Uma questão de ensino

Especialistas apontam que programas universitários devem incluir mais conteúdos voltados para inovação e empreendedorismo, adequando-se às novas demandas da sociedade

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Especialistas apontam que programas universitários devem incluir mais conteúdos voltados para inovação e empreendedorismo, adequando-se às novas demandas da sociedade

por Cristina Morgato

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Empreender é o desejo de um número crescente de brasileiros. Entretanto, o estudo Global Entrepreneurship Monitor (GEM) realizado pelo Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e pelo Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade (IBQP) fez uma revelação importante: dentre os tópicos apontados como os mais limitantes para o desenvolvimento do empreendedorismo no Brasil está a questão da educação. A qualificação dos profissionais responsáveis pela gestão e pelo apoio às empresas incubadas é uma das grandes dificuldades enfrentadas pelas incubadoras, assim como o nível de educação empreendedora adquirido pelos estudantes no ensino fundamental e médio. “Os alunos chegam ao ensino superior com uma série de deficiências de aprendizado. É preciso ter superávit de conhecimento para criar. Ninguém cria se mal souber o básico”, destaca Mauro Andreassa, professor associado do Instituto Mauá de Tecnologia e membro do Comitê de Educação da SAE BRASIL.

Qual seria, então, o papel das instituições de ensino, especialmente as responsáveis pela educação superior, para a evolução do empreendedorismo no Brasil. Segundo a Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores (Anprotec) e o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), as instituições de ensino superior já são as principais fontes de vinculação das incubadoras, seguida pelos governos municipais.

Conhecimento escasso

O consultor e organizador do livro Empreendedorismo inovador, Nei Grando, conta que, até pouco tempo atrás, o Brasil não tinha cursos ou matérias voltadas ao empreendedorismo nas instituições de ensino superior. Segundo ele, mesmo os cursos de MBA, que fornecem muitas informações sobre gestão, estão, na maioria das vezes, totalmente voltados à preparação de profissionais para atuarem como gestores de empresas já existentes. “Criar empresas, principalmente as inovadoras de base tecnológica, é algo muito diferente e requer conteúdo e forma de ensinar apropriados”, ressalta. Nesse sentido, é importante que as instituições universitárias não só ofereçam conteúdos voltados para empreendedorismo, mas também que tenham professores em constante aprendizado com os alunos, com a academia e principalmente com o mercado. “No corpo docente, não são importantes somente mestres e doutores, mas também professores e palestrantes empreendedores, investidores e outros profissionais do ecossistema empreendedor”, diz.
O atraso na educação empreendedora no Brasil em muito se deve ao contexto histórico do país. Tecnologia e inovação são ramos especialmente afetados, demonstrando falta de investimentos mais expressivos e uma evolução muito lenta em comparação com outros países em desenvolvimento. “Temos uma longa e penosa história econômica. O Brasil apareceu entre os emergentes há poucos anos, mas sempre fomos usuários de tecnologias. Essa história cunhou universidades com viés de difusão, e não criação de tecnologia. Agora o jogo virou”, afirma Andreassa. Para o professor, o mundo espera que marchemos no avanço da tecnologia junto com países como China, Índia e Rússia, enquanto Europa e Estados Unidos lutam por sua recuperação. Os impedimentos, portanto, estão principalmente nas culturas corporativas e práticas acadêmicas que têm aversão ao risco. “Inovação e empreendedorismo implicam correr risco de perda. O Vale do Silício, outrora conhecido como centro de excelência de novas tecnologias, hoje sofre de inanição de investimentos. As garagens de adolescentes criativos viraram grandes corporações – e grandes corporações temem perdas significativas. Nossas universidades precisam assimilar também um pouco do espírito de garagem”, defende.
Embora as instituições de ensino superior possuam a espinha dorsal do conhecimento, os currículos, recheados de disciplinas consideradas importantes para a vida corporativa, devem transformar o aprendizado por meio de experiências reais dosadas ao longo dos anos de estudo. Dessa forma, os programas de iniciação científica, trabalhos em sala de aula, estágios, competições e projetos de conclusão de curso devem ser integrados, de alguma forma, para que o aluno aprenda a caminhar por áreas desconhecidas. “A universidade transforma o ambiente e atrai investimentos dentro do segmento em que é forte. Aumenta, assim, a densidade de especialistas que por lá transitam e, naturalmente, cria novos negócios para o surgimento de polos de inovação. Isso não está no livro nem na apostila, precisa ser trabalhado em equipe”, completa Andreassa.

