Uma sensação diferente

Educadora mãe de garoto autista cria método pedagógico para estimular relacionamento do filho com mundo exterior

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Madhusree Mukerjee

Chego cedo demais. Às 7 da manhã em um apartamento comum de Los Angeles (EUA), Tito Mukhopadhyay está curvado sobre sua tigela de café da manhã, levando leite e cereal em colheradas até sua boca aberta. Seus olhos passeiam e suas mãos se agitam. Quando ele termina, Soma Mukhopadhyay, sua mãe, puxa ele da cadeira e enfia o garoto no chuveiro, correndo de volta, às vezes, quando o garoto berra por ajuda.



Tito emerge finalmente, vestido. Ele se curva para que a mãe, miúda, consiga alcançar seus grossos cabelos negros e penteá-los. Abruptamente, ele se vira para a porta e meio que anda, meio que se lança no corredor até sair. Lá, ele fica no topo de uma escada que leva a uma rua movimentada. Sol dourado em seu rosto, ele abana e gira as mãos para absorver.




Mais tarde, pergunto: “Você gostaria de ser normal?”. Em letra garranchada, mas legível, ele escreve: “Por que eu deveria ser Dick, e não Tito?”




Aos 15 anos de idade, Tito demonstra todos os sinais clássicos do autismo de “baixo funcionamento”. Anos atrás, na Índia, um médico disse aos pais de Tito que o garoto era incapaz de entender o que ocorria ao seu redor. “Eu entendo muito bem”, disse o espírito do garoto, segundo ele relata em
The Mind Tree

(“A Árvore da Mente”, editora Arcade, ainda não editado no Brasil), livro que escreveu quando tinha entre 8 e 12 anos.




Tito geralmente se refere a si mesmo na terceira pessoa. De fato, o garoto tinha dois “eus” distintos: um “eu pensante que estava preenchido com aprendizados e sentimentos” e um “eu agente” que era “esquisito e cheio de atitudes” que ocorriam independentemente de seus pensamentos.




O autismo traz uma vasta gama em termos de inteligência, do retardo severo até a síndrome de Savant. Os savantes são quase sempre autistas de alto funcionamento – constantemente passando por normais – que realizam façanhas de cálculo, visualização ou memorização. Temple Grandin, da Universidade do Estado do Colorado (EUA), por exemplo, é uma autista de alto funcionamento cuja habilidade fenomenal para visualizar, junto de sua empatia por bois, permite que ela desenhe instalações de abate de gado mais humanas. Paradoxalmente, Tito combina uma inabilidade extrema com a habilidade de escrever – e, portanto, consegue informar em condições internas bizarras.




“Quando eu me concentrava no som, sentia meus olhos e nariz fechando.” Não conseguindo escutar e ver alguém ao mesmo tempo, Tito evita o contato visual – uma típica característica do autismo. Querendo falar, uma vez Tito permaneceu de pé, em frente ao espelho, implorando à sua boca que se mexesse, mas “tudo o que sua imagem fez foi olhar de volta”.




Autistas têm dificuldade em movimentar seus músculos voluntariamente: Tito agora fala em grunhidos precariamente inteligíveis. “Ele se via como uma mão ou uma perna e virava-se para juntar suas partes ao todo”, explica Tito sobre uma outra atividade típica, a rotação. Agitar as mãos em círculos o ajuda a organizar seus pensamentos e tornar-se mais consciente de sensações corporais.




Informações sensoriais conflitantes e arrebatadoras parecem acometer os autistas, que respondem desligando um ou outro sentido por vez, observa Yorram S. Bonneh, neurologista do Instituto Weizmann em Rehovot, de Israel. Em 2001, Bonneh e uma equipe descobriram que, se Tito visse um clarão de luz vermelha e ao mesmo tempo ouvisse uma voz dizendo “azul”, ele reagiria dizendo “eu vi azul” ou “estou confuso”. Ninguém mais falhou completamente ao receber estímulo tão poderoso. (Testada em isolamento, entretanto, a visão de Tito é quase normal.) Ele demonstrou ter uma hierarquia de sentidos: a audição encobria a visão, e ambas extinguiam o tato. Às vezes, ele não conseguia sentir absolutamente nada com os dedos.




Enquanto a audição domina para Tito, a visão domina para Temple. Mas os circuitos neurais de Tito são muito mais danificados do que os de Temple, afirma Bonneh, que examinou ambos. Efeitos tão surpreendentes quanto os demonstrados por Tito estavam escondidos até então, porque um autista de baixo funcionamento normalmente não coopera com experimentos.




Todos esses sinais interferindo uns com os outros levam a “um mundo fragmentado, percebido por meio de orgãos de sentido isolados”, escreve Tito. Ele compreende o mundo pela leitura, nos dias em que consegue ler; em outros, sua mãe lê em voz alta para ele – física, biologia, poesia. “É por causa de meu aprendizado com livros que eu conseguia dizer que o ambiente era feito de árvores e ar, coisas vivas e não vivas, isto e aquilo”, ele escreveu.




Nascido na Índia, Tito aprendeu a se comunicar pelos incessantes esforços de sua mãe. Vivendo sozinha com seu filho em cidades da Índia que contam com especialistas em autismo (o pai de Tito trabalhava em uma cidade distante), Soma Mukhopadhyay, química e educadora, tentou todos os truques que se possa imaginar para tentar fazer com que seu estranho filho reagisse.




