Uma fome que não tem fim

Obesidade infantil vira epidemia, é tratada como questão de saúde pública, nos EUA, e preocupa educadores em todo o mundo; papel da escola é determinante e pode auxiliar – ou prejudicar – o tratamento

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Jéssika Torrezan

Elefante, balofa, rolha de poço, Faustão, gorda, baleia, saco de areia – era como os meninos da escola se referiam à Juliana Reis, de 10 anos. “Me chamavam de tudo que se possa imaginar. Aí eu batia neles, principalmente porque eles eram menores que eu”, conta. A mãe, Eliana Pereira Reis Cardoso, afirma que Juliana comia por “três pessoas adultas” antes de começar o tratamento no grupo de endocrinologia do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo.



A obesidade infantil tem aumentado muito nos últimos anos, a ponto de ser tratada por especialistas como uma epidemia. “Cada vez mais a obesidade está aumentando, principalmente nas crianças”, afirma Sandra Vilares, coordenadora da Liga de Obesidade Infantil do Hospital das Clínicas (HC) da USP, em São Paulo. “Estima-se que mais de 40% da população brasileira esteja com sobrepeso, ou seja, obesa”, diz.



E é na escola que os gordinhos sofrem mais preconceito, como no caso de Juliana. Além das ofensas e da discriminação – principalmente nas aulas que exigem atividades físicas -, as cantinas são consideradas “uma tentação” para quem está acima do peso. “Eu comia o lanche que levava de casa, o que a escola dava e comprava doces na cantina”, afirma.



Segundo Ary Lopes Cardoso, médico nutrólogo e chefe da unidade de nutrologia do HC de São Paulo, as cantinas oferecem alimentos de péssima qualidade nutricional para as crianças. “Aquilo é veneno para todas elas, não só as obesas”, condena Cardoso, referindo-se aos salgados fritos e industrializados, refrigerantes, lanches e toda a gama de doces, balas e chicletes.



Algumas escolas já cuidam da alimentação de seus alunos, mas ainda são minoria no país. “A escola tem de se preocupar com o cardápio oferecido e fazer um programa de nutrição para essas crianças e adolescentes”, defende o nutrólogo.



Para Sandra Vilares, o problema não se restringe às cantinas. “Enquanto muitas cantinas servem alimentos hipercalóricos, escolas que atendem comunidades carentes servem macarrão, por exemplo, às 9 horas, porque acham que as crianças não comem em casa”, explica. “E, em casa, elas comem, principalmente hambúrguer, salsicha, pão, que são coisas que custam barato. Essas crianças consomem 4 mil calorias diárias, é muita coisa, e acabam também com excesso de peso.”



Sandra propõe que as escolas se transformem no espaço de recreação que as crianças perderam nas ruas. “As crianças não têm mais espaço para se exercitar; a escola deveria deixar a criança ficar mais tempo só para brincar, para se exercitar, já que os pais acham as ruas muito perigosas”, sugere.





Bons exemplos –



No Rio de Janeiro (RJ), escolas públicas e particulares estão desde março proibidas de vender uma série de produtos em suas cantinas. Segundo a portaria da prefeitura, os colégios não podem comercializar alimentos que, se ingeridos com freqüência, possam fazer mal à saúde de crianças e adolescentes.

N


a lista de proibições estão refrigerantes, frituras em geral (batata frita, salgadinhos), biscoito recheado, sorvetes cremosos, picolés (à exceção dos de fruta), balas, caramelos, pirulitos e chicletes. As cantinas tiveram de se adaptar à portaria, sob pena de cassação do registro de funcionamento da escola e do alvará de funcionamento das cantinas nas Secretarias Municipais de Educação e Saúde.



Segundo Leila Schiesare, coordenadora do colégio carioca MV1 – Tijuca, a medida não trouxe problemas para a escola. “Incluímos em nosso cardápio sanduíches e sucos naturais, conforme o determinado.” Para Maria Luiza Grego, do colégio Vicente Licínio Cardoso, também do Rio de Janeiro (RJ), a medida está sendo cumprida, mas não impede o consumo dos alimentos vetados: “Tem muita criança que traz o lanche de casa com alguns alimentos da lista, não podemos proibir.” Leila, do MV1, conta que, no início, os alunos estranharam um pouco, mas o problema foi resolvido. “Hoje, todo mundo quer ser ‘sarado'”, acredita. “O açaí é um dos alimentos prediletos da garotada.”



Em Florianópolis, desde 2001, uma lei municipal proíbe a venda de salgados fritos, industrializados, balas, chicletes, refrigerantes e doces nas cantinas das escolas municipais. Segundo Cleusa Regina Silvano, chefe da Coordenadoria de Alimentação Escolar da Secretaria Municipal de Educação, os resultados já têm aparecido. “Desde que a lei entrou em vigor, notou-se um aumento no consumo da alimentação fornecida pelas escolas, que é balanceada, elaborada por nutricionistas.”



Além do cardápio equilibrado, existe um trabalho permanente de conscientização, por meio de palestras periódicas com nutricionistas. Muitas escolas fecharam as cantinas que existiam. “As novas unidades escolares construídas não têm nem espaço mais para as cantinas. As crianças seguem o cardápio da escola e se alimentam de modo correto”, explica Cleusa.



Em Brasília, um projeto de lei da deputada Arlete Sampaio (PT) também prevê a regulamentação dos alimentos vendidos nas cantinas e espera votação na Câmara Legislativa do Distrito Federal.


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