Uma noite em escola de lata

Tensão entre instituição e comunidade e entre direção e secretaria ilustra lado obscuro da educação na periferia

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A escola Loteamento das Gaivotas II fica no extremo sul da capital paulista. Mais precisamente no Parque Cocaia, bairro do Grajaú – o mais violento da cidade, com o menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). O colégio, de latão, fica no topo de uma colina – de um lado do pátio se vê uma extensa paisagem de favelas e casinhas de tijolo aparente. O outro lado é aberto diretamente para as águas da represa Billings, de onde vem um vento gelado.

Às 18h30, a escola está quase vazia. Numa pequena construção de tábuas ao lado do portão, um garoto de gorro fuma um cachimbo. Outros três estão sentados ao seu lado e olham em volta, desconfiados. Mais abaixo, na rua de terra, o movimento do bairro é incessante – crianças, bicicletas, um número impressionante de pessoas, muitos jovens.

Às 19h, já está escuro. Os garotos do cachimbo sumiram.

Os alunos começam a chegar para as aulas. As Escolas Estaduais Loteamento Gaivotas I, II e III ficam lado a lado. Ao contrário do bairro, degradado, as escolas de latão são impecavelmente bem cuidadas. Novas e bem pintadas, têm desenhos cobrindo algumas das paredes, trabalhos expostos, lixo acondicionado, pátio limpo. Nenhum sinal de sujeira ou pichação. Tudo organizado, limpo.

UMA NOITE EM ESCOLA DE LATA Tensão entre instituição e comunidade e entre direção e secretaria ilustra lado obscuro da educação na periferia Mas, apesar da boa impressão, diretores, funcionários e alunos são orientados a não falar. Depois de alguma insistência, a subdiretora de uma das escolas recebe o repórter em sua sala. Após breve explicação sobre o assunto da reportagem, de cabeça erguida e olhos nos olhos, é direta: – O que você quer comigo exatamente?

– Uma entrevista sobre…

– Não falo. Mais alguma coisa?

– Então queria só conversar informalmente, pode ser?

– Não pode ser. Mais alguma coisa?

Os alunos fecham a cara. São lacônicos: “não falo, não”.

Um grupo antes ria e conversava, mas, ao perceber a aproximação do repórter, todos se calam e encaram. Um deles atira uma ponta de cigarro no pára-brisa do carro da reportagem.

O secretário de uma das escolas, ao ser abordado, explica com sinceridade: – Olha, se você vier aqui dizendo que é jornalista, não vai conseguir nada. Fala que é estudante de sociologia e está fazendo um trabalho… Melhor ainda, fala que é de uma ONG e está pesquisando… Se falar que é jornalista, as portas vão se fechar na hora.

– Há orientação para não falar?

– Meu filho, todo mundo morre de medo de falar, ainda mais em ano eleitoral. Eu mesmo estou para ser efetivado e não quero encrenca para o meu lado. Não põe meu nome aí, não.










 Cláudio Raimundo, 

professor do noturno há 14 anos:

alunos “vêm dispostos a estudar”


– Certo, não ponho. Mas qual é a sua opinião sobre o ensino noturno?

– O ensino noturno? É um lixo, é horrível. O governo diz que está todo mundo na escola, né? Tudo maquiado.

Os alunos constam como matriculados e eles fazem a estatística em cima disso, mas eu tenho controle da presença e te garanto que a maioria só se matricula e nunca aparece por aqui. Os professores não param aqui, o rodízio é intenso. No ano passado, de 70 professores, sobraram quatro no fim do ano.

A diretora de outra escola recebe a reportagem em sua sala: “Olha, não adianta, nada do que você falar vai adiantar. Nem eu nem ninguém aqui vamos dar entrevista.

Se você quiser, vá lá fora tentar falar com alguém.

Aqui eu não vou permitir. A dirigente regional de ensi

no de Interlagos proibiu a gente de falar com jornalistas.

Todo mundo aqui sabe disso. Com uma autorização dela, falo com o maior prazer. Mas já adianto que ela não vai autorizar.” O professor de história Cláudio Raimundo leciona na Gaivotas II desde que foi inaugurada, em 2000. Sindicalista, ele fala. Diz que, além do veto da direção regional a entrevistas, o pessoal do bairro é hostil com forasteiros por causa da violência, uma rotina local. A presença do crime organizado também ajuda a explicar o bom estado de conservação da escola.










 Velho fantasma: em um universo de 9,1 milhões de 

alunos matriculados no curso noturno em todo o Brasil, em 2004, foram reprovados 30%, ou 2,7 milhões


“Aqui na comunidade, o tráfico manda prender e manda soltar”, conta. Pouco antes da inauguração, a escola foi invadida. Foram levados equipamentos de 



 vídeo, som e informática. Dias depois, tudo foi “devolvido”.