O aluno que está em uma instituição de ensino, mais que um diploma, deve buscar conhecimento relevante e contextualizado com a realidade que vai enfrentar no mercado de trabalho. E trabalho não necessariamente é um emprego em uma grande organização. “A economia está em constante mudança, assim como a sociedade, a tecnologia, as relações comerciais internacionais, as gerações e as profissões. O incentivo ao empreendedorismo é uma das melhores formas de fazer a economia de um país crescer, especialmente quando aliado à tecnologia”, enfatiza Grando. Em sua concepção, para que isso aconteça de forma mais eficiente, além de prover conhecimento, as instituições de ensino podem desempenhar ainda melhor seu papel se estiverem colaborando com as empresas e vice-versa. “Algumas formas de fazer isso são: apoiar a pesquisa, ter conexão com parques tecnológicos, incubadoras, programas de parcerias empresa-escola etc.”, completa.

Caminho possível

Grande produtora de recursos humanos do país, a Universidade de São Paulo (USP) tem gerado conhecimento que alimenta e motiva diversas spin-off – novas empresas que nascem a partir de um grupo de pesquisa – em vários setores de atuação. Contratos com empresas têm permitido um grande avanço de áreas como gás e óleo, instrumentos médicos, alimentos, aeronáutica e agricultura. E, por meio de sua Agência de Inovação, a USP tem a missão de deixar a comunidade universitária alerta ao processo de inovação e ser um propulsor de desenvolvimento e conversão de conhecimento em riqueza para o país. “É importante que todos os pesquisadores aprendam a identificar oportunidades para criar contribuições tecnológicas importantes. E a Agência deve ser um local de apoio a eles e o elo entre o conhecimento gerado e a sociedade”, define Vanderlei Salvador Bagnato, coordenador da Agência USP de Inovação.

Além de atuar junto ao setor acadêmico, oferecendo serviços de propriedade intelectual, realizando eventos relacionados à inovação e apoiar, em parceria com o governo do estado e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), empresários empreendedores que queiram elaborar patentes e projetos, a Agência possui uma frente dedicada às empresas e à educação direcionada para a inovação. “Somos a conexão. Promovemos parcerias, identificamos competências capazes de ajudar em certos projetos, viabilizamos contratos, atuamos como governança nos parques tecnológicos e incubadoras ligadas à USP, entre outras funções”, explica Bagnato.

É o caso do curso Gerenciamento e Execução de Projetos de Inovação em Empresas, realizado em parceria com a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). Distribuído em blocos, o curso tem 240 horas e é semipresencial. A iniciativa começou com 150 vagas, mas devido à alta procura o número praticamente dobrou. O programa possui o objetivo de dar formação mínima para profissionais de empresas onde a inovação é relevante. A ideia básica é que o participante entenda determinados conceitos envolvidos no processo de inovação e seja capaz de executar projetos, sempre levando em conta critérios que o ajudem a avaliar o desempenho. “Não ensinamos apenas como elaborar ou gerenciar um projeto dentro da empresa, mas também como executá-lo, avaliando os parâmetros de progresso, por exemplo”, explica o coordenador. Nessa parceria, a Fiesp mobiliza a comunidade de empresas, divulga e indica pontos importantes demandados pelos empresários e a USP é responsável pela realização do curso, incluindo a coordenação e criação de videoaulas e parte majoritária dos custos.

O curso foi criado em função da demanda existente no mercado – segundo dados da Fiesp e do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp), hoje existem mais de 1.500 projetos de inovação no setor empresarial do estado necessitando de apoio e pessoal capacitado para geri-los. De acordo com Bagnato, ao lado dessa demanda, existe um empresariado desacostumado com a inovação e despreparado para lidar com ela, dessa forma, é preciso dar aos executivos uma formação para que possam executar com sucesso o planejamento e os projetos nas empresas. O curso oferece, ainda, informações sobre possibilidades de financiamento, apoio legal existente, entre outros trâmites mais burocráticos. “Além disso, é preciso trazer aos empresários exemplos bem e mal sucedidos com relação à inovação e empreendedorismo. Tudo isso é parte de nossa obrigação como instituição de ensino”, descreve.

