Um doce veneno

O excesso de açúcar na alimentação e a falta de exercícios adequados podem ser fatais para os jovens que sofrem de diabetes, doença que afeta 12 milhões de brasileiros

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Lígia Ligabue





Controle de carboidratos, aplicações de insulina e testes de glicemia várias vezes ao dia. Essa é a rotina de quem sofre de diabetes, doença que atinge hoje cerca de 12 milhões de brasileiros. Muitos descobrem a doença ainda crianças, e abandonam uma infância normal, passando a depender de uma alimentação controlada e redobrando os cuidados em relação à saúde. Professores, diretores e até os encarregados e proprietários de cantina podem ter um papel importante nesse processo.



A partir do momento em que a diabetes é diagnosticada, o dia a dia da criança se transforma inteiramente. Trata-se de uma doença crônica e incurável que exige vigilância permanente. E especialmente na escola − onde as crianças passam a maior parte de seu tempo − todos devem estar alertas. “É recomendável que os pais dessas crianças convoquem uma reunião com a diretoria, os professores, os outros pais e o médico da criança. Isso pode derrubar mitos e solucionar dúvidas”, aconselha Leão Zagury, médico endocrinologista, presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD).


Nesse encontro, deve-se deixar claro que a criança, a partir daquele momento, precisa ser observada e atendida. Se ela manifestar vontade de ir ao banheiro, de beber água ou comer, o professor deverá permitir e avisar os pais sobre qualquer alteração. “Os professores têm que valorizar as queixas das crianças e não entendê-las como desrespeito”, explica Dorival Damiani, médico endocrinopediatra da Associação Diabetes Juvenil (ADJ).


Para quem convive com a doença, as crises de descompensação de glicose são os piores momentos, principalmente se ocorrem na sala de aula. “Um dia, quando estava na 7ª série, eu não me senti bem durante um debate. Comecei a ficar com muito sono, abaixei a cabeça na mesa e… apaguei! Tive uma hipoglicemia daquelas!”, recorda a professora Camila Lima, 22 anos.


Desde os 12 anos, ela apresenta diabetes do Tipo I. Esse mal se manifesta quando o organismo pára de produzir insulina − substância responsável pela absorção do açúcar no sangue. Naquela ocasião, a mãe de Camila se reuniu com a escola e passou as devidas orientações para a diretoria e os professores.


“No início os professores ficavam receosos por não saberem lidar com a situação, mas hoje não existe mais problema”, lembra Janaína Hashimoto, mãe de Felipe, 7 anos, que convive com o diabetes desde fevereiro de 2002. Na época, Janaína promoveu uma reunião com a escola e com um representante da ADJ, que explicou como lidar com o caso. Ainda hoje, Janaína transmite todas as novas informações sobre diabetes que consegue para o colégio do filho.


Além dos professores, os responsáveis pelas cantinas devem ser conscientizados das necessidades dos alunos diabéticos. “Às vezes, durante uma hipoglicemia, o estudante tem que ingerir açúcar imediatamente para balancear o nível de glicose no sangue. Então, por exemplo, ele não pode permanecer esperando na fila da cantina”, recomenda Zagury. Em termos ideais, a escola deveria sempre incentivar uma alimentação saudável associada à prática de exercícios fora do horário de aula. “Uma atitude recomendável é que as cantinas deixem de vender alimentos calóricos, frituras, refrigerantes. Não só pensando nas crianças com diabetes, mas focando também a saúde de todos os alunos”, acrescenta Zagury.


A preocupação do endocrinologista tem fundamento. O sedentarismo e a alimentação inadequada são as causas do tipo II de diabetes, que atualmente tem afetado inúmeras crianças em países desenvolvidos. “Nos Estados Unidos está acontecendo uma epidemia de diabetes tipo II, ou seja, muitas crianças gordas e obesas têm se tornado diabéticas”, observa Zagury. Essa modalidade da doença atinge um grande número de brasileiros em idade adulta e acontece quando o organismo passa a produzir insulina insuficiente para a absorção de açúcar, elevando assim a sua quantidade no sangue.



Fugir dos doces e do sedentarismo


Alimentação correta em horários adequados e atividade física: essa é, em resumo, a receita prescrita aos portadores de diabetes. E é também a principal dificuldade dos pacientes. Em geral, descobre-se que a pessoa possui diabetes do Tipo I entre os 9 e 14 anos, mas somente após uma crise grave de descontrole da glicemia. E é aí que deve começar o tratamento, com aplicações diárias de insulina e o controle da alimentação.


Obedecer à dieta, porém, pode ser muito difícil. “O Felipe sempre foi bom de garfo e a mudança na alimentação foi pra ele um choque”, recorda Janaína. A professora Camila Lima concorda. “O mais difícil foi largar os doces. Naquela época ainda não existiam produtos dietéticos como hoje! Era um sacrifício encontrar chocolate sem açucar”, relembra.


