“Ubuntu”

Modelo educacional herdado da revolução industrial impede o exercício da solidariedade. Leia na coluna de José Pacheco

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Ubuntu: “sou quem sou, porque somos todos nós” (Crédito: Shutterstock)

Ubuntu: “sou quem sou, porque somos todos nós” (Crédito: Shutterstock)

O mestre Pestalozzi afirmava que a solidariedade na solidariedade se aprende, como vi acontecer numa escola, que acolhia alunos jogados fora de outras escolas. Aqueles que vegetavam no fundão da sala de aula, os que batiam em professor, os rotulados de “especiais”, nela achavam guarida e os devidos cuidados. O TDH ainda não havia sido inventado, nem a indústria da ritalina havia sido instalada, mas os enjeitados jovens já vinham rotulados de alunos com “dificuldades de aprendizagem”, ou até mesmo de “alunos marginais”. Por sorte, naquela escola, apenas havia dificuldades de ensinagem, que os professores, movidos a afeto e intuição pedagógica, tentavam resolver.

A tia do Abel confidenciou a um professor que a criança havia feito tratamento para combater um câncer e que usava um boné, para disfarçar a queda do cabelo. Ao correr no recreio de outra escola, o boné voou. E os seus colegas fizeram troça da sua calvície, motivo suficiente para recusar voltar à escola.

O Abel foi acolhido, escolheu e foi escolhido pelos seus companheiros de equipe de projeto. Durante uma brincadeira, o boné caiu no chão. O Abel apanhou-o e com ele se cobriu, receoso da reação dos companheiros. Esperava que “tirassem sarro” do seu aspecto, mas a reação foi outra: no dia seguinte, os alunos chegaram à escola, quase todos… carecas.

Se o Renascimento contribuiu para a ruptura com o sentido de coletividade, a modernidade operou a separação entre sujeito e objeto, favorecendo o individualismo e uma competitividade negativa, que se manifesta nas escolas que (infelizmente) ainda temos. Pude verificá-lo em visitas a escolas onde prevalece o modelo educacional herdado da revolução industrial e onde o modelo de gestão, que lhes é imposto – em que impera o dever de obediência hierárquica – impede, por completo, o exercício da solidariedade, inviabilizando a recriação do sentido de comunidade. Morin diz-nos que solidariedade é a palavra que pode modificar positivamente o futuro da humanidade, mas, em tais contextos, o exercício da solidariedade não acontece, porque a escola da modernidade seleciona e exclui.

Expulso de outra escola, mais um jovem foi acolhido. Fazia automutilação e logo foi em busca de um objeto cortante. Impediram-no de pegar uma faca e se ferir. Reagiu inusitadamente: foi ao banheiro e urinou no cesto do papel higiênico.

Chegou o dia de reunião semanal da assembleia. E o moço lá estava, olhando em volta, tentando entender o que era aquilo a que chamavam assembleia.

No início da reunião, o Pedro pediu a palavra e disse: Amigos, nesta semana, um de nós urinou no cesto dos papéis.

Nos banheiros daquela escola não havia avisos como: “por favor, dê a descarga”, “por favor, urine dentro do vaso”. E todo mundo sabia quem fora o autor da urinação fora do vaso. O moço, também. E se encolheu na cadeira, à espera de retaliação.

O Pedro concluiu a sua intervenção, dizendo: Precisamos de ajudar um de nós a não voltar a fazer isso. Quem pode ajudar?

Todo mundo levantou o braço. E, no final da reunião, o jovem prevaricador saiu abraçado à sua “comissão de ajuda”. Se esperava admoestação, ou castigo, recebeu solidariedade. Ali se praticava o lema Ubuntu: “sou quem sou, porque somos todos nós”. E ele era mesmo “um de nós”.

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