Um mundo, uma escola

Como é possível usar os vídeos de Salman Khan para alimentar o que ele mesmo critica

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Há 50 anos, Fernando de Azevedo avisava: o que é bom para os Estados Unidos pode não ser bom para nós… Porém, novas modas, vindas do Norte, injetam plataformas digitais e laptops em escolas com práticas medievais.

Se, no Brasil, o nortear (aquilo que vem do Norte) sempre foi regra nas iniciativas de política educativa, agora, acontece um desnorte total. E as orientações (aquilo que vem do Oriente) que prevalecem nos projetos ditos inovadores são de natureza neocolonial. Creio ser necessário desorientar, talvez mesmo suliar. É isso mesmo o que quero dizer: as palavras produzem e reproduzem cultura.

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Ouso discordar parcialmente da crítica feita pelo Fernando, na grata surpresa de uma exceção. Um americano de nome Khan trouxe-nos um livro, em que nos fala de uma educação reinventada e faz as mesmas denúncias do Azevedo, do Lauro e outros ilustres e saudosos educadores brasileiros. Khan diz-nos que o velho sistema está fracassando e precisa ser repensado e que a educação formal tem de mudar.

São palavras de Salman Khan, excertos da sua obra Um mundo, uma escola, como aquelas que se seguem: A lição tradicional age contra os objetivos da educação pública (.) A aula acaba por se revelar um meio ineficiente de ensinar e aprender (.) A minha ideia de educação nunca foi a de que ela estaria completa com uma criança assistindo a vídeos no computador e resolvendo exercícios. Muito pelo contrário. Sempre sonhei em ser mais do que um recurso on-line. Sentíamos que estávamos em um ponto da história em que a educação podia ser repensada. Mas se alguns indicavam os vídeos a seus alunos como uma ferramenta suplementar, outros os usavam para repensar sua metodologia. E o que acontece nas escolas brasileiras? Os vídeos do Khan são usados como ele propõe, para acabar com as aulas, para repensar a metodologia? Não creio. Muito menos para reinventar a escola, como o Khan deseja.

Uma revista publicou fotos de crianças de uma favela de São Paulo, enfileiradas em sala de aula, exibindo, sorridentes, os seus laptops individuais. Por que se insiste no uso de plataformas digitais de ensino e em dotar cada aluno com um laptop? Para gerar monstrinhos adoradores de tela, na mera substituição do livro didático pelo computador?

Voltemos à leitura do livro do Khan… Ele convida-nos a acabar com a escola de sala de aula, turma, série, prova. Porém, um sistema educativo nas mãos de burocratas exerce seus podres poderes, impondo às escolas procedimentos medievais, num tempo da introdução acrítica de novas tecnologias. E, talvez afetados pelos vícios de que padecem os seus “superiores”, os professores que adotam os vídeos do Khan continuam na sua sala de aula, usando vídeos do Khan como complemento de aula, perenizando práticas que Khan critica. Aqueles que reclamam de o ter como referência apenas otimizaram o modelo prussiano de escola. Foi pior a emenda do que o soneto!

No Brasil de hoje, a tentação da disseminação em escala e de mostrar efeitos de curto prazo provocam a mesma cegueira branca naqueles que detêm os recursos e o poder de decidir. Ao invés de se apoiar projetos efetivamente alternativos, em escolas que já abrem caminhos para novas construções sociais, há quem fomente a prática de um ensino gerador de individualismo, através da injeção de tablets no cotidiano da escola, numa mesmice em versão digital. Lamentável!

*José Pacheco
Educador e escritor, ex-diretor da Escola da Ponte, em Vila das Aves (Portugal)
josepacheco@editorasegmento.com.br

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