Usura e usufruto

Uma ameaça espreita os professores o tempo todo: a saga da experiência pregressa

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Há um conto extraordinário de Machado de Assis quase sempre esquecido pelas antologias: A segunda vida. Nele, é narrada a história de um sujeito que, depois de morrer, chega aos céus e descobre que, a cada milésima alma que lá aporta, é concedido o privilégio compulsório de cumprir uma nova existência. Era a sua vez. Egresso de uma velhice ruim e pouco mobilizado pela dádiva, o sujeito impõe, como condição única para seu retorno à Terra, que nascesse com a lembrança da experiência acumulada na vida anterior. Nesse momento, jamais imaginaria que algo terrível lhe estava reservado: a fatalidade da memória, que o condenava a uma prudência desmedida, resultando em apenas medo, desconfiança e desgosto de enfrentar os riscos da nova vida. Feito um grande pássaro, batendo as asas e amarrado pelos pés, havia se tornado um fugitivo da própria vida. Um fugitivo catatônico, acorrentado ao eterno retorno do nada.

A saga machadiana é elucidativa de uma ameaça que espreita os professores o tempo todo: a ditadura da experiência pregressa, reduzindo a vida profissional a um misto de recapitulação e artificialismo. Os dias como farsa, enfim. 

Aqui, à moda da velha angústia de Fernando Pessoa, viver equivale a se lamentar por ter dito sim em vez de não, por não ter virado para o lado irreparavelmente perdido, e nem sequer ter pensado em virar. Uma segunda vida para quê, então? Aquela de que já dispomos nos basta, desde que lastreada pela obstinação e pelo destemor de ser impermanente, a qualquer custo.

Habitar a indeterminação em vez de assistir à atrofia da vontade de mudar. Inventar estilos em vez de restituir modos idos de existir. Aventurar-se em vez de se enraizar. Abrir-se à incessante novidade do mundo. Desencarcerar-se de si mesmo. Decompor-se na multiplicação. 

Se assim for ajuizado o viver, três conseqüências ser-lhe-ão decorrentes.  

A primeira: se atados ao aqui-agora das circunstâncias e à astúcia que elas demandam, nenhum ressentimento nos assombrará. Viver acompanhado de um certo contentamento, sem a salvação do amanhã, nem o desperdício do ontem, significa habitar espaços estreitíssimos, mas infinitamente grávidos de mais-vida.

A segunda: no fluxo contínuo dos acontecimentos, nenhuma sobredeterminação nos assolará, além daquelas advindas das próprias pautas do agir. Daí a questão-chave: De que modo determinado ato meu repercutiu no mundo ao redor?  Dilatou-o? Contraiu-o? Ou foi-lhe indiferente? 

A terceira: se orientada em direção à mais-vida, a existência será atravessada por nenhuma tragicidade, além daquela da sua própria finitude. Pelo fato mesmo de ser inapelavelmente breve, exige parcimônia, algum desapego e nenhum inflacionamento inútil, desde que se possa aferrar-se, no meio da tralha desimportante do dia-a-dia, àquilo a que se veio. E nada mais.

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