Viés de alta

Sisu aponta aumento da concorrência para cursos de pedagogia e licenciaturas em todo o país, superando interesse por cursos tradicionais em algumas instituições

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Ainda é cedo para estabelecer uma tendência, mas a julgar pelos números do Sistema de Seleção Unificada (Sisu) deste ano, há uma luz no fim do túnel em relação à crônica falta de professores na Educação Básica brasileira. Nas dezenas de instituições de ensino superior federais que oferecem vagas pelo sistema, que leva em conta a nota obtida no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), os números revelam alta procura por cursos como pedagogia ou licenciatura em letras. Para se ter uma ideia dessa demanda, o curso de pedagogia na Universidade Federal Rural de Pernambuco registrou 4.650 interessados disputando 40 vagas: uma relação de 116,25 candidatos por vaga, praticamente o dobro do índice de um curso “da moda” na mesma instituição, como ciências da computação, que teve 58,6 candidatos para cada uma das também 40 vagas.

Números do tipo se repetem em outras instituições, como no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Pará (IFPA), onde o curso de pedagogia teve 110,2 candidatos por vaga, ou na Universidade Federal do Maranhão, campus Imperatriz, que registrou índice de 90,85 candidatos por vaga para o mesmo curso, além de serem uma constante em estados como Piauí, Tocantins e Mato Grosso, entre outros. Na região Sudeste, a maior procura para o curso de pedagogia ocorreu na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), campus de Guarulhos, com 30,91 candidatos por vaga.

Em termos nacionais, os 60 cursos de pedagogia oferecidos pelo Sisu no primeiro semestre de 2011 somaram 2.475 vagas, disputadas por 80.446 alunos, um índice de 32,5 candidatos por vaga. Em 2010, no mesmo semestre, foram 27.436 candidatos em busca de 773 vagas – uma relação de 35,49. De um ano para outro, a relação candidato/vaga teve uma pequena queda, mas o número absoluto de interessados quase triplicou e o de vagas foi multiplicado por 3,2. Guardadas as proporções, mais de 30 concorrentes é o que um vestibulando precisa encarar para ser aprovado em cursos da Universidade de São Paulo (USP) como jornalismo ou relações internacionais. Na USP, a concorrência para o curso de pedagogia em 2011 foi de 5,53 candidatos para cada uma das 180 vagas.

Muitos fatores contribuem para esse aumento na procura, principalmente se for levado em conta que o Ministério da Educação já vem direcionando incentivos para as licenciaturas em áreas críticas nas salas de aula, como química, física e matemática, que também registraram grande demanda no Sisu. “Os cursos de licenciatura, em especial de pedagogia, hoje estão sendo vistos de uma forma diferente pela sociedade”, afirma Sônia Rodrigues Santos, pró-reitora de ensino do IFPA. “Por muitos anos a docência foi vista como um ‘quebra-galho’, mas hoje, com toda a política de capacitação e formação de professores que o governo federal e as esferas estaduais e municipais estão adotando, o cenário muda, e podemos observar essa mudança principalmente na procura pelos cursos de formação de professores”, observa.


Surpresa
Carreiras específicas voltadas para a docência, como letras ou matemática, também foram alvo de alta procura nas instituições federais. Em alguns casos, o crescente interesse causa surpresa até mesmo em quem está ligado diretamente ao curso, como ocorreu na Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). O curso de letras/espanhol na instituição teve 90,45 candidatos por vaga em 2011, contra 36 na edição de 2010. Para a professora Vicentina Ramires, vice-coordenadora do curso, essa demanda se deve a uma combinação de fatores que ajudam a explicar não só o sucesso dessa carreira, mas também dão pistas do comportamento do candidato ao escolher o curso que pretende disputar. Ela aponta quatro motivos principais para essa procura: na região há apenas dois cursos de letras oferecidos pelas federais, sendo que o da Rural, cuja sede fica na capital Recife, é no período noturno; o corpo docente tem 95% de doutores, e, segundo relatos colhidos pela professora, os alunos levam em conta essa questão; o curso é divulgado em feiras de profissões e entre o público do ensino médio; e, com a obrigatoriedade da oferta de classes de língua espanhola para a Educação Básica, o curso sai na frente por ser o único na região. Além disso, conta Vicentina, a primeira turma de mestrado em língua espanhola já está sendo formada. “A tendência de alta procura vem se mantendo. Até mesmo nossa nota de corte é maior do que em alguns cursos mais tradicionais, como direito e engenharia”, orgulha-se.

