Um corpo de delito simbólico

Na repressão aos manifestantes da reunião do Conselho da USP, houve proporção entre o ato denunciado – a cola no cadeado de um portão – e a violência perpetrada contra alunos, funcionários e professores?

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Apenas ao chegar em casa, já no início da noite, me dei conta de que as marcas da violência permaneciam gravadas. Nas costas, tomavam a forma de vergões oblíquos que desciam do ombro direito em direção às vértebras inferiores. Na alma, tinham provocado fissuras que exalavam um odor amargo de indignação e desesperança. Como as fissuras da alma costumam passar despercebidas à ótica dos especialistas da medicina legal, optei pela configuração de um corpo de delito simbólico, no qual as evidências brotam do testemunho de uma experiência. Despojado de teor jurídico, o testemunho evoca o afeto da palavra que restaura a política ao rejeitar a judicialização. E cria, como principal efeito, a possibilidade de conciliação com o passado: “Todas as mágoas são suportáveis se delas fazemos uma história ou sobre elas contamos uma história” (I. Dinesen).

Faltava pouco para as 14 horas quando cheguei ao portão lateral da Reitoria para participar da reunião do Conselho Universitário. Ao meu redor algumas centenas de manifestantes portavam cartazes, proferiam palavras de ordem, expunham suas várias insatisfações. Em seus rostos reconhecia companheiros de ofício, professores de minha filha, servidores que nos atendem nas exigências cotidianas, alunos que frequentam nossas salas de aula. Com alguns concordava, com outros não. Mas nenhum deles me impedia de entrar na sala do Conselho. E se lá não podia chegar, era porque os portões haviam sido fechados à espera da chegada da polícia, segundo fui informado.

A quem ela era chamada a proteger? Quem sentia a necessidade da presença de armas, bombas e cassetetes dentro da universidade? Quem havia abdicado da palavra em favor da violência? Ao meu redor ouvia discussões, palavras de ordem, algumas vozes exaltadas que pediam que o reitor se retirasse. Mas eram palavras, era o embate simbólico, era a alma da democracia: as vozes que se proclamam iguais nas lutas que travam numa linguagem comum. Não eram as vozes contidas, autorizadas, cronometradas, hierarquizadas que ocupam as cadeiras numeradas de uma sala climatizada. Mas eram também vozes, as primeiras tão legítimas e humanas como as segundas.

Até que as forças policiais chegaram. Formaram fileiras disciplinadas como se fossem soldados hoplitas: protegidos por seus escudos, anônimos em seus elmos. Um deles, situado na segunda fileira, abre sua mochila negra de onde retira cilindros de metal que se espalham em todas as direções deixando um rastro de fumaça que penetra em nossos olhos, que arde em nossas narinas. Elas explodem e criam um campo de batalha, não mais de palavras, mas de corpos. Mesmo atordoado descubro a razão pela qual são chamadas de bombas de efeito moral. Elas invadem nosso corpo, retiram nosso ânimo e nos atiram no chão. E ficamos perplexos vendo uma jovem professora arrastada pelos cabelos, armas apontadas para uma face emoldurada por cabelos brancos, braços musculosos travando frágeis pulsos finos. Não seria uma bomba de efeito imoral?

Tentei me recompor e achar um caminho para a palavra em meio aos ruídos das bombas, aos gemidos de corpos em dor. A entrada havia sido “liberada”. Mas, àquela altura, entrar não seria compactuar com a eliminação das vozes dissonantes? Mas, por outro lado, ficar de fora não seria conceder o monopólio da fala aos que calaram as vozes por coerção? Como em qualquer tragédia, era escolher entre o horror e a desgraça. Caminhava em meio ao que restou, decidido a entrar, mas recusando a escolta policial porque nela não via qualquer sentido. À entrada da reitoria notei um jovem que, caído ao chão e rodeado de policiais, se reduzia a um corpo que era chutado sem poder oferecer qualquer resistência. Quando chutaram sua cabeça corri e gritei que era nosso aluno. Imediatamente um policial veio em minha direção.

Era quase tão jovem quanto o menino que jazia ao chão. Tão espantado e brutalizado pela violência como as vítimas de sua arma e de sua força, que agora se voltavam contra mim. Em um gesto de quem sabe que os direitos humanos neste país têm como pré-requisito uma posição social, bradei que era professor e membro do Conselho. Era o salvo-conduto para adentrar a sala climatizada na qual, em seguida, meus colegas discursariam serenamente acerca da responsabilidade fiscal, apontariam com elegância a inexistência de um necessário inciso ou sugeririam sensatamente uma pequena modificação na redação final. A barbárie autorizada cumprira seu papel: as vozes de fora foram reduzidas a ruídos e gemidos e já não se faziam ouvir no templo da “democracia” que arrogara para si o monopólio de falar com propriedade acerca do “interesse público” e da “responsabilidade social”.

O caráter cínico dos debates acerca da saúde financeira da universidade parecia obliterar a ferida que ali se abria em seu significado espiritual. Como até então ninguém parecia se dar conta dessa obviedade – ou não quisesse torná-la patente –, pedi a palavra para lembrar que estávamos em uma universidade – e não no conselho deliberativo de um banco – e que éramos, na imensa maioria, professores. Que a razão de ser dessa instituição e de nosso ofício é a promoção dos ideais de liberdade de pensamento, de expressão, de produção de conhecimento e de fomento à reflexão. E que não garantimos a liberdade algemando jovens; que não fomentamos a reflexão alienando-nos da responsabilidade de pensar sobre as consequências de nossos atos e decisões, que não promovemos a convivência democrática autorizando a polícia a atirar bombas. E que não poderíamos prosseguir naquele teatro do absurdo, como se fôssemos personagens de um romance de Kafka. Quem, em sã consciência, pode alegar que não imaginaria que aquele seria o desfecho de uma ação conduzida pela Força Tática ou o Batalhão de Choque da Polícia Militar de São Paulo?

Falei, recolhi meus pertences e saí. Depois soube que na reunião houve quem apoiasse a entrada das “forças públicas de segurança” alegando a necessidade de proteção ao “Estado democrático de direito”. Ao tomar ciência desse argumento, imediatamente me perguntei: Havia proporção entre o ato denunciado – a cola no cadeado de um portão – e a desmedida violência perpetrada contra alunos, funcionários e professores? A responsabilidade por um eventual ato isolado deve se estender a todos os manifestantes? Não soube de qualquer tentativa de mediação entre os grupos em conflito. A ninguém ocorreu que as reiteradas manifestações de insatisfação em relação ao Conselho denotam uma crise de representatividade e mesmo de legitimidade desse órgão? Não havia ameaça à democracia pelo simples fato de que ela – em seu real vigor – ficara do lado de lá da cerca, nas vozes que se proclamam iguais em direito, embora lhes seja negado o estatuto humano da fala e da razão. Tampouco ao maior patrimônio público da USP, que não são as vidraças da reitoria, nem sua mais recente aquisição, vejam só, uma cerca! Não foi a manifestação que ameaçou a democracia e o patrimônio público na terça-feira, 7 de março, mas a violência autorizada e consentida. A mesma que fere a liberdade de pensar, escrever e debater e instaurar o novo com a palavra, essa que a nós, mais do que a ninguém, caberia defender. O legado imaterial pelo qual deveríamos zelar é o da memória de pessoas como Florestan Fernandes, Ana Rosa Kucinski e Alexandre Vanuchi Leme (aliás, de que lado eles estariam?) e não o simulacro de democracia reduzido às cadeiras disciplinadas de um Conselho Universitário que tem se limitado à alternância entre o “sim” e o “sim, senhor”.

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