Um canto subversivo

A força de questões que fogem ao controle e ao previsto

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Era início da década de 70. O Brasil vivia seus anos de chumbo: perseguições políticas, sequestros, torturas, desaparecimentos, assassinatos. A doutrina de segurança nacional infligia medo e ufanismo. Na escola, a professora de Educação Moral e Cívica nos ensinava que o Brasil era “uma democracia bipartidária”, como os Estados Unidos; que Garrastazu Médici era um “presidente eleito pelo Congresso” e que o Brasil era o país do futuro. Na 8ª série, como quase todos meus colegas, eu desconhecia as atrocidades dos porões da ditadura e acreditava viver numa “ilha de paz e tranquilidade”, como insistia a propaganda oficial.

Mas houve naquele ano um festival de música (paradoxalmente organizado pela mesma professora!) em que alunos competiam em duas modalidades distintas: composição e interpretação. Os vencedores desta última foram dois jovens, ousados política e esteticamente, que cantaram
A noite dos mascarados

, de Chico Buarque. Difícil saber o que me encantou nessa canção. Teria sido a doçura da melodia? O lirismo de um amor fugaz? O encontro dos opostos? O que recordo com clareza é que passei a procurar, junto aos meus colegas, quem teria esse ou outro de seus discos. Certo dia, Márcia, uma adolescente tímida e cuja existência até então eu ignorara, perguntou-me se eu já tinha ouvido
Construção

. Dias depois ela me emprestaria esse álbum com um pedido severo de que o devolvesse em uma semana.

Foi tempo suficiente para que me apaixonasse pela
Valsinha

, para que sentisse o incômodo então indecifrável das metralhadoras ao fundo de
Deus lhe pague

. Mas foi ao me ver cantarolar, emocionado, o
Samba de Orly

, que meu pai começou a se preocupar. Perguntou-me como o tinha conhecido, se sabia por que a canção tinha esse título. Seu temor era de que eu pudesse ser “influenciado” por algum colega “subversivo”, como dizia. Isso acendeu em mim a curiosidade de saber o que havia de tão perigoso naquelas canções. Foi então que me dei conta do caráter contestador de
Deus lhe pague

; que passei a saber de exilados que acompanhavam seus amigos a aeroportos como o de Orly; de trabalhadores tratados como máquinas e descartados feito pacotes flácidos.

Foi pela voz de Chico, Gonzaguinha, Milton e Elis, que a mim chegavam pelas mãos de meus colegas de escola, que descobri que vivíamos sob a tirania de um regime militar. Dessa consciência ao engajamento político e existencial foi um passo. Que me levou à literatura, depois ao teatro, à filosofia, à educação. Se hoje evoco esse episódio é menos para tomá-lo como um testemunho do passado do que como um alerta sobre o presente: nem sempre é na frieza dos programas oficiais ou das relações formais que se tecem as experiências formativas no âmbito escolar. Muitas vezes é nos espaços que fogem ao controle e à previsão que se produzem as experiências mais marcantes. Como uma canção de amor numa noite fria de junho.



José Sérgio Fonseca de Carvalho


Doutor em filosofia da educação pela Feusp



jsfc@editorasegmento.com.br

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