Um destino para a educação privada

Cultura de aversão ao ensino estatal, fomentada pelos entusiastas do caos, ajuda a explicar o sucesso das escolas particulares

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Uma ex-professora do ensino médio de uma escola de elite narra um intrigante acontecimento. Certa feita, os alunos indagaram-lhe quanto a instituição lhe pagava pela hora-aula, propondo-lhe, em seguida, que dobrariam seu soldo para não ter aulas naquela semana. A insólita tentativa de aliciamento da professora soaria como mais uma das anedotas típicas do ensino privado brasileiro. Não o é. Antes, o relato pode ser tomado como uma caricatura da paisagem ético-política ali dominante. Caricatura que apenas hiperdimensiona o que já está lá, sem contudo acrescentar novos caracteres ao retratado. 

O suborno frustrado faz coro com o espírito mercantilista do setor, cujo apetite desenfreado deixaria qualquer especulador boquiaberto. Demanda ascendente somada a oferta abundante de mão-de-obra resulta em lucro líquido e certo. Um negócio da China, e em franca expansão.

De acordo com pesquisa recente da Fundação Getúlio Vargas, o setor educacional privado cresceu 19% nos últimos cinco anos, passando de 29,5 para 32,5 mil estabelecimentos. Entretanto, no mesmo período, a taxa de aumento das matrículas foi de apenas 4,7% — o que significa que o setor diversificou consideravelmente sua oferta de serviços. E se o fez, havia terreno para tal, ainda mais se levarmos em conta o fato de que, do total de mais de  55 milhões de alunos matriculados na educação básica (segundo o Censo Escolar de 2005, realizado pelo INEP), apenas 13% estão alocados na esfera privada.

Como explicar tamanho sucesso empresarial, a não ser como efeito da cultura de aversão ao ensino estatal, fomentada pelos entusiastas do caos educacional?

Não se trata, aqui, de apontar apenas os gananciosos entrincheirados nos
bunkers

pedagógicos dos bairros elegantes das capitais brasileiras e sua freguesia aflita e voraz, mas também os supostos “bem-intencionados” que, vez por outra, despontam na mídia, nas secretarias de educação, nas universidades e, principalmente, nas salas de aula. São eles os responsáveis diretos por semear a atmosfera implacável e nefasta de estigmatização da escola pública brasileira. Seu efeito mais insidioso: a conversão paulatina de um bem público em transação privada; direito metamorfoseado em mercadoria.

Lembrete aos desavisados: por princípio e força da lei, todo ensino no país é rigorosamente público, seja estatal, seja privado. Escola particular, portanto, não tem jurisdição própria. Trata-se de uma concessão temporária tão-somente.

Ora, se “educação para todos” é o grau zero das funções estatais e se o ensino privado teria se convertido em suposto modelo de excelência prática, restaria uma única alternativa se quiséssemos, de fato, alavancar a educação nacional a patamares outros de qualidade: a desapropriação imediata e irrevogável de toda e qualquer escola privada.

Fica aqui registrado meu quimérico desejo de Ano Novo…




Julio Groppa Aquino é professor da Faculdade de Educação da USP

E-mail:



julio.groppa@editorasegmento.com.br




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