Um lugar ao Sol

Educador pode ir além dos espaços já definidos pelo mercado

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Faoze Chibli

Paulo Vicente Morégola, coordenador de novas tecnologias do Colégio São Luís, é um caso emblemático de ascensão na carreira docente. Ele começou no São Luís como bedel da oitava série, já foi digitador e programador. À época, ele lecionava história. Bacharel pela Universidade de São Paulo, ensinou a disciplina durante nove anos em colégios, inclusive do Estado. Hoje, revela ter um “salário diferenciado para a área de educação”. Mas afirma que a liberdade de criação é mais importante: “Acho que eu não conseguiria trabalhar dentro de uma camisa de força”.


Outro cuja carreira educacional se tornou referência é Waldir Romero, diretor da escola municipal Comandante Garcia D’Ávila, que fica no Parque Peruche, na zona norte de São Paulo (SP). “A opção é política: a escola básica e pública atende à maioria da população brasileira”, assume Romero. O educador acompanhou diversos cursos na USP, na Pontifícia Universidade Católica e no Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial, mas afirma: “Aprendi muito como feirante,
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e pesquisador de mercado”. A Garcia D’ Ávila se localiza em região de periferia e acolhe desde estudantes muito pobres até os de classe média. Sob a direção de Romero, escola abriu as portas à comunidade local e transformou a relação de seus moradores com a educação.

Ele explica as propostas centrais de seu projeto:


“Estou comprometido com a comunidade do Parque Peruche e juntos vamos mudar a realidade. O nosso objetivo é profissionalizar jovens para o mundo do samba, do carnaval. No nosso bairro, há três escolas de samba: Unidos do Peruche, Império de Casa Verde e Morro da Casa Verde. O povo respira e transpira samba o ano inteiro. Portanto a saída é construir um projeto de inserção de todos a partir dessa ótica. A ambição é transformar o Peruche conhecido internacionalmente como um pólo de arte e cultura. O objetivo é melhorar a auto-estima, gerar renda, emprego e crescimento da região. O enfoque é comunitário, todos são convidados para se sentar à mesa, discutir, plantar o trigo e compartilhar o pão”.


Por sua vez, Paulo Morégola atua num dos cenários mais conservadores do sistema – um tradicional colégio de padres jesuítas, situado na região da Avenida Paulista e freqüentado pela elite do bairro. Ele lembra que “em suas origens, a escola não foi pensada como um centro de democracia do saber e da construção do conhecimento” Porém, para ele, quando a educação passou a ser um direito constitucional inalienável, criou-se uma “tensão positiva”, no sentido de debater sua adequação. O papel do educador e sua satisfação profissional também entraram em cheque.



Salário indireto
– Ambos os casos atestam que − além das as condições externas, a escola ou o governo − determinadas decisões tomadas pelo professor determinam seus caminhos profissionais. Muita gente que reflete sobre educação aponta para uma realidade no dia-a-dia do educador brasileiro, que é a busca por atividades coerentes com seus ideais. Todos concordam que um salário digno é fundamental. Mas não é tudo. Envolvimento com o projeto pedagógico e, em grau mais amplo, com um projeto de vida, são combustíveis essenciais no decorrer da carreira. Além de outros valores imensuráveis, como afeto e identidade − ou seja, a possibilidade de vir a ser mais do que uma peça anônima do sistema.


É exatamente o que defende Mario Sergio Cortella, que trabalhou ao lado de Paulo Freire [1921-1997], educador e pensador educacional mundialmente conhecido. Não titubeia ao afirmar que o salário não é o fator determinante para motivar as pessoas a darem aula. Entre 1989 e 1992, sua experiência estendeu-se ao campo administrativo, quando fez parte da equipe de Freire, então secretário de educação na prefeitura de Luiza Erundina em São Paulo (S P). Segundo depoimentos como o de Lisete Arelaro, pedagoga que atuou naquela equipe, a situação era de precariedade. Waldir Romero também era desse time e desfere: “A burocracia estatal suga as energias e se você não tiver coragem, formação e visão, ficará à mercê dessa draga”. Romero completa ao afirmar sobre a rede pública: “O trabalho é mais ousado e mais favorável a mudanças”


Gilberto Dimentein, jornalista e idealizador da ONG Cidade Escola Aprendiz também identifica a existência de motivações de certa forma imateriais na profissão docente. Ele considera um esforço permanentemente necessário “compartilhar o projeto pedagógico com os educadores”. E ressalta que “sentir-se trabalhando em conjunto” é requisito para o envolvimento do educador. Além de receber um salário de mercado, crê Dimenstein, os professores sonham em inovar e têm necessidade de se considerarem pioneiros.


