Um sentido para o Egito

Confusões e tensões entre significado e finalidade

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Em plena festa, um grupo de professores discutia política e educação. A despeito do avançado da hora, o ânimo não esmorecia. Tudo se iniciara com um questionamento contundente: "
Para que ensinar a história do Egito àqueles meninos? Qual o sentido de se falar de um faraó para alguém que é cotidianamente humilhado pela polícia e pela escola só porque é jovem, pobre e negro… Eu quero é discutir com eles direitos humanos, discriminação, igualdade!

".

O discurso de Ivana ecoava uma forte convicção entre educadores progressistas: a de que uma "educação emancipadora" vincula os conteúdos às experiências imediatas dos alunos e a seus dilemas e anseios cotidianos.

Sua indignação me parecia justa; os ideais que a moviam, nobres. Mas a solução apresentada, uma fonte de possíveis equívocos. É certo que muitas vezes os conteúdos escolares parecem não fazer sentido para aqueles a quem se destinam. E que a ausência desse sentido retira da experiência escolar seu caráter formativo, reduzindo o conhecimento à posse de uma informação inerte. Mas crer que a vinculação com o cotidiano e o imediato seja a chave para a atribuição de um
significado

para experiência é deixar-se iludir por uma retórica que confunde a
finalidade

com o
sentido

, o
imediato

com o
concreto

.   

A
finalidade

de um objeto (ou ação) sempre indica que este (a) é
um meio

para um outro fim: o dinheiro é
um meio

para comprar uma mesa, que é
um meio

para dispor o computador, que é
um meio

para escrever artigos, que é
um meio

para ganhar seu sustento … numa cadeia infinita de meios que podem ser todos carentes de qualquer sentido ou
significado

intrínseco. Por outro lado, há ações e experiências que não têm uma
finalidade

, embora possam ter um profundo
sentido

, inclusive formativo. Para que
servem

a poesia, a amizade, a pelada de futebol ou o amor? Claro que sempre podemos ler poesia
para

passar no vestibular, ter um amigo
para

nos auxiliar nos apuros financeiros; mas ao assim fazer, ao atribuir para essas experiências uma
finalidade

extrínseca, corremos o risco de perder seu
significado

intrínseco, sua razão de ser.

Talvez a história do Egito Antigo não tenha nenhuma
finalidade

ou serventia imediata. Mas ela pode – ou não – ter
sentido

na formação de um aluno, a depender de como a tratamos, das razões pelas quais a escolhemos como parte integrante de um currículo. Ela também pode ser só um
meio

sem sentido para outro
fim

, igualmente destituído de
significado

. Mas pode ser um mergulho profundo noutro modo de vida, um contraponto para nossos valores, uma forma de experiência com o
humano

.

O caráter trágico da existência desse enorme contingente de jovens mergulhados na miséria econômica e existencial só poderá ser superado se lograrmos lhes propor narrativas que, mesmo distantes, atribuam um
sentido

à experiência do viver. Se ultrapassarmos o meramente
vivido

em favor da compreensão de sua constituição; se percebermos que o
imediato

não é, por si, inteligível. Se a eles oferecermos experiências simbólicas enriquecedoras: narrativas históricas de Palmares ou do Egito, escritos de Cora Coralina ou de Guimarães Rosa; se não renunciarmos à ideia de que merecem o melhor e que não necessariamente este é o mais próximo nem o mais imediato.


José Sérgio Fonseca de Carvalho


Doutor em filosofia da educação pela Feusp



jsfc@editorasegmento.com.br

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