Unidas pela inovação

Universidades europeias se juntam para disseminar métodos inovadores de ensino e criar políticas públicas mais fortes no continente

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Fachada da Hamburg University of Technology: criação de um departamento específico para reinventar o modelo das aulas

Para implantar e disseminar estratégias inovadoras de ensino, as universidades europeias se valem de um antigo clichê que ainda mostra ter força de validade: a união faz a força. Se no continente a tradição é um forte elemento de identidade cultural, as instituições de ensino superior criam vínculos para se manter na dianteira educacional e influenciar mudanças em toda a União Europeia.

Um desses vínculos é o Consórcio Europeu de Universidades Inovadoras (ECIU, em inglês), composto por 11 instituições membros da Europa, além de uma mexicana, o Instituto Tecnológico de Monterrey. Fundada há 20 anos, a iniciativa se insere em um amplo contexto de estímulo à inovação acadêmica e prova que não é de hoje que a Europa busca reinventar seus sistemas educacionais. No entanto, o continente ainda corre atrás do tempo em pelo menos um aspecto importante.

Nos Estados Unidos, por exemplo, a noção de que é preciso fomentar pesquisas sobre ensino em cursos científicos já está mais consolidada. O professor da Hamburg University of Technology, Christian Kautz, cita o caso da área de física. “A American Physical Society promove já há algum tempo, todos os anos, conferências e cursos para estimular pesquisas de como inovar o ensino em física. A Europa, nesse sentido, ainda está acordando”, indica.

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Resolvendo problemas
A utilização de metodologias ativas de aprendizagem é uma realidade em vários países e instituições de ensino. Dentre elas, a Aprendizagem Baseada em Problemas, mais comumente conhecida como Problem Based Learning (PBL), está entre as mais disseminadas. Isso porque projetos com base nessa estratégia, entre outras consequên-
cias, ajudam na transição dos alunos para o mercado de trabalho e cria pontes para o eterno desafio da saúde institucional: suporte financeiro.

Um exemplo vem da Aalborg University, Dinamarca. A instituição tem um departamento, a PBL Academy, para fomentar uma rede de pesquisas e promover a disseminação interna e externa de um modelo próprio da metodologia.

Cada curso estabelece um projeto PBL, que atua como elemento central de todo o programa. Os problemas são resolvidos em etapas; há módulos obrigatórios, eletivos e opcionais para dar suporte aos alunos. Os professores organizam as atividades, supervisionam o trabalho e garantem que os estudantes trabalhem alinhados com princípios básicos do modelo: cooperação, gerenciamento de conflitos e organização.

A Universidade oferece laboratórios, equipamentos de pesquisa e salas de aula de diferentes tamanhos para auxiliar nas pesquisas. Também estimula o relacionamento fora da academia, buscando parcerias com empresas que possam colaborar com projetos, seja na forma de inspiração, uso do espaço ou mesmo estágios remunerados. No final de cada etapa, os alunos passam por um exame que avalia não apenas o resultado do projeto, mas a performance individual.

Na Universitat Autònoma de Barcelona (UAB), Espanha, a estratégia de PBL também é a principal fonte de inovação do ensino, que é difundida através do departamento de Inovação e Transferência, que atua sob o conceito de transferência de conhecimento.

Dentro desse conceito, faculdades da universidade são estimuladas a desenvolver projetos que sejam do interesse de empresas da região. Dessa forma, os problemas estão sempre ligados a questões reais do mercado. Quando o resultado é positivo, a UAB cria uma licença para permitir o uso da solução, mas mantendo certos direitos sobre a patente. “Protegemos a geração de conhecimento ao mesmo tempo que estimulamos o uso comercial e, por consequência, o desenvolvimento do mercado e indústria regional”, explica Lluís Tort Bardolet, que além de presidente da ECIU, é professor e ex-vice-reitor do departamento de Inovação e Transferência.
Soluções para ampliar a transmissão wireless de energia, combater tumores através de nanopartículas de proteínas e localizar vítimas de avalanche usando um aparelho portátil de resgate são exemplos de projetos desenvolvidos nessa lógica.

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Pesquisar é preciso
Já a Universidade de Aveiro (UA), em Portugal, elege todo ano um tema para ser foco de projetos interdepartamentais e multidisciplinares. As pesquisas são desenvolvidas ao longo do ano letivo e devem resultar em estratégias de ensino inovadoras. Mas, além da teoria, os alunos precisam sugerir uma proposta, colocá-la em prática na sala de aula e avaliar o impacto. Os melhores projetos são apresentados no Dia do Ensino. “Há sempre inúmeros projetos interessantes e fica até impossível escolher um ou outro para destacar”, afirma Niall Power, chefe de Gestão Acadêmica da UA.

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Aalborg University, na Dinamrca: foco na transição do aluno para o mercado de trabalho

No ano passado, o tema foi “Tecnologia a serviço do aprendizado” e 53 projetos foram apresentados. Entre os eleitos, destacaram-se a simulação de cirurgia de marcapasso para profissionais da medicina e as estratégias para ensinar codificação usando a metodologia da Sala de Aula Invertida.

