Uma ética da obediência?

Os dilemas da relação entre adultos e crianças

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Ainda não fazia uma semana que se iniciara nossa temporada de estudos em Paris. Moana tinha sua primeira experiência em um supermercado francês. Mesmo em tempos de globalização do consumo, uma criança de quatro anos se encanta com pequenas diferenças em objetos e práticas culturais. Ao chegarmos ao caixa ela notou uma porta automática que se abria cada vez que alguém dela se aproximava. Largou minha mão e para lá correu, a despeito de meus avisos e protestos. Imediatamente uma senhora de pouco mais de sessenta anos me alertou sem qualquer constrangimento: “é preciso ser severo! Ela tem de aprender a obedecer”.

Diante de minha perplexidade silenciosa, ela repetiu suas palavras, desta feita em espanhol. Imediatamente lhe esclareci que falava francês, que havia compreendido suas palavras e que meu espanto se devia antes à distância de nossas concepções e práticas educativas do que a mal-entendidos linguísticos. Para ela, como para uma parte bastante considerável dos franceses de sua idade, a obediência ao adulto é, em si, uma virtude que deve ser cultivada desde a mais tenra idade. A contenção rígida, a adaptação às normas de um mundo adulto lhe parecia ser algo acima de qualquer sorte de questionamento; daí sua perplexidade quando lhe respondi que também desejava ser obedecido, mas não de forma que minha ordem dispensasse qualquer apresentação de razões e argumentos.

O episódio, em sua banalidade cotidiana, é um convite à interrogação sobre um grave dilema no campo da formação ética. Por um lado assistimos, de forma cada vez mais frequente e intensa, a uma recusa por parte dos adultos de sua responsabilidade na apresentação e no cultivo de normas e regras que dizem respeito à convivência das crianças com um mundo comum e público. O resultado tem sido a formação de pequenos tiranos que creem poder fazer de seus desejos a norma, de seus caprichos as regras. Por outro lado, a resposta a essa tendência tem sido o louvor à obediência e à submissão às normas como se estas fossem as mais altas virtudes cívicas, capazes de restaurar uma suposta ordem perdida.

Em face dessa crença é sempre bom lembrar que Eichman, o oficial nazista responsável pela logística da remoção e transporte de judeus para os campos de extermínio, alegava em sua defesa que ele simplesmente cumprira diligentemente as ordens que lhe foram dadas. Ele obedecia por dever – um “dever moral”, segundo suas próprias palavras! – independentemente de suas convicções pessoais. A recusa à reflexão, à responsabilidade pessoal pelo exame do sentido ético de uma regra, norma ou ação transforma-se, em seu discurso, no fundamento de uma suposta “ética da obediência”. Em sua substância o argumento de Eichman não difere dos que defendem os que cometeram torturas e assassinatos durante o regime militar no Brasil alegando o cumprimento de ordens. Nos dois casos – como a exemplo de tantos pequenos episódios cotidianos – a obediência cega substitui o ajuizamento ético; o cumprimento da regra dispensa a decisão moral.

Ao final de nosso pequeno embate pedagógico a distinta senhora concluiu: “seja como for, senhor, é preciso se adaptar. É preciso se adaptar!”. E pensei comigo: a “ética da obediência” vincula-se à “lógica da adaptação”. E de nós cobram o mesmo preço: a destruição de nossas capacidades de reflexão, de ajuizamento próprio e de decisão pessoal.

*José Sérgio Fonseca de Carvalho
Doutor em filosofia da educação pela Feusp e pesquisador convidado da Universidade Paris VII
jsfc@editorasegmento.com.br

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