Uma experiência esquecida

As aulas de biblioteca e a atuação dos alunos-bibliotecários, dois símbolos da valorização do espaço de leitura da Escola Caetano de Campos, entre os …

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As aulas de biblioteca e a atuação dos alunos-bibliotecários, dois símbolos da valorização do espaço de leitura da Escola Caetano de Campos, entre os anos 1930 e 1960

Criada em 28 de maio de 1925, por iniciativa do professor Carlos Alberto Gomes Cardim, então diretor da Escola Normal da capital paulista, com o auxílio dos professores João Batista de Brito e Renato Braga, a Biblioteca Infantil Caetano de Campos foi a primeira no gênero em todo o Brasil. Sua organização ficou inicialmente a cargo da professora Dulce Bressane, até agosto de 1927, quando passou aos cuidados da professora Nísia Pereira Bueno, até 1929, momento em que foi fechada e seus livros recolhidos à Biblioteca do Curso Normal. Reaberta em 1933, ficou sob a direção da professora Lenyra Fracarolli, logo substituída pela professora Dijorah Carvalho dos Santos, que ficou no cargo até 1935, quando a biblioteca foi novamente fechada para a construção do 3o andar do prédio na praça da República, no centro de São Paulo. Só veio a ser reaberta, em 1936, já sob os cuidados de Iracema Marques da Silveira, que nela permaneceu por 30 anos até sua aposentadoria em 1966.

A última reorganização da Biblioteca Infantil trazia como novidades a elaboração de estatutos próprios, sua manutenção pela Associação Auxiliar da Escola e, a partir de julho de 1936, a publicação do jornalzinho Nosso esforço, feito e dirigido pelos alunos do curso primário. A experiência de Lenyra Fraccaroli na direção da Biblioteca Infantil Caetano de Campos propiciou-lhe o convite para organizar e instalar, junto ao Departamento de Cultura, a Biblioteca Infantil Municipal. Inaugurada em 14 de abril de 1936 (e a partir de 1955, denominada Biblioteca Infantil Monteiro Lobato), ficou sob a responsabilidade de Fraccaroli até sua aposentadoria em 1961.

Duas experiências com bibliotecas infantis públicas de longa duração, aproximadamente 30 anos, e iniciadas no interior do Instituto de Educação Caetano Campos foram instaladas na cidade de São Paulo, no ano de 1936. O ano, aliás, serviria de marco a outras iniciativas no campo bibliotecal: a criação da Divisão de Bibliotecas da Prefeitura Municipal de São Paulo e da Escola de Biblioteconomia a ela vinculada (origem da Escola de Biblioteconomia anexa à Escola Livre de Sociologia e Política). As práticas bibliotecárias estavam no centro da atenção. Não apenas a regulação das bibliotecas públicas e a regulamentação da profissão do bibliotecário eram temas de interesse, como a instalação de bibliotecas escolares e as atividades dos clubes de leitura eram percebidas como sendas de renovação do ensino por educadores no período.

Na expectativa de destacar aspectos das práticas escolares em circulação no espaço bibliotecal nos anos 1930 a 1960 e com o intuito de oferecer subsídios ao debate atual sobre as políticas públicas de promoção da leitura no ensino fundamental, detenho-me na análise da Biblioteca Infantil da Escola Primária Caetano de Campos, sob a administração de Iracema Silveira.

Em 1937, um ano depois de sua reabertura, a biblioteca comemorava a entrega dos móveis novos, adequados à estatura dos leitores mirins, mandados fazer especialmente no Liceu de Artes e Ofícios. A inauguração do mobiliário foi festejada pela escola e registrada em inúmeras fotografias: uma tradição que marcou a história da biblioteca a partir desse momento. Dois álbuns fotográficos, localizáveis no acervo da Caetano de Campos, narram a história dos diferentes espaços ocupados pela biblioteca ao longo de 30 anos e das atividades desempenhadas pelos alunos-bibliotecários.

Responsáveis pela leitura dos livros novos e sua catalogação através de um sistema criado pela própria Iracema Silveira, com vistas a facilitar a consulta dos leitores mirins; encarregados também pelo atendimento e orientação de leitura aos colegas e pela correspondência com autores de livros infantis, os alunos-bibliotecários eram escolhidos entre os estudantes da 3ª à 5ª série do ensino primário que se apresentavam voluntariamente para a atividade, desenvolvida fora do horário de aulas. Supervisionados pela bibliotecária, velavam, ainda, pela redação, revisão e distribuição do jornalzinho Nosso esforço, publicado mensalmente desde sua criação.

Com os objetivos de incentivo ao gosto da leitura, despertar a curiosidade pelos livros, enriquecer o vocabulário infantil, estabelecer contato entre os autores de livros infantis e as crianças e estreitar os laços entre a bibliotecária e os alunos, era realizada na Biblioteca Infantil a "Hora do Conto". Autores convidados ou a bibliotecária narravam histórias, que os alunos eram estimulados a dramatizar, contando com o auxílio ou não da professora da classe. Incluído no quadriculado do horário da escola primária, o tempo de biblioteca assegurava a cada classe a freqüência semanal ao acervo e a participação nas atividades previstas por Iracema Silveira.

