Um piloto muito especial

A praia do Campeche, em Florianópolis/SC, abriga, desde novembro último, o Espaço Zeperri, criado em homenagem ao aviador
e escritor Saint-Exupéry, ilustre amigo de um pescador local

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Marco do Campeche: local homenageia os precursores da aviação comercial

Na cidade de Florianópolis, capital de Santa Catarina, uma simples palavra deu origem a muita história. E também fez História, com maiúscula. Trata-se de "campeche", que designa um dos bairros da capital catarinense e originou-se, segundo os pescadores locais, na maneira como aviadores franceses que ali pousavam nos anos de 1920 chamavam suas habitações. Ao verem um aglomerado de cabanas, os primeiros pilotos da Aéropostale, companhia de correio aéreo francesa de grande repercussão em toda a América Latina entre os anos de 1927 e 1931, os pilotos o teriam denominado, naturalmente, de "camp de pêche", ou seja, aldeia de pescadores.

Mas esse não seria o único legado da Aéropostale, cujos pilotos eram os ases da aviação da época, a Florianópolis. Entre eles, estava Antoine de Saint-Exupéry, autor de um dos livros mais lidos e traduzidos no mundo desde que o escreveu em 1943, O Pequeno Príncipe. Em 1927, Saint-Ex, como era chamado pelos colegas, foi transferido para o posto da Aeropostal Argentina, em Buenos Aires, e teria, na ocasião, feito alguns pousos no Campeche, onde havia um aeródromo equipado e onde as tripulações podiam pernoitar. Esse lugar, que os locais chamam até hoje de "popote" (rancho, cozinha ou marmita em francês), bem como o campo de aviação, ainda existem no local, onde há um monumento em homenagem aos pilotos. O mais instigante, porém, é que Saint-Exupéry fez laços de amizade com o pescador Manoel Rafael Inácio, com quem tomava algumas refeições. O amigo ilhéu, conhecido por seu Deca, não conseguia pronunciar seu nome estrangeiro e o denominou Zé Perri. Assim, quando sabia pelo rádio que o "Zé Perri" vinha chegando, pescava e sua mãe cozinhava para eles.

Seu Deca faleceu em 1983 e coube a um de seus filhos, Getúlio Manoel Inácio, narrar a amizade de seu pai num pequeno livro intitulado Deca e Zé Perri (2001). Embora Getúlio seja aposentado pela aeronáutica como músico, nunca abandonou a pesca artesanal e ainda sai com o barco de seu pai. Esse fato gerou preconceitos e sua narrativa foi considerada como "história de pescador".

No entanto, surpreendendo uns e outros, o fato tomou vulto. Gerson Amorim, pequeno empresário, batizou, há cinco anos, sua pousada com o nome Zeperri, em homenagem ao relato de seu Deca. O movimento pela cultura local foi definitivamente cerzido em 2007. A família herdeira de Saint-Exupéry, na França, enviou ao empresário uma coleção de 24 pôsteres sobre a vida e a obra do piloto-escritor. Estes, traduzidos para o português e para o inglês e somados a banners feitos no Brasil sobre as pesquisas a respeito do assunto e outros objetos, fizeram nascer o Espaço Zeperri, que tem ainda um café temático e é aberto à visitação. A inauguração contou com a presença de uma sobrinha-neta do escritor, vinda da França para conhecer o local e "seguir as pegadas" do tio. E assim fez, não raras vezes emocionada com o que encontrou e com a acolhida dos catarinenses. A exposição será permanente.


A festa de inaguração do Espaço Zeperri, na Praia do Campeche, em Florianópolis

O Espaço Zeperri recupera a história e atualiza as pesquisas. Além disso, tem por objetivo desmitificar a idéia de que Saint-Exupéry é autor tão-somente do Pequeno Príncipe. Embora essa seja sua obra mais conhecida, ele escreveu muitos outros romances, reportagens e fez desenhos durante toda a vida, rabiscando guardanapos, folhas avulsas e o que mais servisse de suporte. Para além do valor indiscutível de sua literatura, vale ressaltar que seus livros contam muito da vida de aviador e ainda revelam as mazelas e vitórias dessa época de pioneirismo nos ares, portanto têm valor também documental. Exemplares de seus romances fazem parte da exposição no Campeche para mostrar isso.

Getúlio Inácio, por sua vez, retomou a verdade de seu pai, seu Deca, que era analfabeto. Tem trabalhado com escolas, revelando às crianças a história de sua cidade. Agora, como colaborador na montagem do Espaço Zeperri, poderá fazer isso de modo mais sistemático, pois a partir de 2008 o local receberá escolas e se transformará num centro de extensão à educação, onde será possível, sobretudo, aprender que a cultura e os laços entre povos diferentes não se limitam a questões lingüísticas.

Saint-Exupéry, que nasceu em 1900, foi aviador, mas morreu no mar de Marselha, provavelmente abatido por um caça alemão, em 1944. Somente em 2002 seu avião foi encontrado, e por um insólito motivo: um pescador do Mediterrâneo puxou em sua rede o bracelete que o piloto usava, com seu nome gravado. Assim, depois de muitas buscas, chegou-se aos destroços de seu avião. Não era a primeira vez que seu destino se ligava ao mar e a um pescador.

A fortuna da amizade de seu Deca e "Zé Perri" trouxe uma riqueza cultural ao Campeche; mais do que saber que um estrangeiro tão célebre pousava na ilha, as crianças vão tomar conhecimento de algumas tradições que, não fosse o resgate, desapareceriam. Há os engenhos que produziam a farinha do beiju de que tanto gostava o piloto-escritor, o barco de pesca artesanal de seu Deca, perfeitamente conservado, e a própria pesca. Estão juntas a história do aviador de um país distante e a do pescador de uma tradição ameaçada. Elementos suficientes para chamar a atenção das crianças sobre um mundo que já era globalizado sem que se soubesse, no belo e complexo planeta que um dia o Pequeno Príncipe iria visitar.

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