Se o dinheiro condicionasse a escolha de uma profissão, não teríamos bombeiros e professores de escolas e universidades públicas às vezes concorridas, como a USP, ironiza Cortella. Para ele, a noção de que a escola particular paga melhor é questionável. Além disso, na análise dele, a diferença de qualidade entre escolas públicas e particulares é um mito: “Existem escolas boas e escolas ruins, em ambos os segmentos”.


Ele faz o cálculo e constata que, em 30 anos, somando-se benefícios como férias em dobro, aposentadoria e licença remunerada, o professor da rede pública leva vantagem. Além desses fatores, Mario Sergio Cortella destaca a multiplicidade social das redes de escolas do governo como outro valor agregado que favorece o amadurecimento do professor. Mas lamenta que, atualmente, o cidadão tenha menos tempo e condições materiais para se preparar, antes de se tornar educador. Engajar-se em um projeto coletivo é o caminho vislumbrado por Cortella. Trata-se de um passo indispensável para o funcionamento de políticas eficazes dentro e fora da sala de aula, crê. As pessoas envolvidas em um processo dessa natureza devem ter uma “atitude de formação permanente”, acrescenta o professor. “Só é bom ensinante quem é bom aprendente”, arremata.


O coordenador Paulo Morégula afirma que a escolha da profissão tem de ser por gosto pessoal. E é otimista em relação a uma das queixas mais recorrentes nas salas de professores: “Não estamos fadados a um salário miserável”. Para alguns, a escola pública é um ideal de vida a ser perseguido. Para outros, é preciso subverter tradições e reinventar o aprendizado. É fato que o professor, em qualquer lugar do mundo, encontra grandes desafios. Um dos maiores é perceber a riqueza de experiências com que está em contato. Mario Sergio Cortella cita, por exemplo, o retorno político, afetivo e amoroso do trabalho. Cabe ao educador usar isso para transformar sua realidade.


Paulo Morégula conta ter construído sua identidade como educador por meio da experiência como professor de informática. Nessa trajetória, ele admite que o setor privado seja mais instável. E pondera: “grande parte das escolas particulares são escolas pequenas, que pagam salários baixos e que são as mais atingidas pela concorrência”. Morégola observa que a educação é culturalmente estigmatizada no Brasil. “O professor não carrega o sentimento de que a sua profissão vale a pena”, critica.


Entretanto, na visão dele, há um horizonte se abrindo, porque a carreira pública vem carecendo de profissionais com um perfil “mais atual”. A busca por qualificação constante também marca a maioria dos profissionais considerados bem sucedidos. Morégola fez mais de 50 cursos e começou mais neste ano, de especialização em bancos de dados. Para aprimorar-se como gestor, cursa pós-graduação
lato sensu

na USP, em gestão de processos comunicacionais. Para ele, é desafiador lidar com um público tão diverso: pais, alunos, padres e educadores. Além dessa visão mais abrangente, a especialização proporcionou-lhe reconhecimento e promoção dentro do colégio.



Comunicação e Motivação
– Atualmente, o próprio Morégola contrata pessoas na área de informática para atuarem como monitores. E não basta serem bons técnicos: “Tem que gostar de gente”. Tanto a experiência do coordenador do São Luís quanto a de Waldir Romero, diretor de escola municipal, apontam para a capacidade de comunicação como habilidade
sine qua non

. Comunicação com a comunidade e com o público diretamente envolvido no convívio escolar.


Paulo Morégola coordena projetos que ele denomina “transdisciplinares”, pois abrangem várias matérias ao mesmo tempo. Recentemente, participou da criação de uma revista, cuja proposta era oferecer uma visão da comunidade escolar do São Luís. Para ele, essa atividade tinha o propósito de estabelecer uma ponte entre tecnologia e didática, entre conteúdos e pessoas. Para obter mais motivação em seu próprio trabalho, Waldir Romero também se voltou para a troca de experiências entre a população e a escola. Na região em que se localiza o colégio, o samba faz parte da vida local, com diversas escolas de samba das proximidades. Por sua própria conta e risco, Romero passou a realizar eventos abertos, em conjunto com essas agremiações. Ensaios, confraternizações e eleições de membros das escolas são algumas das atividades que ultrapassam os muros da Garcia D’ Ávila.


Assim como no colégio São Luís, as atividades de informática funcionam na escola como ferramenta de formação. Após adquirirem conhecimentos como, por exemplo, a confecção de sites, os alunos mais capacitados podem ajudar como monitores. Mas a identidade da escola municipal Garcia D’ Ávila não se resume a isso. Existe a opção de praticar esportes, aprender música e teatro. Grupos organizados, como o de representantes do movimento negro ou de religiões diversas, encontram lá um espaço para promover debates e encontros. Até casamentos e batizados acontecem na escola, que já permanecia aberta aos finais de semana e nas férias, muito antes dessa prática ser introduzida pelo governo.