De modo geral, os cursos de licenciatura de UFRPE tiveram alta procura em 2011: matemática, por exemplo, teve 44,89 candidatos para cada uma das 70 vagas; ciências biológicas registrou índice de 65,53 e a licenciatura em história alcançou relação de 103,53 candidatos por vaga. “Na mesma medida em que o governo incentiva a procura por licenciaturas, tem promovido mais condições. A universidade cresceu até fisicamente”, aponta Vicentina. Segundo ela, está havendo incentivo em pesquisa e as secretarias de Educação têm promovido convênios para trabalhar com esses professores na rede pública de ensino, inclusive em nível de pós-graduação. “Hoje quem vai para o curso de letras ou de pedagogia é porque realmente quis essa opção, tem vontade de seguir a carreira de professor”, diz.

No IFPA, a procura aumentou de 2010 para 2011 em todas as licenciaturas oferecidas pelo Sisu. A relação candidato/vaga em química, por exemplo, triplicou e chegou a 36,45. Em matemática, passou de 13,33 em 2010 para 45,93 neste ano, e em geografia pulou de 19,33 para 63,88 candidatos disputando uma vaga. Para a pró-reitora de ensino, isso também é reflexo de uma percepção dos vestibulandos de que faltam professores para preencher vagas em carreiras específicas. “A demanda traduz o interesse na formação de professor. A divulgação da importância destes profissionais acaba influenciando na escolha dos jovens que estão saindo do ensino médio em busca de formação profissional”, afirma. Outra consequência direta dessa concorrência mais acirrada é o aumento no nível de formação básica do aluno que chega à universidade – valorizando não só a experiência em sala de aula mas também a qualidade do profissional formado. “A educação precisa, assim como as demais profissões, de bons profissionais. Quando vemos os melhores nas salas das licenciaturas conseguimos vislumbrar um novo olhar a respeito da profissão do professor”, afirma Sônia Rodrigues.


Contrapeso
Os números positivos apresentados pelo Sisu em relação à carreira docente são um contrapeso em relação ao desinteresse pela profissão de professor evidenciada por especialistas e por diversos indicadores. O mais recente alarme dava conta de uma expressiva queda no número de concluintes dos cursos de pedagogia e normal superior, passando de 103.626 em 2005 para 52.482 em 2009, segundo o Censo do Ensino Superior do Ministério da Educação. O número, porém, não leva em conta os formados na modalidade a distância. Quando estes entram na conta, o total se mantém estável, passando de 115.202 formandos em 2005 para 118.376 em 2009. O número de matriculados, no entanto, aumentou: são 440.279 alunos de pedagogia e normal superior em 2005 contra 555.447 em 2009.

Na opinião da coordenadora técnica do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec), Maria Amabile Mansutti, ainda é cedo para tirar conclusões dos números do Sisu, embora eles apontem para um caminho natural da pedagogia como forma de acesso à universidade, principalmente para as classes menos privilegiadas. Apesar disso, ela acredita que a política do Ministério da Educação ainda não é suficiente para impulsionar a procura pela carreira docente, em especial as licenciaturas. “A crise da escola pública se arrasta há anos, esmigalhando a identidade do professor como profissional”, avalia. Procurada pela reportagem, a Assessoria de Comunicação do Ministério da Educação informou que não havia ninguém à disposição para falar sobre o tema.








Evasão preocupa

Embora seja uma das instituições com os maiores índices de candidatos por vaga no Sisu para as carreiras de licenciatura e pedagogia, a Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) ainda enfrenta outro obstáculo para fazer com que seus formados cheguem às salas de aula como professores: a alta taxa de evasão. De acordo com a professora Vicentina Ramires, no curso de letras/espanhol, um dos campeões de concorrência, a evasão chega a 15% nos anos finais. Atualmente, a UFRPE está conduzindo uma pesquisa sobre o tema, mas a maior parte de quem abandona tem mais de 25 anos. “Nosso curso é noturno, o aluno chega cansado, depois do trabalho e não consegue acompanhar”, lamenta. Uma das tentativas de combater a desistência é proporcionar condições para o futuro na profissão – como incentivo à pesquisa e à pós-graduação – e a possibilidade concreta de entrada num mercado de trabalho mais estável. “Embora a remuneração seja baixa, ser professor é uma profissão para a qual não falta emprego”, aponta Vicentina.

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