Ao ouvir de um médico que Tito era retardado, ela chorou lágrimas amargas – “o garoto ficou triste também, mas não conseguia demonstrar nenhum sentimento de dor”. Soma procurou outro médico. Quando alguém sugeriu que uma piscina poderia ajudar, ela vorazmente levou-o naquele mesmo dia. “Não existe amanhã no estilo da mãe”, Tito observou mordazmente. A viagem foi um fracasso. Quando o encontrou olhando fixamente para um calendário, ela apontou para os números, dizendo o nome deles em voz alta. Durante uma estonteante semana, antes de completar 4 anos, Tito aprendeu a somar, subtrair e a formar palavras apontando para números e letras escritos em um quadro.




Como alguns especialistas suspeitavam que Soma estaria dando dicas para Tito, ela ensinou-o a escrever. Não foi uma tarefa fácil, porque Tito era incapaz de sentir a existência de seus dedos, imagine segurar um lápis. Ela amarrou um à sua mão e forçou o instrumento para traçar o alfabeto até que Tito fosse capaz de fazê-lo sozinho. Mesmo assim, Soma tem de estalar os dedos quando os pensamentos de Tito estão se desviando – o que ocorreu o tempo todo durante esta manhã de entrevista, em Los Angeles.




Tito parece ser tomado por disparos neurais aleatórios: sem sua intervenção, explica Soma, ele escreveria palavras de outra frase no meio de uma que já havia começado. Assistindo a seu foco intenso sobre o filho e sua reação quase instantânea quando ela detecta a mente dele viajando, me lembro de um caçador de cobras e treinador de animais selvagens que eu conheci, cuja vida dependia de uma leitura íntima para uma reação momentânea ao movimento de uma criatura.




“A fidelidade do método será muito, muito difícil de reproduzir”, prevê Richard Mills, da Sociedade Nacional do Autismo de Londres (Inglaterra), que conheceu Tito em Bangalore e o apresentou ao mundo ocidental. Soma atualmente trabalha com crianças em Los Angeles, utilizando seu chamado Método de Estímulo Rápido, segundo relatos, com sucesso espetacular. Ela se comunica usando qualquer que seja o canal sensorial aberto em uma criança, enquanto esta última responde apontando para letras ou figuras.




Freqüentemente, ela possibilita esse movimento ao tocar na mão ou no ombro da criança. Tito explica que o toque permite sentir aquela parte específica do corpo e, portanto, controlá-la. Infelizmente, observa Mills, surgem tratamentos para o autismo que acabam evaporando, e o método de Soma ainda precisa ser cientificamente validado. Um grupo de pais e educadores que se autodenomina Halo (na tradução, algo como Ajudando o Autismo por meio de Aprendizado e Assistência) está tentando concretizar um estudo formal.




Mesmo que consigam se comunicar, poucos autistas tendem a revelar personalidades tão complexas quanto a de Tito. Um dia, escreveu ele, as coisas ficam transparentes: “Uma sala transparente, depois um teto transparente e uma reflexão transparente de mim mesmo mostrando apenas as cores de arco-íris do meu coração.” Os especialistas acreditaram por muito tempo que os autistas sofriam de falta de imaginação e de introspecção. Lorna Wing, também da Sociedade Nacional do Autismo, explica que essas qualidades estão presentes, mas impedidas – os autistas tendem a não apresentar interesse ou empatia em relação a outras pessoas.




Uma teoria comum, defendida por Uta Frith, do Conselho de Pesquisa Médica em Londres, sustenta que os autistas não possuem uma “teoria da mente” – ou seja, eles são incapazes de perceber intuitivamente o que outra pessoa está pensando. E, ao não conseguirem compreender diferentes nuances ou ambigüidades, acabam por ficar restritos e sem senso de humor.




Em seu livro,
Pensando em Figuras

(Doubleday, inédito no Brasil), Temple percebe que ela pode compreender os outros e até enganá-los, mas somente com um esforço intelectual continuado: ela estuda as pessoas como os primatologistas estudam chimpanzés. O livro dela se desenvolve como se ela fosse parte robô – ela se identifica com Data, de
Jornada nas Estrelas

– enquanto o de Tito se desenvolve como se ele fosse uma criança de criatividade e percepção incomuns, mas com a qual coisas muito estranhas acontecem. A idéia da “teoria da mente” não se aplica a Tito, declara Michael Merzenich, da Universidade da Califórnia, em São Francisco (EUA).




Lorna argumenta que pessoas com facilidade para utilizar a linguagem, como faz Tito, de fato obtêm bons resultados em testes da teoria da mente. Mas até Tito, diz ela, tem problemas ao tentar aplicar sua teoria da mente em situações sociais complexas.




De noite, um amigo leva de carro Tito, sua mãe e eu até a praia. Enquanto enfrentamos o tráfego pesado, a conversa, de alguma maneira, vira-se para Darwin. “Você deveria dizer que os autistas são os mais evoluídos dos humanos”, opina Tito, falando em sílabas separadas. Sua mãe traduz, mas uma palavra ou outra fica clara mesmo para mim. “É uma mutação recente”, continua ele. Protesto, chocada com tal declaração. “Estou só brincando. Não posso brincar?”, ele responde abruptamente – eu é que não tinha percebido. Mais tarde, ele acrescenta: “Quando você escrever, ponha a parte divertida, pois ela conta [
sobre

] a teoria da mente.”




Quando chegamos à praia, está frio e escuro. Tito arrasta suas sandálias e sua mãe se abaixa para dobrar as calças dele. Ele aprecia “a água, o som e o ar”, na praia. Tito explica mais tarde: “Eu sempre gosto do ar.” Encarando o oceano vasto e negro, ele permanece sozinho, dedos descalços mergulhados na areia e na marola, mãos girando e abanando.





(Tradução: Faoze Chibli)



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