UM BELO DIA…

No salto da linha à entrelinha, encontra-se a descoberta existencial

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O cronista capixaba José Carlos Oliveira, o irreverente Carlinhos Oliveira (falecido na década de 1980), escreveu numa de suas crônicas: "Até que um belo dia, ah, como é lindo dizer até que um belo dia, até que um belo dia acordei mais tarde…"

Não importa, agora, o contexto deste belo dia. O escritor se admira com a beleza de uma frase tão singela: "até que um belo dia". Sente que a história ganhará novo fôlego, que a partir daquele dia, seus rumos serão outros, outro será o seu destino.

Muitas narrativas encontram neste determinado dia (belo ou menos belo) a mudança súbita e decisiva. O personagem vai caminhando e, num determinado dia, sua aventura ganha novos contornos. A virada radical acontece. A beleza desse dia consiste em ser diferente de todos, e inesquecível. Nesse dia experimentamos ventos novos. Nesse dia aprendemos coisas novas e fundamentais. Mais ainda: nesse dia operam-se transformações.


Uma bela tarde, uma bela noite


O belo dia pode ser também uma bela tarde, como no conto Uma aposta, de Artur Azevedo. O personagem Simplício Gomes está apaixonado por Edviges, cujo apelido é Dudu, mas não se considera à altura da donzela, e decide ocultar o seu amor. Está sempre por perto, é verdade, conformado com a ideia de não ser mais do que um bom amigo de Dudu, uma espécie de protetor, de anjo da guarda. E Dudu começa a namorar a sério um rapaz chamado Bandeira. Simplício sofre, calado. Simplício continua por perto, vigiando. Tudo indica que a moça se casará com Bandeira.

Numa bela tarde, porém, estando os três na mesma sala, Bandeira se revela homem arrogante e intratável. Com palavras duras, avisa a Dudu que tenciona casar-se com ela, sim, mas não pretende dar-lhe satisfação de suas saí­das e chegadas, de suas idas e vindas. Não pretende, em suma, dar satisfação de sua vida pessoal à futura mulher.
Simplício, tudo ouvindo, não se manifesta. Assim que Bandeira sai de cena, senta-se ele ao lado da moça. Os dois permanecem em silêncio, pensativos. E neste silêncio solidário acabam por descobrir que se amam e se querem. Uma bela tarde para Simplício e Dudu.

Uma bela noite também pode ser ocasião para mudanças e reviravoltas. Conta-se, por exemplo, que na Idade Média havia um povoado inglês continuamente atormentado por um feroz dragão, cujo esporte favorito, ou cujo prato favorito, era devorar os jovens daquela região, especialmente as virgens. Temerosos de que sua juventude desaparecesse de todo, os líderes do povoado resolveram "negociar" com o dragão. Este lhes propôs um pacto: se a mais formosa das jovens (que por acaso era filha do homem mais rico do povoado) concordasse em se entregar voluntariamente às suas mandíbulas, o monstro abandonaria aquelas terras para sempre, indo espalhar o terror em outras plagas.

Os líderes do povoado recusaram a indecorosa oferta. Porém… numa bela noite, a mais formosa das jovens decidiu agir por sua própria conta: foi à caverna do dragão para entregar-se e, com esse gesto, libertar seus conterrâneos da maldição.

A história prossegue, e cada um imagine se a noite foi igualmente bela, ou não, para o malvado dragão. Seja qual for o desfecho, o fato é que aquela era a hora da decisão, a hora do heroísmo.


O dia da leitura


Cada pessoa tem sua história de leituras. Nenhuma é igual a outra, como diferentes são as biografias humanas, das mais conhecidas às mais esquecidas. E nessas histórias pessoais e irrepetíveis de leitura também há um belo dia.

A leitura como deflagradora de decisões novas, de novos modos de encarar a vida. Uma leitura criativa, arriscada, arrojada. Muitos movimentos, muitas revoluções que mudaram a face do mundo nasceram de leituras individuais. A leitura que Agostinho fez de Cícero, a leitura que Tomás de Aquino fez de Aristóteles, a leitura que Dante fez de Virgílio, a leitura que Lutero fez da Bíblia, a leitura que Napoleão fez de Maquiavel, a leitura que Freud fez de Sófocles, a leitura que Marx fez de Hegel, a leitura que Nietzsche fez de Sócrates, a leitura que Fernando Pessoa fez de Camões… introduziram interpretações perturbadoras, renovadoras, e produziram por sua vez novos livros para serem lidos num belo dia, numa bela tarde, numa bela noite…

O encontro único entre leitor e autor está na raiz da didática da leitura. Sem esse encontro nada feito. É esse encontro que devemos buscar para nós e propiciar para os outros.
A bela leitura é, antes de tudo, uma guinada na vida do leitor. Subitamente, as entrelinhas saltam aos olhos. As linhas representam o conhecido, o convencional. O linear está ao alcance de todos e provoca poucas mudanças. No momento em que as entrelinhas vêm à tona, vencemos o analfabetismo existencial, oculto em todos nós, leitores normais.

A "anormalidade" da leitura soa, à primeira vista, como "ignorãça", conforme nos conta o poeta Manoel de Barros. Diz ele, num dos seus poemas, que aos 13 anos de idade descobriu seu gosto pela doença das frases. O gosto esquisito não assustou seu mentor, Padre Ezequiel. Este lhe ensina, então, que ele, Manoel, por ser bugre, tinha um jeito próprio de ler o mundo:


Você não é de bugre? –
ele continuou.
Que sim, eu respondi.
Veja que bugre só pega por desvios, não anda em estradas –
Pois é nos desvios que encontra as melhores
surpresas e os ariticuns maduros.
Há que apenas saber errar bem o
seu idioma.

A palavra "bugre" vem do francês bougre (século 12), que remete ao latim medieval bulgarus, com o sentido de "herege". Os búlgaros identificados como membros da Igreja greco-ortodoxa eram desprezados assim pelos católicos. A palavra chegou ao Brasil e passou a designar o indivíduo primário, incivilizado, não cristão, o indígena que prefere os desvios à estrada oficial.

Mas o Padre Ezequiel faz uma leitura positiva do "bugre". É ele o leitor que, errante, errado, acerta nas descobertas mais deliciosas.


* Gabriel Perissé


(



www.perisse.com.br



) é doutor em Filosofia da Educação (USP) e professor do Programa de Mestrado/Doutorado da Universidade Nove de Julho (SP)

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