Uma reforma universitária inútil

As atuais taxas de matrículas nos levará ao mercantilismo

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Sei que esta não é uma revista sobre o ensino terciário, mas abro uma exceção pra falar sobre a reforma do ensino universitário. Dá uma agonia ver o Brasil patinando em irrelevâncias totais na hora de tratar de questões seriíssimas. Só há um dado realmente importante quando se discute o ensino universitário do país: a nossa taxa de matrícula. Enquanto não colocamos nem 11% dos jovens de 18 a 24 anos na universidade, ou apenas 16% de pessoas de qualquer idade, os países desenvolvidos já estão passando a barreira dos 50% – alguns, como Finlândia, Coréia do Sul e EUA, já passam dos 80%. Até nossos vizinhos Chile, Argentina e Uruguai já estão na casa dos 40% ou mais.





Estamos assistindo, impassíveis, a um descolamento do Brasil em relação ao mundo desenvolvido. Estamos na Era do Conhecimento. Sim, eu sei, é difícil de acreditar nisso quando você vê todo mundo aqui festejando uma safra melhor, o “poder do
agribusiness

brasileiro” etc., mas nada disso importa. Isso era a economia do século XIX. Daqui pra frente, o que interessa é a produção de bens de alto valor agregado, de tecnologia. Estão aí os tigres asiáticos, a Irlanda, o Japão e tantos outros pra confirmar. E para chegar lá, é preciso muita educação, o insumo básico em uma economia de cérebros.





O Brasil está perdendo o trem da história. Hoje, ainda temos taxas de escolarização universitária da população não muito distantes das dos países mais desenvolvidos. Na faixa de 25 a 64 anos, só temos um ponto percentual de diferença em relação a Argentina e Chile, dois pra Itália e quatro pra França. Mantidas as atuais taxas de matrícula, porém, a diferença vai passar a 20, 30 ou 50 pontos rapidinho. E aí, babaus Brasil. Vamos mandar soja e receber microchips. De volta aos tempos mercantilistas. Toda essa bobajada contemplada pela reforma universitária não muda em nada a situação.





O que deve ser feito? Primeiro, melhorar radicalmente a qualidade do ensino básico, pra que mais gente chegue às universidades. Nada desses salamaleques de Fundeb, mais anos de escola, mais isso, mais aquilo. A palavra não é “mais”, é “melhor”. Melhorando a qualidade, diminuem a repetência e a evasão, aumentando o fluxo de alunos. O outro problema é que, quando os alunos se formam do ensino médio e chegam às universidades, ou se deparam com as portas fechadas das universidades públicas ou não têm dinheiro pra pagar as privadas.





Qual é o problema? O custo da universidade pública brasileira. Custo médio do aluno das universidades públicas dos países da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico): US$ 10.052 (ajustado para diferenças de poder aquisitivo). Custo na Argentina: US$ 3.047. Custo no Brasil: US$10.306. Solução: simples, não? Cobrar mensalidade dos filhos de papai rico. Ia gerar uma bela grana, e ainda forçar a universidade pública a controlar seus custos, pra virar competitiva. Chances desse governo fazer qualquer dessas coisas: zero. Se sobreviver ao mensalão, estará de bom tamanho. Esperemos até 2007, portanto. Retrocedamos, enquanto o mundo corre.




 




Gustavo Ioschpe é mestre em desenvolvimento econômico com especialização em economia de educação.

E-mail: 

desenbucha@uol.com.br







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