Viagem de poesia a Teerã

Baran conta história de amor em um canteiro de obras que mistura iranianos com refugiados afegãos

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Sérgio Rizzo






Uma das ambigüidades do processo de globalização é o de que, embora as distâncias físicas pareçam cada vez menores, graças sobretudo aos sistemas de comunicação em tempo real, continuamos a desconhecer como vivem nossos companheiros de Hemisfério Sul.

Não deveria ser assim, inclusive porque as condições materiais e os desafios para o desenvolvimento são muito semelhantes na América do Sul, na África ou na Ásia. O cinema, ainda bem, costuma funcionar como uma das raras pontes para nos aproximar desses povos e culturas.



A possibilidade de fazer uma longa viagem sem sair da poltrona é o que torna ainda mais atraente um filme como
Baran

. Entre outros méritos, ele tem a capacidade de nos revelar o cotidiano da classe trabalhadora em Teerã, a capital do Irã, usando como gancho uma história de amor entre adolescentes. No primeiro caso, uma situação local ganha aspecto universal; descobrimos que um canteiro de obras num país islâmico tem, guardadas as diferenças culturais, aspecto parecido aos de uma cidade como São Paulo ou Rio de Janeiro.

No segundo caso, uma situação universal é temperada por características locais; todos conhecemos o amor juvenil, mas ele é diferente quando envolve refugiados afegãos.


Poucos países do planeta sofreram um drama tão intenso, nas últimas décadas, quanto o do Afeganistão. De 1979 a 1989, o país viveu a batalha contra a invasão soviética.

Em seguida, a milícia Taliban conseguiu se impor sobre as demais e comandou um mergulho em direção ao obscurantismo. Só perdeu o poder no final de 2001, devido a mais uma invasão, pelas tropas americanas, em represália contra o abrigo dado pelo governo ao terrorista Osama bin Laden.

A persistência do quadro caótico levou centenas de milhares de habitantes a tentar a sorte nos países vizinhos. Mas, como imigrantes ilegais, muitos deles sobrevivem de maneira precária.





Em
Baran

, os refugiados convivem, em situação de inferioridade, com operários iranianos que trabalham na construção de um prédio. Os trabalhadores locais, por sua vez, se dividem em castas que se envolvem em rusgas diárias: há os azeris (que representam a maioria ali), os curdos e os lures.

Cada grupo fala uma língua, embora todos se expressem também em persa, o idioma oficial. Durante a primeira parte, o diretor e roteirista Majid Majidi (de
Os Filhos do Paraíso

) descreve a rotina no canteiro da perspectiva de um jovem azeri, Latif (Hossein Abedini). Ele é o responsável pela alimentação dos trabalhadores.




A situação muda quando um afegão acidentado envia, para substituí-lo no trabalho pesado, um de seus filhos, Rahmat (Zahra Bahrami), adolescente frágil que o mestre de obras resolve transferir para o lugar de Latif. Ofendido, Latif começa a se indispor com Rahmat, até descobrir algo que mexe profundamente com seus sentimentos. É o que o fará aproximar-se, no sentido que a globalização raramente permite, do drama afegão.






Baran





(idem)




Irã, 2002, 97 min.




Direção e roteiro: Majid Majidi





Com Hossein Abedini, Zahra Bahrami, Mohammad Amir Naji, Hossein Mahjoub, Abbas Rahimi, Gholam Ali Bakhshi





Distribuição: Imagem/Lk-Tel, tel. (11) 4133-3636



 



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