Um ônibus, duas professoras

Cristina dedica três horas de cada noite ao preparo de suas aulas O ônibus escolar que leva e traz alunos e professores do centro …

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Cristina dedica três horas de cada noite ao preparo de suas aulas

O ônibus escolar que leva e traz alunos e professores do centro de Iporanga para bairros mais afastados tem dois pontos de parada na cidade: o hospital e o mercado. Na parada do hospital, sobe Edvalda Ursulina da Silva, 29 anos, casada, mãe de três filhos e professora de 1ª e 2ª séries na Emeief José Maciel da Silva Castelhanos. Articulada, Edvalda participa ativamente das discussões com a Secretaria Municipal de Educação sobre a introdução das apostilas nas salas multisseriadas. Recentemente, ela se envolveu em outro debate: a superlotação do ônibus escolar. "Peguei a máquina do meu irmão e fui lá tirar fotos para denunciar. Muitas crianças estavam indo em pé, mesmo com os professores já fazendo isso. Agora resolveu", conta. Sua primeira formação veio com o magistério, seguido do Curso Normal Superior. Por último, ela fez a pós-graduação l
ato sensu

em Educação Especial, ofertada pela secretaria em 2007. Atualmente, não tem tempo para se dedicar à carreira. Sente-se pressionada com a cobrança pelo prazo bimestral para terminar as apostilas, e também sente falta da liberdade que tinha antes para construir sua própria aula. "Me incomoda o material vir pronto", revela. Nas últimas semanas de setembro, Edvalda estava angustiada e procurou o irmão. Queria um livro para ler, "para exercitar a mente", e, quem sabe, sentir menos estresse. "Ele tem um do Augusto Cury que eu quero ler", conta. Na estante de sua sala, um DVD sobressai: o do filme
Lula, o filho do Brasil

. "Ainda não vi inteiro!", avisa. A professora, que soma dez anos de docência, ainda busca respostas para o uso do apostilado nas multisseriadas. "Ninguém tem resposta sobre o que podemos fazer. É possível ter estresse na zona rural, sim!", brinca.

Na parada do mercado, outra professora que sobe no ônibus é Cristina Clara da Silva, 35 anos. Seu destino é a Emef Bairro Bento João. Cristina tem a mesma formação de Edvalda. Há dez anos trabalhando na rede municipal, mora em uma casa perto da igreja matriz da cidade. Enquanto faz o jantar para seu filho de 15 anos, conta que, apesar dos percalços, gosta de lecionar. A professora também está desmotivada por conta das apostilas, e acredita que o salário de sua categoria (aproximadamente R$ 815 para 32 horas semanais, segundo a própria) deveria ser alinhado ao piso nacional (R$ 1.025). Quando chega da escola, Cristina senta em seu "cantinho" de estudos e passa três horas preparando as aulas do dia seguinte – ela trabalha com nove alunos, distribuídos entre o pré, o primeiro e o segundo ciclo do ensino fundamental. O tempo que passa estudando é dedicado totalmente à apostila – ela não tem tempo de ler outros livros. Uma das coisas que chama a atenção de Cristina é o fato de seus estudantes nunca faltarem às aulas. Por isso, mesmo quando chove, ela dá um jeito de comparecer. "Quando está chovendo e o transporte não pega a gente depois de passar da balsa, coloco a bota e venho. É a única atividade relacionada com leitura que essas crianças têm na comunidade", diz.

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