Um ensino experimental

No texto abaixo – que reproduz trechos de uma fala do filósofo Gilles Deleuze – ele defende as práticas pouco ortodoxas da universidade de Vincennes, território de saber livre na França pós-1968

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Numa situação tradicional, um professor fala diante dos alunos que começam a adquirir ou já têm uma certa noção de uma dada disciplina. (…) Em Vincennes, a situação é diferente. Um professor de filosofia, por exemplo,  fala diante de um público que comporta graus diferentes de matemáticos, músicos, de formação clássica ou música popular, psicólogos, historiadores etc. No entanto, em vez de colocar entre parênteses essas outras disciplinas para melhor atingir aquela que se pretende ensinar, os ouvintes, ao contrário, esperam que da filosofia, por exemplo, alguma coisa lhes sirva pessoalmente ou venha coincidir com suas outras atividades.

A filosofia lhes dirá respeito, não em função de um grau que eles possuirão nesse tipo de saber, mesmo que seja um grau zero de iniciação, mas em função de sua preocupação direta, isto é, das outras matérias ou materiais que eles já conhecem. (…) O ensino da filosofia, assim, se orienta diretamente para a questão de saber em que a filosofia pode servir à matemática ou aos músicos etc. – mesmo e principalmente quando ela não fala de música ou de matemática. Tal ensino não é, absolutamente, o de cultura geral; é pragmático e experimental, sempre fora de si mesmo, precisamente porque os ouvintes são levados a intervir, em função de suas necessidades ou contribuições.

Sob dois aspectos importantes Vincennes não se encontra na mesma situação de outras faculdades: de um lado, quanto à distinção dos anos de estudo, já que Vincennes tem condições de fazer coexistir num mesmo nível de ensino ouvintes de qualificação e idades diferentes; por outro lado,  quanto à seleção, pois esta, em Vincennes, pode se submeter a um método de triagem em que a direção do ensino está em constante relação com a direção dos ouvintes.

A presença de numerosos trabalhadores e estrangeiros confirma e reforça essa situação. Então, poderá se objetar que tal ensino não corresponde às normas e não diz respeito a um estudante tradicional, que pretende legitimamente adquirir o domínio de uma disciplina em si mesma. Essa objeção não nos parece de forma alguma fundada. É, ao contrário, do maior interesse pedagógico fazer brincar no interior de cada disciplina os ecos entre níveis e domínios exteriores. Não há ouvinte ou estudante que não chegue com domínios próprios, sobre os quais a disciplina ensinada deve apoiar-se em vez de deixá-los de lado. É o único meio de pegar uma matéria em si mesma e por dentro.


Gilles Deleuze (1925-1995)



Gilles Deleuze nunca deixou de encarar e praticar a filosofia como invenção de conceitos. Professor na universidade experimental Paris-VIII, contribuiu, com Michel Foucault, para mudar a relação com o saber e o poder. Com o psiquiatra Félix Guattari, desenvolveu uma crítica do capitalismo e da psicanálise (

O Anti-Édipo
, 1972). Aberto a todos os campos do saber, refletiu em profundidade sobre o cinema, a literatura e a pintura. Acometido de uma grave doença, suicidou-se em 1995.

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