Para o coordenador, a universidade é um ambiente onde muitas ideias nascem e, portanto, um local propício para gerar conhecimento e contribuir para o avanço industrial do país. “Acredito que a universidade não deve produzir ou fabricar, mas deve ser o agente gerador de oportunidades para quem fabrica. É por isso que, em todo o mundo, os grandes centros industriais nascem ao redor de centros de pesquisa e grandes centros universitários. Nós estamos cientes desse papel e queremos atuar de forma marcante para o progresso do país”, reflete.

Aprender na prática

A Endeavor, organização internacional que apoia o empreendedorismo de alto impacto em 20 países, é uma das aliadas na conquista pela educação para o empreendedorismo. A organização atende em sua maioria países em desenvolvimento como o Brasil, isso porque os emergentes têm mais necessidade e carência em termos de ecossistema empresarial – incluindo problemas de legislação, acesso a capital e, conforme já citado, de base educacional. Segundo Henrique Tormena, coordenador da Endeavor Paraná, a organização tem também uma atuação bastante forte no incentivo à cultura empreendedora, por meio de cursos, eventos, seminários, workshops, conteúdo disponível no site e relacionamento com instituições de ensino superior. Nesse contexto, foi criada a Bota pra fazer, uma metodologia de ensino desenvolvida pela Endeavor inspirada em um modelo de aprendizado não tradicional e experimental, com sessões de treinamento prático.

A metodologia já foi testada por mais de 14 mil universitários brasileiros e aplicada em 50 instituições de ensino superior do país. Henrique conta que, no início, a Endeavor fez contato com as principais instituições de ensino superior privadas e públicas para estabelecer parcerias, entre elas, Fundação Getulio Vargas (FGV), Insper Instituto de Ensino e Pesquisa, Universidade de São Paulo (USP), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), entre outras federais, sempre buscando instituições de ponta. Hoje, o objetivo é expandir o projeto para fora dos grandes centros – um bom exemplo, segundo ele, é a Universidade do Contestado, na divisa entre Paraná e Santa Catarina.

O Bota pra fazer busca resolver uma grande questão da educação apontada por especialistas, que é o ensino teórico e pouco prático realizado no Brasil, e tem como foco a prática: ensina a “botar a mão na massa”, tirar a ideia do papel e construir o próprio negócio. “Isso é feito por meio da capacitação dos professores, que se tornam facilitadores do curso. Todo o material didático do docente e do aluno é desenvolvido pela Endeavor em uma plataforma on-line com videoaulas, cases de sucesso, exercícios e outros conteúdos. Tudo disponível para os alunos acessarem na internet”, explica o coordenador. A ideia, de acordo com ele, é capacitar principalmente os professores que irão replicar a metodologia para os estudantes, difundindo a cultura de empreendedorismo no país. Para Henrique, a grande dificuldade encontrada pelos profissionais que querem ter sua própria empresa ainda é o ecossistema empreendedor do Brasil, que muitas vezes não favorece a atividade, seja por questões trabalhistas ou de base de educação empreendedora. Nesse cenário, ele conta que a receptividade dos alunos tem sido muito boa, especialmente pela abordagem prática do curso. E, além do benefício direto, há um benefício de capacitação do corpo docente com uma nova abordagem empreendedora.

A Endeavor também realiza anualmente a Rodada de Educação Empreendedora, reunindo professores e pesquisadores para discutir melhores práticas e desafios do ensino de empreendedorismo no Brasil. O evento acontece em parceria com o Sebrae e envolve os participantes em discussões sobre o assunto, palestras, além de oficinas práticas.

As questões burocráticas para desenvolvimento de empresas no Brasil, o medo de assumir riscos e a falta de investimento em tecnologia e inovação, aliadas à questão dos problemas da educação em empreendedorismo, configuram um cenário complicado e pouco atrativo para investimentos. Resta saber se com o forte interesse dos brasileiros pelo empreendedorismo os tempos irão mudar, as leis serão mais simples, impostos mais amigáveis e o ensino focado em habilidades que facilitem a vida dos novos empresários.

