Uma poeira entre problemas

A escola não é tecnicista e alienante apenas para seus alunos, é para os professores também. O nosso modelo de carreira só gera desconforto entre a própria classe

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Ilustração: Evandro Luiz da Silva

Em 2012 entrei pela primeira vez em uma escola para lecionar e foi bem desafiador, pois estudei nessa escola. Foi lá que conheci grandes amigos e alguns professores que me inspiraram a ser o que eu me tornei hoje. Mas também foi nessa escola que passei grandes crises em função da minha sexualidade. A adolescência é um período difícil para jovens, ainda mais jovem e gay.

O ano de 2012 foi um dos melhores da minha vida porque comecei a me identificar com a profissão. Estava saindo da faculdade e tinha receio de conhecer o espaço educacional. Mas mesmo as muitas opiniões desmotivadoras e o consenso em torno da desvalorização da profissão não me impediram de tentar: eu fui lá e estou tentando e descobrindo o que é ser um educador até o presente momento.

Minha primeira impressão acerca do contexto em que eu me encontrava era a de que tudo estava errado e de que eu era uma poeira em meio a tantos problemas sociais que convergem no ambiente escolar. As políticas públicas em torno da educação são mínimas: não existe resgate histórico, não existe diversidade social, não existem projetos relacionados ao plano de carreira do professor. Os recursos para a infraestrutura são escassos, muitas vezes os professores retiram dinheiro do próprio bolso para ajudar.

Eu posso contar nos meus dedos os professores que passam algo positivo, que te encorajam e que se disponibilizam para te ajudar. A escola não é apenas tecnicista e alienante para seus alunos, é para os professores também. O modelo que vem sendo adotado em relação à nossa carreira só gera um desconforto entre a própria classe. Somos divididos em categorias, precisamos de muitas aulas para receber um salário digno de nosso esforço – então não importa, o outro é meu colega até a hora de atribuir aulas. Recebemos aumento em função de uma prova para checar nossos conhecimentos, além de um bônus que todos esperam em março. Uns recebem, outros não, depende dos indicadores em relação à prova Saresp, e a escola nunca pode baixar se alcançar um determinado índice.

Muitas vezes não sou reconhecido pelo que faço, pelos meus dirigentes, pela minha família e por poucos educandos. Educação é sociedade, e sociedade é transformação, pluralidade, contradição, lutas de poder, portanto, não adianta querer que tudo mude de um dia para o outro. Às vezes não conseguimos nem dialogar quando nos reunimos. Seria bom se passássemos a ter mais união, a não cair nas pegadinhas dos políticos, de culpar aluno, família ou de nos culparmos, principalmente.

Na primeira escola onde eu lecionei criei um vínculo afetivo muito grande com as pessoas de lá. Sempre percebi muito empenho por parte do corpo de funcionários da escola e fizemos muito com o pouco que tínhamos.

No ano de 2013 recebemos um diretor muito motivador que modificou a escola completamente. Conseguimos, por meio de rifas, arrecadação para reformar uma sala de vídeo, compramos cadeiras estofadas, cortinas e um som com amplificadores da melhor qualidade para ver filmes e documentários. O grêmio estudantil se renovou, porque a direção e parte dos professores reconheciam o valor que o grupo representava para a escola – era o exercício da democracia e cidadania acontecendo ali. Esse diretor mudou minha vida também, renovou minha esperança no ensino.

Minha experiência com os alunos dessa escola foi a mais positiva até hoje. Era uma escola central e atendia alunos de todos os cantos da cidade. Da periferia ao centro, eram esses alunos que compunham minhas turmas de ensino médio. Demorei uns meses pra me acostumar com o pessoal, mas aos poucos fomos construindo uma história de compreensão, diálogo, brincadeiras e confiança. Creio que ser jovem contribuiu muito, pois me via como parte deles, com sonhos, medos e esperando um futuro muitas vezes incerto. Sentir-se parte de algo e se identificar é muito importante para que exista uma troca, no entanto, eu entendo perfeitamente aqueles professores que estão há tempos desgastados com o trabalho, e, dessa forma, não se encontram onde trabalham. Mas há outros também que procuram valorizar o dia a dia e o que se pode tirar desse contexto difícil. Esses são os meus heróis.

Um problema muito triste e que eu percebo ser ignorado é a questão do preconceito nas escolas. No cotidiano do ambiente escolar é difícil perceber por parte dos professores determinada atitude, mas nas reuniões que estão no calendário escolar é muito comum ouvir palavras pejorativas que depreciam a identidade de muitos educandos em relação à sua sexualidade e cor. Na condição de educadores, atitudes como essas deveriam ser levadas a sério e problematizadas. Nós temos de ter subsídios para desnaturalizar e superar essas ideias que estigmatizam e inferiorizam o outro.

Como professor, homossexual, de origem humilde, a minha vida é uma luta. Todo dia eu procuro não deixar que essas atitudes afetem o meu desempenho como profissional porque sei que é assim em todos os lugares. Mas a escola tem de acolher as diferenças e mostrar que todos somos cidadãos com direitos, independentemente de nossa origem, credo religioso ou orientação sexual. Somos seres humanos e nossa beleza está na diversidade de mundos.

Ainda há muito que mudar, ainda há chão pra superar todos esses problemas. Ainda quero viver para não ver uma cruz sempre reinando nas paredes das instituições públicas, ainda quero presenciar professores se importando com o bem-estar dos alunos, reconhecendo a etnia e a cultura do outro, percebendo que todos nós temos sangue negro, e isso é um orgulho.

Um dos grandes desafios de nossa carreira é abraçar essa diversidade que se apresenta na escola, é reinventar, dinamizar e perceber que lecionar é mais criativo que planejar, pois não nos moldamos a uma escola, e sim reinventamos nosso trabalho a cada contexto. É não deixar que os mecanismos de dominação e aparelhos do Estado recaiam sobre nossa perspectiva docente, de transformação e de respeito. É compreender que antes de pensarmos no sistema como um todo, temos de começar observando nossa própria realidade, nossas vivências, o outro que convive conosco, e assim aos poucos, veremos que não somos tão diferentes, que somos um grupo de professores que estão lutando, que transformam vidas, que fazem muito com pouco, que sofrem juntos. Somos uma classe e temos de ter consciência dela!

João Vitor é professor de sociologia na rede estadual de São Paulo

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