Para Ricardo Fernandes, 50 anos, que teve diabetes diagnosticada aos 6, essa adaptação transcorreu bem, e ele chegou a ser “o melhor da classe”. “Sempre fui muito disciplinado, e por isso passei a infância e a juventude sem problemas”, ressalta.”Quando minha filha Nicole ficou diabética, sofreu muito com a mudança na alimentação e também por causa das injeções que tinha de tomar. Hoje, com o tratamento, ela faz esportes todos os dias e tem uma vida normal”, lembra a oftalmologista Rejane Nigri.


Segundo o endocrinopediatra Damiani, para enfrentar a diabetes, a pessoa precisa aprender a incluir fibras em sua alimentação, fazer exercícios, e principalmente evitar a chamada
junk food

e o açúcar de absorção rápida contido nos doces.



O indispensável apoio da família


Aprender a conviver com uma doença sem cura é um esforço que exige muitos cuidados e transforma a vida de quem se acha a sua volta. O cotidiano do portador de diabetes muda completamente no dia em que recebe o diagnóstico e se descobre como tal. O diabético necessita reorganizar as suas atividades, ou seja, além de simplesmente readaptar a alimentação deve adotar um outro estilo de vida.


Segundo o endocrinologista Leão Zagury, antigamente os diabéticos estavam condenados aos males secundários, como problemas de visão e até perda de membros. “Hoje, porém, a expectativa de vida é quase a mesma das pessoas sadias. Atualmente aprimoraram-se as tecnologias de controle, melhorando a qualidade de vida e a ampliando sobrevida do paciente”.

Zagury alerta que os pais não devem se enlutar ao perceberem que os filhos sofrem de diabetes. “Todos os pais querem que seus filhos sejam perfeitos, mas nessas horas a família deve manter o controle e buscar uma atitude positiva”, aconselha.

Tomar conhecimento da doença de um filho é sempre um grande choque. “Notamos que o Felipe estava meio estranho e o levamos ao médico. Quando saiu o resultado, ficamos muito surpresos. Não sabíamos nada sobre a doença e achávamos que bastava não comer açúcar”, relata Janaína. Uma das passagens mais tristes para ela foi perceber que o filho jamais se curaria. “Ele pensava que ao completar 10 anos não ia mais ter a doença. Quando eu contei, ele levou numa boa, não se desesperou, mas eu chorei muito”, confessa.


Janaína, mãe de Felipe, já teme os conflitos que virão com a adolescência. “Ele é muito sensato, mas me preocupo com a adolescência, quando ele fizer outras amizades e ficar aborrecido de ter que fazer o teste todos os dias”. Camila Lima confessa que passou na adolescência por uma época de rebeldia. “Não queria fazer as pontas de dedo (o exame de sangue). Mas graças às conversas esclarecedoras com meu endocrinologista e o apoio dos meus pais, voltei a ter vontade de me cuidar”.




Diabetes: o que é e de onde vem




Segundo a Associação Brasileira de Diabetes, é uma doença crônica que se caracteriza pelo fato do organismo não produzir insulina, ou não conseguir utilizá-la adequadamente. A maioria dos casos pode ser dividida em dois tipos:


Tipo I: resulta da destruição das células produtoras de insulina por um “engano” do organismo, que as interpreta como se fossem corpos estranhos. Os sintomas são: muita sede; vontade de urinar diversas vezes; perda de peso (mesmo sentindo mais apetite e comendo mais do que o habitual); fome exagerada; visão embaçada; infecções repetidas na pele ou mucosas; machucados que demoram a cicatrizar; fadiga; dores nas pernas por causa da má circulação.


Tipo II: Nesse caso, a insulina continua a ser produzida, mas de modo insuficiente. Depende mais da hereditariedade que a de tipo I e é até 10 vezes mais comum. Além disso, apresenta uma grande relação com a obesidade e o sedentarismo. Estima-se que de 60% a 90% dos portadores da doença sejam obesos. A incidência é maior após os 40 anos. Os principais sintomas são: infecções freqüentes; visão embaçada; dificuldade na cicatrização de feridas; formigamento nos pés; furunculose.



 




Serviço






Sociedade Brasileira de Diabetes





www.diabetes.org.br



(11) 3842-4931 / 3846-0729

R. Afonso Brás, 579 – Conjunto 72/74 – Vila Nova Conceição / São Paulo



Associação Diabetes Juvenil




www.adj.org.br



(11) 3675-3266 / 0800-100627


R: Padre Antonio Tomás, 213 – Água Branca / São Paulo


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