Pequenos passos
Com o objetivo de participar ativamente do ecossistema empreendedor de São Paulo, a Faculdade de Informática e Administração Paulista (Fiap) criou um espaço de coworking – local de trabalho compartilhado e colaborativo – oferecendo estrutura que permite que empreendedores foquem seus projetos, podendo trocar ideias com outros profissionais com o mesmo perfil. “Enxergamos que temos um papel importante como conectores”, conceitua Nathalie Trutmann, diretora de Inovação da Fiap. A faculdade foi buscar parceria com a Singularity University, da Califórnia (EUA), para a criação do coworking space.
Trata-se de um espaço para alunos e ex-alunos da Fiap, e também para pessoas de fora da faculdade – desde que estejam trabalhando em algum empreendimento. Não há uma consultoria direta para os usuários do espaço, mas a iniciativa faz parte de uma série de ações de incentivo ao empreendedorismo. “A instituição pode atuar em várias frentes para incentivar a inovação e o empreendedorismo tecnológico, tanto nos cursos administrados como nas conexões que ela tem com o mercado. Nós estamos trabalhando em ambas as frentes”, explica a diretora. A instituição oferece, ainda, palestras para enriquecer o currículo dos alunos e possui uma empresa júnior. “Outra iniciativa da Fiap nesse sentido é o Call to Innovation, um concurso anual no qual os participantes enviam uma ideia que utiliza a tecnologia para impactar positivamente a vida de um milhão de brasileiros – o ganhador recebe uma bolsa de estudo integral para passar dez semanas no Vale do Silício fazendo o Graduate Studies Program da Singularity University, dentro da Nasa”, conta Nathalie.

 

Lado a lado
Além de todas as questões que envolvem órgãos governamentais, para que o empreendedorismo cresça no Brasil, também é importante o apoio da iniciativa privada, completando o círculo. Um exemplo de iniciativa é o Prêmio Santander Universidades, que reconhece projetos universitários relacionados ao empreendedorismo, ciência e inovação. Desde o ano 2005, a instituição financeira vem investindo no projeto. Segundo Jamil Hannouche, diretor da divisão brasileira do Santander Universidades, o número de projetos inscritos subiu mais de 1.000% em 8 edições do prêmio, passando de 897 (1ª edição) para 10.252 (8ª edição). “Também foi crescente a qualidade dos projetos e o engajamento das próprias universidades participantes”, acrescenta.
De 2005 para cá, o Santander Universidades aumentou o escopo e abrangência do prêmio ao incorporar novas categorias e parceiros. Hoje, quatro premiações compõem a iniciativa: Empreendedorismo, Ciência e Inovação, Universidade Solidária e Guia do Estudante – Destaques do Ano. Além disso, desde 2009, ganhou caráter internacional, ao oferecer aos finalistas a oportunidade de concorrer ao Prêmio Ibero-Americano de Inovação e Empreendedorismo. “Sem dúvida, tamanho crescimento é gerado não apenas pelo constante investimento do Santander Universidades na educação superior, mas também pela demanda da própria academia”, afirma Hannouche. Além disso, a iniciativa conta com diversos parceiros, nacionais e internacionais, entre eles a Academia Brasileira de Ciência, Babson College, Endeavor Brasil, Fundação Dom Cabral e Unisol.
Podem participar todas as instituições de ensino superior reconhecidas pelo MEC, basta que a universidade inscreva seu projeto. “O retorno que temos está diretamente ligado ao desenvolvimento científico, que inova o cotidiano do ambiente acadêmico e estimula a pesquisa. A aplicabilidade do conhecimento produzido na universidade e sua transferência para a sociedade estimulam a cultura empreendedora e de inovação responsável por gerar mudanças no âmbito social, econômico e cultural”, ressalta o diretor. De 2005 a 2013, foram quase 29 mil projetos inscritos por estudantes, pesquisadores e docentes de todo o país e 5 milhões de reais foram distribuídos em prêmios.

 

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