Os casos exemplares aqui mencionados referem-se a dois contextos diversos, mas igualmente pouco abertos às inovações, ou seja, uma escola pública e um tradicional colégio de jesuítas. É válido imaginar que, foram desses extremos exista ainda muito mais espaço para os educadores encontrarem, ou até construírem, o nicho profissional em que possam atuar de modo mais satisfatório. Para o que se direcionam, como eles, às áreas de gestão, é importante ter condições de escolher as pessoas mais adequadas para integrar uma equipe.


Como exemplo de ambiente diferenciado de trabalho, destaca-se a Escola Lumiar, fundada, entre outros, pelo empresário Ricardo Semler. Para ele, a chave para a qualidade escolar não está em uma infra-estrutura
high-tech

. “Em algumas das piores escolas que conheço, o professor e todos os alunos têm laptops, pelos quais passa o mesmo lixo conteudístico e anacrônico, só que de forma mais bonitinha e rápida. Aumenta-se a velocidade da insensatez”, dispara o empresário. Já o salário, segundo ele, não determina o envolvimento, que vem do “programa e dos conceitos da instituição”. Mas é, antes, um “fator higiênico”, porque no seu entender, a preocupação com salário dificulta toda a concentração do indivíduo em outras tarefas.


Já Roberto Shinyashiki, médico psiquiatra e consultor na área de recursos humanos vê o salário como fator importante. Mas alerta saber escolher e lidar com as pessoas é indispensável. “É realmente impossível o profissional dar o máximo de si se o salário está atrasado e ele tem de pensar em como pagar o aluguel”, pondera e acrescenta: “Mas o verdadeiro líder cria condições para o colaborador produzir seu máximo, independentemente de prêmios.” A seleção dos colaboradores, para o conferencista, é passo mais importante na composição de uma equipe eficiente. Não se trata de mágica. Mas, sim, de encontrar o perfil correto. “Querer motivar gente que vive sem paixão é impossível e as pessoas são o cerne e uma instituição de ensino”.


Para o próprio Waldir Romero, “a formação de gestores escolares nunca existiu. Nenhum governo tomou essa responsabilidade como importante e estratégica. Dificilmente você um professor sai dos bancos escolares como um gestor. Somente a formação permanente é que possibilita essa situação”.


No seu entender, o diretor é peça chave nas escolas. Conforme ele seja democrático ou autoritário, demagogo ou participativo, o grupo reage a partir dessa postura. “Por isso, é fundamental e estratégico o investimento para um gestor que saiba trabalhar conflitos, e manter relação com a comunidade e instituições. O diretor deve ser encarado como gerente de processos e relações, com uma visão política de mundo e sociedade. A educação é, no fundo, um processo de vivências e relações.” 


 




Principais idéias sobre o direcionamento da carreira





 




Gilberto Dimenstein



– Além de um salário de mercado, é preciso agregar valores imateriais ao trabalho do professor, como o “sonho de inovação” nas formas de ensinar;


– Um diálogo constante é indispensável entre todos os envolvidos no processo educativo: professores, alunos, pais, comunidade.


– Além de trabalhar em conjunto, os educadores de hoje precisam de habilidade para lidar com “outras instâncias” sociais, como família e governo.


 



Mario Sergio Cortella




– “

Salário é sério”, mas não é a única remuneração do educador e nem fator determinante para a escolha da carreira;


– Discussões sobre qualidade não podem se esconder detrás do mito que a escola particular é melhor do que a pública. O professor da rede pública tem maior mobilidade de carreira, recebe mais benefícios;


– Ponto crítico em ambas as redes é falta de projeto coletivo, que possibilite trabalho conjunto.



 




Ricardo Semler



– A equipe não pode ser constrangida a fazer nada que não queira decide.


– A boa gestão dirige a escola com profundo respeito aos direitos de cada criança e pai.


– Apenas uma equipe comprometida em reforçar e exercer valores democráticos pode prosperar.


 



Roberto Shinyashiki



– Para se formar uma equipe de profissionais sensacionais, é preciso que cada membro do grupo tenha o desejo de ser o melhor.


– Determine metas ‘impossíveis’; esteja sempre insatisfeito; tenha senso de realidade; saiba onde você está, os otimistas morrem primeiro.


– Defina quais são as suas vantagens competitivas e onde está a lista dos seus pontos fracos.


 


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