que estimulem o aluno a criar, a desenvolver conhecimento com base nas informações disponíveis. "A cópia pura e simples não leva a uma transformação", avalia José Demísio, da IBTA. Segundo ele, o mecanismo da cópia, se não pode ser evitado, pode ser aproveitado de forma inteligente como uma ferramenta. "Não há como trabalhar com essa realidade sem falar mais de ética, em todos os níveis, e disseminar esse conceito entre os alunos", reforça.

Esse é um conceito que também permeia o universo da Faculdade São Judas Tadeu, no Rio de Janeiro. Para Marcos Santana, diretor da instituição, a internet expõe, a todo o momento, o seu usuário a conteúdos inadequados e muitas vezes com erros de informação e interpretação. "Discutindo valores como a ética e a responsabilidade, aumenta-se a conscientização do aluno em relação à questão de direitos autorais e proporciona-se o desenvolvimento do senso crítico para saber escolher e trabalhar melhor com os conteúdos",  acredita Santana.


Cidadania


Se assim, indiretamente, a internet motiva os pais e educadores a investir na estruturação da educação informal dos jovens, para muita gente a contribuição é bem mais objetiva. O acesso ao mundo virtual, que ainda exclui muitos no Brasil, é propiciado por iniciativas importantes, como o projeto Acessa São Paulo. Em mais de seis anos de existência, o programa de inclusão digital do Governo do Estado de São Paulo já realizou mais de 18 milhões de atendimentos e contabiliza acima de 850 mil cadastrados.

"O projeto oferece para a população do Estado o acesso às novas tecnologias da informação e comunicação, em especial à internet, contribuindo para o desenvolvimento social, cultural, intelectual e econômico dos cidadãos paulistas", define o coordenador técnico do Acessa São Paulo, Ricardo Kobashi. Ao todo, são 381 postos de atendimento que funcionam no Estado, em 300 municípios.

A estrutura consiste de espaços públicos com computadores para acesso gratuito e livre à internet, divididos em três categorias distintas: comunitários, implantados em parceria com entidades comunitárias; municipais, implantados em parceria com prefeituras (geralmente localizados nas bibliotecas municipais); e os Postos Públicos de Acesso à internet, conhecidos como Popais. "Esses centros são implantados em parceria com secretarias e outros órgãos do governo do Estado, como os postos do Poupatempo, os restaurantes Bom Prato, terminais de ônibus, estações de trens e do metrô", explica. Kobashi ressalta que o conceito para os Popais é diferente, uma vez que o espaço está disponível justamente onde existe ampla circulação de pessoas. "O perfil do usuário é diferente, e vai desde o estudante que não possui internet em casa, passando pelo trabalhador a caminho de sua ocupação até o desempregado que está a procura de uma colocação no mercado."

Como nem todo mundo tem familiaridade com a internet, o serviço mantém monitores que auxiliam os usuários na utilização da ferramenta. Mas tem gente que vai além. O programa fomenta o desenvolvimento de projetos comunitários que utilizem a tecnologia da informação para criar sites, blogs e outros recursos que atendam, de alguma maneira, ao interesse da comunidade.

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