Um algo e um alguém

Notas sobre a importância de quem ensina no processo de aprendizagem

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Era início da década de 70 e o Colégio Estadual Infante D. Henrique, a exemplo de tantos outros, procurava formas de lidar com o aumento vertiginoso das matrículas na quinta série do ensino fundamental. O salto havia sido enorme: das quatro ou cinco turmas anuais para cerca de vinte! Ao longo dos anos em que a própria escola organizara seus exames de admissão – uma espécie de “vestibular” a separar o então “ensino primário” do “ginasial” – o Infante era uma escola de grande prestígio na suburbana zona leste de São Paulo. Acostumados a trabalhar com uma comunidade escolar selecionada com rigor, os professores se viram diante da tarefa de lidar com uma escola aberta a praticamente todos que nela se inscreveram. A democratização de seu acesso exigia a busca de inovações pedagógicas. Uma delas foi a proposta de elaboração de um complexo “sociograma” de alunos e professores.


O professor responsável por sua aplicação em nossa sala nos explicou seus objetivos. Ele nos garantira que os dados eram sigilosos e pedira o máximo de sinceridade. Parte dele era feita individualmente e dizia respeito a nossa relação com os outros alunos. Outra dizia respeito a nossa relação com os professores e era feita em grupo. Lembro do clima de descontração e alegria no grupo; em particular de um colega nissei, gordo e bonachão, que se divertia ao encontrar adjetivos mais expressivos para cada professor. Chegou a vez da professora de francês, uma jovem francófila, que passava horas a exigir que repetíssemos com perfeição C’est le Brésil/ C’est la France à medida que nos mostrava os respectivos mapas. Ele foi impiedoso: uma chata! Exclamou fazendo biquinhos e imitando seus gestos. O grupo acatou seu ajuizamento e o transcreveu.


Meses depois a professora entra em nossa sala com uma pasta contendo todas as avaliações do sociograma. Começa a ler um por um e, ao final, pede aos autores que se identifiquem. Começamos a nos olhar assustados. Afundávamos em nossas carteiras. Claro, ela deixou o nosso por último. Não lembro uma única palavra do que dissemos; mas lembro da longa angústia até que fôssemos chamados a nos explicar. Ela olhava para cada um de nós gelidamente e dizia que não nos preocupássemos; ela só queria que explicássemos o porquê. De fato, não me recordo de nenhum outro tipo de represália posterior. Nem seria necessário. Teria preferido o ardor de uma palmatória ao tom sereno daquela vingança cruel. 


Foi necessário quase uma década para que me reconciliasse com a língua francesa; que desde então me parecia chata, pedante, dissimulada. Matriculei-me, a contragosto e por absoluta necessidade, num curso de francês instrumental que a universidade oferecia aos alunos de ciências humanas. Tenho a impressão de que à professora pouco ou nada importava o juízo que dela poderíamos vir a fazer. Era rígida, mas clara e objetiva. Sabia exatamente o que queria que dominássemos em cada aula e exigia empenho e participação de todos; embora sempre de uma forma impessoal. Ao final de um ano aprendi a ler em francês; a língua me parecia elegante, precisa, charmosa.


Estranho ofício esse de ensinar. O que dele se aprende é sempre um saber impessoal: um algo; mas que a nós sempre chega por meio de uma mediação pessoal e singular: um alguém. Um alguém que marca indelevelmente nossa relação com algo que aprendemos.


*José Sérgio Fonseca de Carvalho
Doutor em filosofia da educação pela Feusp e pesquisador convidado da Universidade Paris VII
jsfc@editorasegmento.com.b

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