Vácuo inicial

Há um vazio enorme entre os conteúdos ensinados aos licenciados em pedagogia e outras áreas e o currículo da Educação Básica

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O Conselho Técnico Científico da Educação Básica, da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) concluiu, no dia 11 de dezembro, o documento final que institui a Política Nacional de Formação de Profissionais do Magistério para a Educação Básica. Até o fechamento desta edição, o decreto ainda não havia sido assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em linhas gerais, a política destaca o estímulo à valorização profissional, que a modalidade principal de ensino é presencial e a inclusão da escola como "espaço de formação inicial e continuada do professor". O último aspecto é um dos principais nós no que diz respeito ao currículo da Educação Básica: há pouca aproximação entre o que se aprende na universidade e o que se ensina em sala de aula.

Recentemente, a Fundação Carlos Chagas (FCC) realizou o estudo Formação de professores para o ensino fundamental: instituições formadoras e seus currículos. Foram avaliados os currículos e ementas curriculares de cursos de formação de professores do país (pedagogia, ciências biológicas, matemática e letras), bem como dados relativos a concursos públicos para docentes nas áreas. O primeiro número que chama atenção é o de disciplinas distribuídas pelos cursos de pedagogia no Brasil: são 3.513. O número assusta porque revela fragmentação e falta de consenso sobre o currículo da formação do professor – não há ênfase na formação integrada do docente. "A verdade é que nunca conseguimos integrar a formação do professor com uma preocupação com o profissional que tem realmente uma inserção social definida", aponta Bernadete Gatti, responsável pelo estudo. Para ela, a culpa é, até certo ponto, das grandes universidades federais e estaduais, que nunca se dedicaram a pensar criteriosamente a formação do professor. Assim, há casos de cursos de biologia que acontecem no Instituto de Biologia, onde não há o cuidado com a didática e o conteúdo específico para o aluno do segundo ciclo do ensino fundamental e do ensino médio. "Esse professor fica em várias canoas, com um pé na disciplina dele e um pé na educação. É um ser híbrido, mas desintegrado", coloca.

Nas licenciaturas específicas, o curso de matemática é o que tem melhor equilíbrio entre as disciplinas de conhecimentos da área e aqueles voltados à prática docente – isso quando o objeto de análise é o número de disciplinas. Quando o foco são as horas de aulas dedicadas às disciplinas, os conhecimentos específicos da área ganham. "O problema das licenciaturas é não ter o pensamento de que vão formar um professor que vai ensinar matemática", diz Bernadete. A professora diz que há uma carência da "faculdade de educação" como instituição que integre a formação do professor com o auxílio de especialistas das áreas em questão. O estudo aponta a formação de três tipos de professores de matemática: formados especificamente em matemática; formados com o currículo básico de matemática e com o currículo pedagógico, mas sem o currículo de educação matemática; e os formados em educação matemática. "A formação do professor de matemática não pode ser a formação do matemático. A vocação é outra", raciocina.

Dos 1.562 cursos de graduação presencial em pedagogia, 56% são oferecidos por instituições de educação superior privadas, 32% por instituições estaduais e 10% por instituições federais. Soma-se a esse quadro o fato de que a maioria dos cursos privados dura dois anos e meio, quando muito três, e que muitos são noturnos. "O pessoal da universidade olha para o próprio umbigo, porque a formação dos professores está sendo feita por instituições privadas, e não por eles", afirma Bernadete. O fenômeno da educação a distância é igualmente preocupante para a pesquisadora. "Com um sujeito que não sabe nem ler e escrever vai fazer um curso a distância que exige leitura e escrita pessoal?", coloca. Uma maneira de "selecionar" o professor que entra em sala de aula seria instituir um exame de ordem, como acontece com o Direito, mas não sem antes investir fortemente nos cursos de formação. "As áreas que podem colocar a população em perigo deveriam ter esse exame", sugere.


Educação infantil, a lacuna maior

Um dado que chama atenção no estudo é que a disciplina "educação infantil" é quase inexistente nos cursos de pedagogia. O aluno não estuda o tratamento das formas como deve lidar com as crianças pequenas e a maneira como deve iniciá-las em formas de pensamento. Como em educação infantil não há disciplinas concretas, também não há nada que prepare o aluno de pedagogia para atuar nessa etapa da educação. "O professor precisa ensinar a criar hábitos de concentração e de atenção, expandir a capacidade de raciocínio e de observação da criança. Mas não é orientado sobre o tipo de atividade que vai desenvolver", coloca Bernadete. Outra falha grosseira detectada pela pesquisadora é a ineficiência dos estágios, chamados de "ficção científica" por ela. "Não tem quem controle. Não sabemos como as horas dedicadas aos estágios são aproveitadas, porque não há um projeto", questiona. Nesse sentido, a iniciativa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) de oferecer bolsas de estudos a licenciandos em pedagogia e outras áreas para que eles atuem na escola é válida – o que não quer dizer que a situação dos estágios não deva ser resolvida.

Nos cursos de letras, que formam professores de língua portuguesa, outro dado preocupante: apenas 10,5% das disciplinas obrigatórias estudam os conhecimentos específicos para a docência. Mais: em apenas 17% dos cursos analisados há um foco bem delineado, que especifica o perfil do professor a formar e as opções curriculares, com coerência entre o projeto, a matriz curricular e os programas. Nos outros casos, diz o documento, o foco é impreciso ou contraditório, há problemas com nomes de disciplinas e suas ementas, e as disciplinas de metodologia e de prática docente tratam de generalidades. Tanta fragmentação gera um ciclo sem ponto de inflexão: com a falta de uma relação orgânica entre universidade e sala de aula, surge um professor mal formado, que forma alunos que reingressarão no curso de formação de professores, e assim por diante. Bernadete defende que a mudança aconteça de forma concomitante no ensino superior e nos sistemas de Educação Básica.

Também pesquisadora da FCC e professora da USP, Elba Barreto enxerga um movimento no ensino superior que precisa ser corrigido. Os cursos de pedagogia acabaram herdando a tradição de formação do antigo Curso Normal, que se preocupava menos com conteúdos sistemáticos das áreas específicas que devem ser trabalhadas, como matemática e língua portuguesa. Por outro lado, o segundo ciclo do ensino fundamental tende a ter professores mais conservadores no que diz respeito às práticas e às didáticas escolares, porque sempre tiveram como nível mínimo de escolarização o ensino superior. Eles foram formados em diversos conteúdos, mas desconhecem a dinâmica da escola e se apegam à própria experiência como alunos. "Devemos mexer no curso de formação de professores para buscar um equilíbrio entre essas duas tensões", pontua Elba. 

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