Um a zero

Programa MTV Rockgol consegue fazer rir sem apelar para estereótipos e preconceitos

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Laurindo Lalo Leal Filho*


Está no ar o programa mais engraçado da TV brasileira. E isso não é propaganda, não. Trata-se da constatação de que, finalmente, é possível voltar a rir diante da telinha, o que não acontecia comigo desde o fim da
Família Trapo

, lá pelos anos 60. O autor da façanha é o
MTV Rockgol

, um campeonato de futebol disputado por músicos divididos em 12 equipes e hilariamente transmitido pela MTV.




Não é fácil fazer humor de qualidade na televisão, um veículo que atinge público amplo, com culturas diversificadas. O que é engraçado para alguns pode ser grotesco para outros. Diante dessa dificuldade, os pretensos programas humorísticos apelam para os preconceitos disseminados na sociedade e, com isso, reforçam várias formas de discriminação social. Humilha-se o pobre, o negro, o homossexual, a mulher burra, buscando nivelar a audiência por baixo. Quem ri é quem se sente diferente, superior aos humilhados. É difícil avaliar o sofrimento acumulado por quem é alvo do preconceito. Esse humor é um humor triste, um humor que provoca dor.



Para escapar da tentação fácil de fazer rir apelando para preconceitos, é necessário uma boa dose de auto-ironia e, acima de tudo, a cumplicidade do grupo sobre o qual se desenvolve a anedota.



Um exemplo clássico desse fenômeno é dado pelo humor judaico. Nele, as histórias revelam situações ambíguas, em que as fragilidades pessoais são compartilhadas por todos que podem ser, ao mesmo tempo, contadores da piada ou vítimas dela. Não há relação de subordinação entre espertos e bobos. Sobre esse assunto, aliás, vale a pena ler
Do Éden ao Divã – Humor Judaico

(Shalom, 214 págs., R$ 20). O mesmo se pode dizer sobre o fino humor britânico, que, ao chegar à televisão, não perdeu a linha. Para comprovar, basta assistir aos clássicos do grupo Monty Python ou à autogozação permanente de Mr. Bean.



Esse é o espírito que conduz o humor do
MTV Rockgol

. Músicos sem nenhuma pretensão a craques disputam partidas de futebol com muito ardor e voluntariedade. Os jogos são transmitidos de uma forma que, a um só tempo, expõe a precária técnica dos jogadores, que têm consciência delas, e mostra o quanto são ridículos aqueles que tratam com seriedade exagerada os jogos de futebol transmitidos pela TV.



Os autores da proeza, Paulo Bonfá e Marcos Bianchi, saíram-se tão bem nas edições anteriores do
MTV Rockgol

que agora comandam uma mesa redonda semanal na emissora. O programa lembra uma cena do filme
Boleiros

, de Ugo Georgetti, e é muito mais sério – apesar de ser humorístico – do que seus congêneres que congestionam a TV brasileira nas noites de domingo.



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Sociólogo, jornalista e professor da Escola de Comunicações e Artes da USP





laloleal@uol.com.br



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