Outro caso de relevo vem da Alemanha, especificamente da Hamburg University of Technology (TUHH, em alemão). Há pouco mais de cinco anos, a instituição criou um departamento específico para implantar novas técnicas de ensino-aprendizado. E mesmo que a adesão de qualquer professor ou faculdade seja voluntária, mais de 60% de todo o corpo docente aderiu à novidade.
Quando o coordenador de um curso pede o auxílio, o departamento separa dois especialistas: um da área do curso e outro em pedagogia. “O especialista da área ‘traduz’ o conteúdo do curso para o pedagogo, que baseado nisso cria um projeto específico”, explica Andrea Brose, chefe do departamento da TUHH.
Esses dois profissionais trabalham sempre próximos, para garantir que o projeto seja ao mesmo tempo inovador e atenda aos objetivos do programa. Ainda que existam casos pontuais, de ações criadas para aulas específicas, Andrea garante que a maior parte dos projetos propuseram verdadeiras reconstruções: “Estamos falando de algo que costuma durar entre 6 meses e 1 ano, porque pensamos em todas as etapas, do design da sala de aula ao plano de conteúdo”, complementa. Métodos como o Just-in-time, jornada com suporte de mídia, PBL, Peer Instruction e Sala de Aula Invertida são alguns dos utilizados.

Abrindo as portas para a inovação
Um fator que distingue o programa da universidade alemã é que ele é o único atualmente financiado somente pelo Estado. Criado em 2011, o programa Pacto pela Qualidade de Ensino serve exclusivamente para financiar programas de inovação em ensino. Até 2020, 156 instituições vão receber verbas para manter seus projetos e, entre elas, está a TUHH.

Mas de maneira geral, mesmo no cenário europeu, a questão do financiamento para o desenvolvimento e implementação dessas estratégias é um desafio recorrente. Em quase todos os casos citados, o tom das fontes é de luta. Isso acontece principalmente porque se trata também de algo relativamente novo para o Estado ou para o terceiro setor, e a sombra da crise econômica ainda paira sobre o continente.

Com exceção da Alemanha, atualmente não há grandes investimentos públicos federais para essa área, que ainda está conquistando seu espaço. Já a União Europeia tem o programa Horizon 2020, que financia iniciativas de pesquisa e inovação, e o ERASMUS+, que promove a mobilidade de estudantes e a cooperação em educação pela Europa. Mas o consenso é que o apoio deve ser maior e o caminho ainda é longo. “Talvez em um mundo ideal seria possível colocar uma verba especifica para desenvolver a educação inovadora. Só que na prática hoje é um pouco mais difícil”, confirma o chefe de Gestão Acadêmica da Universidade de Aveiro, Niall Power.

Universidade de Aveiro, em Portugal: alunos são estimulados a desenvolver novas estratégias de ensino

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Para ir atravessando a maré inconstante, as instituições têm apostado em duas frentes. No curto prazo, as parcerias. A Dublin City University (DCU), uma das fundadoras da ECIU, é reconhecida por seu trabalho em Educação a Distância (EAD) e mantém duas parcerias nessa área que trazem retorno financeiro: com a Princess Nora Bint Abdulrahman University (PNU), na Árabia Saudita, e com a
Arizona State University, nos Estados Unidos. “A renda dessas parcerias financia outros projetos de educação inovadora.

É uma maneira interessante de gerar verba e conhecimento”, explica Mark Brown, diretor do Instituto de Aprendizagem Digital da DCU. Já a Universitat Autònoma de Barcelona busca criar um projeto-piloto que tenha força de atração suficiente para angariar verbas do setor privado e, se possível, público. “Se queremos aumentar o nosso número de Ph.D., por exemplo, vamos até uma empresa e perguntamos do que ela precisa. Com base nisso montamos um programa. Se dá certo, conseguimos aporte da empresa e uma parte da própria universidade”, explica Lluís Tort Bardolet.

A segunda frente é a de longo prazo e consiste em influenciar as políticas públicas. A chave para atingir tal objetivo são as associações que fortalecem a área e ajudam a divulgar os frutos colhidos com o desenvolvimento das estratégias de ensino inovadoras. São esses grupos que conseguem, menos rápido que o desejado, cavar os espaços para criar a base de uma mudança permanente, na qual o investimento seja visto como parte essencial de um programa de política pública na área da educação.

Por isso também é consenso que avaliar, agregar dados, trocar informações e divulgar resultados é vital. Todas as instituições citadas criaram sistemas de avaliação para seus projetos. Em alguns casos, há até exames com o objetivo exclusivo de observar o impacto da estratégia implantada. “Coletamos dados de forma empírica e os compartilhamos para aprofundar a pesquisa e o desenvolvimento da área”, comenta Andrea Brose, da TUHH.

Mostrar que projetos do tipo também impactam a economia é uma aposta com boas chances de sucesso. “Algumas pesquisas, por exemplo, apontam que modelos tradicionais de ensino têm um impacto negativo na retenção de alunos, o que gera um problema econômico”, aponta o professor Christian Kautz.

Seja qual for a estratégia inovadora de uma instituição, a boa e velha política continua sendo um rio incontornável para chegar ao objetivo transformador. E como mostra o exemplo europeu, a melhor maneira de atravessá-lo continua sendo a mesma: em conjunto.

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