Uma defesa da escola

Livro analisa as vicissitudes da forma escolar e as críticas ao seu sentido atual

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A editora Autêntica acaba de lançar Em defesa da escola: uma questão pública, dos filósofos belgas Jan Masschelein e Maarten Simons. Os autores vão de encontro à tendência de se negar qualquer capacidade emancipadora à escola como instituição social. Não que ignorem as críticas a um suposto caráter ideológico de seus conteúdos, a uma alegada alienação das atividades escolares em relação às demandas contemporâneas ou ao declarado desinteresse dos jovens em relação a suas práticas. Ao contrário, é em resposta que empreendem uma análise crítica do sentido histórico da invenção da escola e das diversas tentativas de “domar” seu potencial compromisso com a renovação de um mundo público.
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Para os pensadores belgas, esse potencial emancipador da escola aflora com mais clareza em seu ato fundacional: “a escola é uma invenção (política) específica da polis grega que surgiu como uma usurpação do privilégio das elites aristocráticas e militares na Grécia antiga. Na escola grega não era mais a origem de alguém, sua raça ou ‘natureza’ que justificava seu pertencimento à classe do bom ou do sábio. A escola grega tornou inoperante a conexão arcaica que liga marcadores pessoais (raça, natureza, origem etc.) à lista de ocupações correspondentes aceitáveis (trabalhar a terra, engajar-se no negócio e no comércio, estudar e praticar)”. E, de fato, há uma coincidência histórica – infelizmente não explorada pelos autores – entre o declínio do conceito homérico de “virtude” (a excelência moral) e o surgimento da escola – a skholé – compreendida como um tempo livre; um tempo de formação; um tempo em que se estudam e se praticam saberes visando a constituição de um sujeito em suas dimensões ética e política. Ora, se na sociedade heroica a virtude se associava ao cumprimento das expectativas sociais de um lugar herdado e predefinido, nas polei democráticas ela passa a ser o atributo de uma formação.


A escola é, nesse sentido, criada como um signo do desejo político de igualdade, pois independentemente de qualquer predestinação, nela os alunos são apresentados a uma matéria cujo estudo compartilhado a transforma em um objeto comum e público. Sua invenção corresponde a um esforço para criar um tempo e um espaço que se coloca à parte das demandas de produção e em favor de um tempo de formação. Nela um saber exige prática, mas não aplicação.


Ora, é esse caráter liberador que se tenta domesticar ao pedir à escola que ela se curve ao interesse do imediato; que se submeta à lógica da seletividade supostamente meritocrática ou ainda quando dela se espera o envolvimento imediato na solução de problemas sociais. Para Masschelein e Simons as vicissitudes da forma escolar revelam exatamente esse conflito entre seu potencial renovador e mesmo revolucionário – que se nega à instrumentalização do presente e à manipulação do futuro – e as tentativas de domesticação de suas práticas e de seu sentido histórico. Ao procurar desvelar a especificidade do domínio escolar, os autores nos convidam a pôr em questão as finalidades – sejam elas econômicas, políticas ou sociais – que passamos a associar de forma mecânica e acrítica à escola, à sua história e a seus agentes. E ao assim fazer, renovam a esperança daqueles que enxergam na escola uma oportunidade que se oferece aos mais jovens de gozar de um tempo de formação.


*José Sérgio Fonseca de Carvalho
Doutor em filosofia da educação pela Feusp e pesquisador convidado da Universidade Paris VII
jsfc@editorasegmento.com.br

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