Após a leitura, os alunos eram instados a preencher uma ficha, contendo as seguintes informações: nome da obra, nome do autor, data do início da leitura, data do término da leitura, Conhece outras obras do mesmo autor?, Quais?, Que achou do livro?, É realidade ou ficção?, Que mais o impressionou?, Por quê?. No verso da ficha, o leitor deveria fazer uma espécie de sinopse do livro. Capeadas e arquivadas, as fichas compunham um importante repertório das formas de ler e interpretar o lido no período.

Só para se ter uma idéia da consulta, apenas no mês de outubro de 1942, foram pedidos 2.073 livros e lidos 1.528. Dentre os autores nacionais preferidos pelas crianças e apurados nos relatórios estatísticos mensais elaborados pela bibliotecária, estavam Ofélia e Narbal Fontes, Monteiro Lobato, Maria Alves Veloso, Viriato Correia, Thales de Andrade e Alaíde Lisboa de Oliveira. Em 1942, a Biblioteca Infantil contava com um acervo de 2.523 volumes, dos quais 979 títulos eram de literatura infantil, 474 de uso didático, contendo duplicatas e revistas. Esse acervo atingiria, em 1966, 7.742 volumes. Compunha-se também de dossiês produzidos a pedido de professores sobre temas abordados em sala de aula e objeto de pesquisas escolares.

Arquivados alfabeticamente versavam sobre tópicos de história, geografia, biologia, entre outras, bem como sobre autores de livros, personagens ilustres e professores da casa, num total aproximado de 800 pastas.

A Biblioteca Infantil acolhia ainda o museu escolar e, a partir de 1943, as seções de discoteca e filmoteca. Congregando todos esses materiais pedagógicos, a biblioteca constituía-se em um lugar de memória do ensino primário em São Paulo (mesmo reconhecendo o caráter modelar da Escola Primária Caetano de Campos). Os documentos, preservados ainda hoje pelo Memorial do Centro de Referência em Educação Mario Covas, são os poucos vestígios de práticas escolares pretéritas a sobreviver no tempo.

A extensa atividade da biblioteca escolar não seria possível se a ela não fossem conferidos materiais específicos (móveis, livros, revistas), mas, principalmente, se não fosse no seu interior desenhada uma nova relação entre professor e aluno, uma relação pedagógica centrada na leitura e no cuidado dos livros; bem como não fossem delegados à biblioteca um espaço próprio (a sala de biblioteca) no interior do prédio escolar e um tempo determinado (a aula de biblioteca) na grade curricular.

Associada ao esforço individual de cada aluno-bibliotecário e da professora-bibliotecária na sua gestão, a inserção no tempo e no espaço institucional garantia a produção (e a permanência) de práticas de leitura escolarizada.

Os antigos alunos da Escola Primária Caetano de Campos lembram com carinho de Iracema. Em 30 anos como professora-bibliotecária da instituição, teve contato com estudantes de diferentes idades, acompanhando-os em suas tarefas escolares e ocupando-se em disseminar o prazer de ler (para fruição e estudo). Teria sido ela responsável por despertar o gosto pela leitura (temática recorrente no debate educacional) nessas gerações? A resposta não é simples. Escola modelar, a Caetano de Campos por muitos anos reuniu um corpo docente e discente selecionado, com forte homogeneidade cultural.  O que o relato dessa experiência, então, pode nos auxiliar hoje, quando a escola se afirma como inclusiva e multicultural?
Atualmente, os investimentos públicos em bibliotecas escolares têm sido canalizados para a distribuição de livros às escolas, frequentemente desconsiderando o provimento de instalações adequadas à conservação do acervo e à leitura (espaço específico para a biblioteca), a inclusão de freqüên­cia à biblioteca no quadro de horários (tempo determinado institucionalmente) e a administração, guarda e uso do acervo pela comunidade escolar. Uma ação específica de formação de professores-bibliotecários e o envolvimento de alunos com o processo de gestão da biblioteca e de promoção da leitura são temas pouco abordados. Como resultante, em boa parte das escolas públicas, a biblioteca escolar representa um depósito de livros e seu uso é uma atividade isolada, um recurso insurgente para cobrir "hora vaga", sem programação específica ou exercício didático complementar ao trabalho em sala de aula.

Ao voltar nossos olhos para a atuação de Iracema Silveira na Biblioteca Infantil Caetano de Campos, percebemos que valorizar a leitura é também valorizar os espaços, tempos e sujeitos envolvidos no ato de ler (para além da difusão de impressos), afirmando a biblioteca escolar como um lugar de trabalho pedagógico sistemático, prestigiado no conjunto das atividades escolares.


Diana Gonçalves Vidal é professora de história da educação da Faculdade de Educação da USP e autora de Culturas escolares (Editores Associados, 2005)

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