“Os bandidos que haviam roubado apareceram mortos na frente da escola, linchados”, relata. “O tráfico sabe que a escola é a referência social do bairro.

Proteger as instalações é uma forma de ganhar crédito com a comunidade.” Em outra ocasião os traficantes apareceram e falaram para os diretores dos três colégios do Parque Cocaia: “Olha, hoje vocês vão fechar mais cedo, aí pelas 21h.

Não vai ter ninguém aqui depois dessa hora, certo?” Estava certo. Os alunos foram dispensados mais cedo.

No outro dia, havia um carro incendiado no local. Dentro, três corpos carbonizados. (FC)


O noturno, segundo um professor

O professor Cláudio Raimundo chega de moto à escola, no Parque Cocaia, três vezes por semana. Vizinho do bairro, formado em loteamento clandestino na beira da represa, ele dá aulas à noite desde 1992 e ganhou o respeito da comunidade. Para ele o ensino noturno não é pior que o diurno, e sim “diferenciado”.

Em bairros carentes, explica, a escola vira referência para a convivência dos jovens. “Isso é positivo, em si, mas então eles vêm à escola para namorar, encontrar os amigos, entrar em comunidade”, descreve. “Aquilo que eles vêm buscar nós, que lecionamos no noturno, não temos para oferecer e acabamos tendo problemas.” Para alunos mais velhos, a escola não é o ponto de encontro, mas local onde se adquire conhecimento e cultura. “Trabalhar com esse aluno é maravilhoso”, toma partido o professor, também conselheiro da Apeoesp, “porque eles vêm dispostos a estudar”.

Como as salas de aula ficam lotadas – cada uma possui mais de 40 estudantes -, ele diz que não é possível dar um tratamento diferenciado a cada um. “Quando os mais velhos estão em maioria, coíbem a indisciplina dos mais jovens. Mas isso nem sempre acontece.” O motivo da evasão não é a repetência, pois os alunos jovens estão acostumados a ser promovidos, mas a concorrência dos cursos supletivos e suas promessas de conclusão “em dois meses” do segundo grau. “Muitos acabam migrando”, diz. “Mas onde trabalho, pela condição financeira, poucos.” A qualidade “diferenciada”, segundo Raimundo, ocorre porque o professor se adapta aos anseios dos alunos e muda a metodologia de trabalho. “Os professores do noturno têm uma disposição maior. Sabem que trabalham com pessoas mais bem informadas, capazes de se submeter a mais cobrança.” As escolas não possuem lanchonete e o comércio local fecha às 20h. Numa escola ao lado, um aluno levava lanches para vender na caixa de isopor, mas foi proibido.

“Poucas escolas conseguem prover a merenda no noturno”, diz Raimundo. “E o aluno não pode jantar antes de ir à escola.” Não há biblioteca, sala de informática ou atividades extraclasse. Na hora de ir para casa, mais problemas.

“Quando os alunos saem da escola está tudo apagado, escuro”, conta o professor. O último ônibus para o centro passa entre 22h20 e 22h40. “Há professores que não têm como voltar para casa sem carona.” (FC)


Por uma aula “mais viva”

As escolas resistem a criar programas que amenizem as dificuldades do ensino noturno.

A avaliação é de Rose Neubauer, secretária de Educação do governo paulista entre 1995 e 2002. Ela destaca duas soluções, a criação de salas ambientes e a matrícula por disciplina. “A rede estadual tem autonomia para implementar a matrícula por disciplina, mas não o faz, porque isso implica mudar toda a organização da escola”, avalia.

Por outro lado, poucas escolas têm estrutura para montar salas ambientes – o que poderia amenizar o cansaço da longa jornada do estudante da noite. “A aula puramente expositiva é insuportável para esse estudante. Se não é atrativo, o aluno fica agressivo com escola e professor.” Na visão da pesquisadora da Universidade de São Paulo, a escola precisa apostar no sucesso do estudante.

“É preciso que ele seja cooptado pela escola em vez da marginalidade”, afirma. “Vemos que, quando a criança consegue acabar o primeiro grau e o segundo, há uma enorme queda no envolvimento com o tráfico e no consumo de droga.” Para a especialista, a escola noturna não deu conta da sua clientela. “Sabemos que 90% do ensino médio e fundamental, na escola pública, é voltado para classe média e pobres.

Esse pessoal que vai à noite é o que mais precisa da escola.” Ela diz que é preciso pensar em práticas adequadas a essa clientela. “Só vamos fazer um ensino adequado se lembrarmos que esse jovem é diferente do jovem de 20 anos atrás e do jovem do diurno”, avalia. “Não pode ter menos conteúdo, mas a aula tem que ser mais viva.

Não adianta programa de fim de semana, que pode diminuir a violência, mas não diminui as taxas de evasão.” (FC)

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